Liberdade de imprensa como direito do cidadão

Artigo vencedor do Foca na IMPRENSA (junho/2015), por Ligia Marques da Faculdades Integradas Rio Branco

01/07/2015 01:00
Com olhar impaciente e maxilar cerrado, o delegado da Polícia Civil pergunta insistentemente: “Quem é sua fonte? Quem contou tudo isso?” O clima de interrogatório digno da ditadura militar aumenta com o forte murro dado na mesa pelo homem, que continua: “Vocês não disseram que o Governo do Estado tem a capacidade de monitorar e-mails dos servidores? Agora vão ter de me dizer quem contou isso.”

Foi assim que os repórteres Felippe Aníbal e Diego Ribeiro, do jornal paranaense Gazeta do Povo, foram inquiridos sobre denúncias feitas em reportagem sobre abuso na formação de policiais e controle sobre e-mails de servidores. Assustados, eles só tiveram como alternativa evocar a garantia constitucional do sigilo à fonte, vinculada à liberdade de imprensa. 

Barrar este princípio básico cerceia não só o trabalho do jornalista como cala a voz da sociedade e impede o direito à informação. Afinal, o profissional deve agir baseado no interesse coletivo.  

A luta do homem pelo fim de impedimentos sobre a manifestação de suas ideias é chamada Liberdade de Expressão. Porém, por mais que leis regulamentem isto, a falta de técnicas relacionadas a comunicação faz com que o pensamento do cidadão seja enclausurado. Afinal, a informação bruta sempre existiu, mas o que determina se ela vai, ou não, virar notícia é o trabalho midiático, que inclui as práticas jornalísticas.

Na era contemporânea, a internet é inundada com gigantescas quantidades de dados. Para alguns, isso representa o fim do jornalismo tradicional, entretanto, informações da web nem sempre conferem com a verdade e precisam ser apuradas e checadas, o que reforça, de certa forma, o papel do jornalista.

Apesar disso, frases como “Quero que tire do ar” são proferidas frequentemente nas redações por parte de fontes e assessores, cuja atitude espanta quando estas têm relação com órgãos que deveriam andar de mãos dadas com a Constituição Brasileira.

O caso acima não é o primeiro a ser enfrentado pelos jornalistas. A série de reportagens intitulada “Polícia Fora da Lei”, publicada em 2012 por Mauri König, Felippe Aníbal, Diego Ribeiro e Albari Rosa, da Gazeta do Povo, resultou em absurdos. De acordo com Felippe Aníbal, os depoimentos prestados foram alterados por escrivães. “O sargento que conduzia o inquérito tentou um reconhecimento pessoal. Ele chamou um soldado e perguntou se ele era minha fonte. Foi constrangedor”.

Hoje, três anos após os depoimentos, os repórteres envolvidos têm suas rotinas alteradas. Depois de ter de se exilar, Mauri voltou ao Brasil e participa de forma efetiva em debates sobre a liberdade de imprensa. Já, Felippe muda constantemente o caminho para casa e evita realizar e receber ligações via celular, pois acredita que esteja grampeado. 

Situações como esta retratam o que o relatório da organização americana Freedom House afirma: "A mídia brasileira enfrenta ameaças da violência e da impunidade, além de censura judicial". Por fim, valorizar a imprensa é o mesmo que respeitar a democracia.