Mulheres revelam casos de assédio moral e sexual em veículos de comunicação

Danúbia Paraizo

 
As mulheres já obtiveram vitórias importantes no mercado da comunicação, como a conquista de mais cargos de liderança e até de salários mais igualitários em algumas corporações. Também são maioria no setor, ocupando 63,7% das vagas, como revelou a pesquisa “Perfil profissional do jornalismo brasileiro”, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mas o cenário ainda está longe do ideal, principalmente, do ponto de vista das condições de trabalho.

Em meio às incertezas geradas pela crise nos veículos impressos, com demissões em massa e publicações fechando suas portas, os jornalistas precisam lidar com pressões que comprometem não só o trabalho, mas que trazem consequências graves para sua saúde. Ainda que os problemas de assédio moral e sexual, por exemplo, não sejam exclusivos das mulheres, elas acabam sendo as principais vítimas, como explica Celso Schröder, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).

“Não temos números para saber das denúncias de forma exata. Mas sabemos que há mais mulheres trabalhando no jornalismo, portanto, mais mulheres ficam expostas a relação de trabalho desfavorável. Soma-se a isso a tradição, infelizmente, de uma sociedade ainda machista, que não aceita a ascensão das mulheres. São pessoas que rejeitam e reagem a esses postos cometendo assédio”.


Crédito:Getty Images
Jornalistas relatam casos de assédio


Mais comum do que muitos imaginam, o advogado Irineu Ramos explica que o assédio moral é caracterizado pela sequência de atentados a dignidade do trabalhador, podendo causar ou não danos a sua saúde física e mental. “Trata-se de uma prática arbitrária e abusiva contra o trabalhador, vinda do chefe contra o funcionário, ou ainda, entre colegas de trabalho”. 

Perseguição gratuita

Para Ramos, é impossível determinar todos os tipos de assédio moral, visto a diversidade de situações no ambiente corporativo, mas mesmo pequenos gestos dissimulados, como, por exemplo, uma “cara feia” ou o fato de o chefe não cumprimentar o funcionário ou do nada parar de lhe dirigir a palavra, mandando recados através de outros, já configura a prática.

A jornalista Rosa Oliveira* já passou por situação semelhante em seu último emprego, em uma emissora de TV da Região Metropolitana de São Paulo. Como editora de texto, foi perseguida pela diretora de redação, sofreu humilhações públicas e tinha constantemente seu trabalho questionado. A chefe chegou ao ponto de entrar no switcher durante a exibição de um jornal ao vivo aos gritos, chamando-a de sonsa e incompetente. A gota d’água foi o empurrão que levou.  Rosa não teve dúvidas: foi até o departamento de RH fazer uma queixa formal, mas para sua surpresa, dias depois, foi chamada para uma reunião com a própria diretora.

“Ao invés de a empresa proteger o funcionário e tentar resolver o problema, me confrontou com a agressora. Fui coagida nessa reunião e acabou ficando por isso mesmo. Até que ela fez de novo, me xingou de incompetente na frente de todos. O pior é que a direção só passava panos quentes. Resolvi pedir minha rescisão de contrato e abri um processo trabalhista contra a empresa no começo de 2014”.

Histórias como a de Rosa são exceção diante do receio das jornalistas acabarem “queimadas” no mercado caso denunciem o assédio. Ela mesmo confessa que ficou preocupada, mas que depois que descobriu seus direitos, fez questão de cobrar a responsabilidade da empresa. “Bateu a preocupação de entender se de fato estava sendo vítima de assédio moral. Procurei saber porque não queria ser injusta nem leviana. Estudei muito, conversei com especialistas. Quando estive munida, não tive medo nenhum, nem de ficar queimada. Vergonha deveria ter a empresa de permitir que isso acontecesse”.

“Queimado” no mercado

Renata Silva* não teve a mesma coragem da colega. Vítima de assédio sexual na agência de comunicação onde trabalha, ela chegou a reportar o caso à direção, mas recebeu como respostas insinuações de que estaria dando corda para o agressor e que como ele dá bons resultados para a empresa, era melhor que ela fizesse vista grossa.

“Cheguei a pensar em processo, até procurei advogados. Mas na nossa área fama é tudo. Se o caso se espalhasse tive receio de não arrumar emprego. Fico com medo de represálias”. Recém-casada e com compromissos financeiros, ela tem sofrido com a perseguição de um diretor, que a considera parecida com uma ex-namorada. 

“Logo no primeiro dia ele pegou na minha mão e fez carinho. Achei estranho. Depois ele me adicionou no Facebook, fuçou meus amigos, as páginas que eu curtia, descobriu meu telefone, onde eu moro, enfim, perseguiu minha vida completamente e usava isso para me assustar”. A primeira vez que a jornalista decidiu levar o caso à direção foi quando o agressor começou a chamá-la pelo nome da ex-namorada. O caso só foi piorando, assim como as reclamações de Renata à direção.

Os casos de assédio moral e sexual são tão graves que podem até mesmo fazer com que muitas profissionais acabem desistindo da carreira. Ana Gomes*, ex-editora de política em um grande veículo impresso de São Paulo, que o diga. Os gritos do chefe e as pressões eram constantes na redação. “Ele era histérico, muito despreparado. Ele era cobrado de cima e não sabia lidar com isso. Repassava a bronca para os colaboradores de forma desmedida”, recorda-se.

Apesar do clima pesado, Renata aguentava o tranco até que após a cobertura das eleições de 2013 teve um problema com a assistente do seu chefe. Renata saiu da redação às 3h naquele dia e acabou se atrasando na manhã seguinte para a reunião de pauta. Quando chegou, foi recebida aos berros. Acabou tendo um acesso de nervos com a discussão e parou na enfermaria do veículo. Depois do incidente, passou a ser ignorada, e só recebia orientações de trabalho através de recados de outro repórter. Também era mandada para pautas impossíveis, até que finalmente foi demitida.

“Confesso que estou bem dividida sobre o jornalismo. É claro que existe a competição sadia, você quer fazer reportagem investigativa, dar um furo, mas você precisa equilibrar sua vida. A impressão que dá é que você precisa se dedicar 100% a profissão. Não quero isso para mim”.

Como denunciar

Apesar do possível constrangimento de levar a denúncia de assédio adiante, principalmente porque quem faz a acusação é quem tem a obrigação de prová-la, segundo a lei, o advogado Irineu Ramos esclarece a importância de as mulheres se sentirem encorajadas para isso. Se o abuso for coletivo, uma boa solução é fazer a denúncia em conjunto. Procurar o sindicato dos jornalistas para orientações é indicado, ou ainda, o Ministério Público do Trabalho (MPT), responsável por zelar pela harmonia e saúde do trabalhador. Se for o caso, o MPT pode instaurar um inquérito contra a empresa e avaliar possíveis penalidades.

Outra opção é buscar a Justiça do Trabalho e abrir um processo judicial. Para Ramos, o grande desafio é ainda a dificuldade da prova documental e de testemunhas. A jornalista Rosa teve exatamente esse problema no processo trabalhista que moveu. “Tive dificuldades de ter testemunhas, apesar de diversas pessoas terem presenciado os abusos da minha ex-chefe. O processo ficou muito fraco nesse sentido. Acho legítimo, entendo esse receio de perder o emprego. Nossa profissão é tão perversa porque ela é muito rotativa, se você não joga o jogo tem um monte de gente que aceita. Não conseguimos avançar porque a estrutura de trabalho não permite”, desabafa.

Um ano após o processo, finalmente chegou a decisão judicial, indicando que as provas apresentadas por Rosa eram fracas, e que a Justiça não entendia o caso como assédio, mas apenas uma relação comum de chefe e subordinado. “Eu até poderia recorrer, mas foi tudo muito desgastante”, lamenta a jornalista.

*A pedido das jornalistas ouvidas, seus nomes foram alterados para que sua privacidade fosse respeitada.

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