Primeira editora da “Newsweek”, Lynn Povich liderou processo histórico por discriminação

Gabriela Ferigato

 

“Se você quer escrever, vai para outro lugar. As mulheres não escrevem na Newsweek”. Nos idos de 1960, essa era a resposta que as mulheres recebiam ao buscar uma oportunidade de emprego na revista norte-americana. Segundo a jornalista Lynn Povich, apenas homens eram contratados como escritores, editores e repórteres. Às mulheres, eram oferecidas funções de pesquisa.

Em resposta, Lynn encabeçou um movimento formado por 46 mulheres da redação em um processo trabalhista por discriminação sexual. O acordo estipulou que – até 1974 - 1/3 dos profissionais do veículo deveriam ser mulheres e que uma delas deveria ser nomeada editora sênior até 1975. Foi assim que a jornalista se tornou a primeira editora sênior na história da Newsweek.

Crédito:Christian Steiner
Em 2012, Lynn lançou o livro “The Good Girls Revolt: how the women in news sued their bosses and changed the workplace” [A revolta das boas garotas: como as mulheres nas redações processaram os seus chefes e mudaram o ambiente de trabalho, na tradução literal]. Hoje, a Amazon trabalha em uma série baseada na obra. IMPRENSA conversou com a jornalista sobre o processo, seu desfecho, igualdade salarial e mídias sociais. Confira abaixo.

IMPRENSA - Você liderou um grupo de 46 mulheres em um processo trabalhista histórico por discriminação sexual. Como era o ambiente da publicação nessa época? 
Lynn Povich - Em 1969, quando começamos a nos organizar, apenas os homens eram contratados como escritores, editores e a maioria como repórteres. Mulheres eram contratadas como pesquisadoras e raramente promovidas fora da categoria. Quando as mulheres contatavam a Newsweek para um trabalho, ouvíamos: “Se você quer escrever, vai para outro lugar. As mulheres não escrevem na Newsweek”.

Quais foram os principais passos no processo trabalhista? 
Contratamos uma advogada chamada Eleanor Holmes Norton, assistente jurídica adjunta da União Americana pelas Liberdades Civis. Ela deu uma olhada no topo do mastro, com todos os homens listados a partir da categoria superior até à inferior, onde todas as mulheres estavam - e disse que era, obviamente, um padrão de discriminação. Ela nos aconselhou a apresentar uma queixa de ação de classe na Comissão de Igualdade e Oportunidades de Emprego em Washington, que havia sido criada recentemente. Após apresentar uma queixa, a pessoa é protegida de ser demitida, mas, até ser arquivada, estávamos com medo de sermos demitidas a qualquer momento. No entanto, uma vez que entendemos que era ilegal a segregação de tarefas por sexo, sentimos que tínhamos que fazer algo para mudar o sistema.

Qual foi o desfecho do processo? Seu chefe, na ocasião, foi demitido? Os homens da redação apoiaram a sua decisão?
Os editores, que eram a favor do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos e contra a guerra no Vietnã, foram principalmente progressivos de modo que queriam resolver rapidamente. Durante vários meses, negociamos um acordo em que se eles se comprometeram a contratar e promover mulheres, assinado em agosto de 1970 (entramos com nossos encargos em março 1970). Havia diversos bons homens que apoiaram as mulheres. Meu chefe, um escritor chamado Harry Waters, me orientou, incentivou e sugeriu ao nosso editor que eu fosse promovida a escritora júnior, o que aconteceu em 1969. Mas esse editor foi transferido para outra seção pouco depois e um novo editor não gostou do meu trabalho, mas ele foi demitido dois anos mais tarde, em 1972. Muitos dos escritores homens que trabalharam conosco nos apoiaram porque sabiam que éramos inteligentes e talentosas.

Ainda sobre isso, qual sua opinião sobre a campanha #HeforShe, da ONU, que busca incentivar igualdade de gênero?
Sempre achei que homens deveriam fazer parte do Movimento das Mulheres. É um movimento pela igualdade, não dominação, e tudo o que exigimos ajudou – e com ajuda dos homens -, que se falasse sobre licença maternidade, o que gerou a licença paternidade ou horas flexíveis, por exemplo. Espero que esta nova geração de homens, que querem ser mais envolvidos na criação de seus filhos do que a geração do meu pai, acelerem e exijam mudanças que tornem o trabalho melhor para homens e mulheres.

Quarenta anos após o processo, quais avanços acompanhou na igualdade de gênero nas redações? 
Ainda há uma discriminação ostensiva: desigualdade salarial, a discriminação da gravidez, a falta de bons trabalhos, mulheres raramente promovidas a cargos de chefia e também algumas são vítimas de assédio sexual. Mas cada vez mais, porque quase todas as empresas têm uma política de não discriminação no papel, o que vemos é um preconceito não intencional ou inconsciente em relação às mulheres, onde as pessoas têm suposições sobre as mulheres por causa de como eles foram criados.

Você se tornou a primeira editora sênior na história da revista. Em uma de suas entrevistas, comentou que descobriu, assim, a discrepância dos salários. Isso ainda é uma realidade? Como identificar um padrão discriminatório? 
Realmente acredito que a maioria das mulheres ganham menos do que os homens pelo mesmo trabalho. Nos Estados Unidos, a diferença de remuneração é de 77 centavos em todos os postos de trabalho e no percentil 80 para muitos trabalhos profissionais. É um grande problema e agora existem leis nos EUA que dizem que é ilegal descobrir o quanto alguém ganha, o que torna difícil descobrir quais são os salários dos colegas de trabalho. Então, muitas vezes, a única maneira de descobrir é encontrar um amigo ou fonte que pode lhe fornecer alguns dados ou salários comparativos.

Há um projeto brasileiro chamado “Entrevista uma Mulher”, que visa a inclusão da mulher como fonte para matérias, entrevistas e rodas de debate. O que acha da ação e qual a sua importância?
Acho que é mais popular internacionalmente para um chefe declarar que uma mulher deve ser incluída em uma história, entrevistada para um artigo ou retratada na primeira página. Acho que nos EUA varia da organização de notícias e do chefe de notícias. Nosso acordo com a Newsweek estipulou que 1/3 dos repórteres e escritores deveriam ser mulheres até o final de 1974 e que uma mulher deveria ser nomeada editora sênior até o final de 1975 (o que eu fui). Então, acredito na criação do que chamamos de “metas e calendários” para a promoção das mulheres e das minorias.

As mudanças trazidas pelas mídias digitais são mais favoráveis ou prejudiciais às mulheres em relação aos novos formatos e tipo de cobertura? 

Acho que as mudanças são favoráveis e prejudiciais. Temos um grande impulso nos EUA agora para incentivar mulheres nas profissões de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, porque poucas seguem esse caminho e é um campo que está crescendo muito e é mais lucrativo. Estamos vendo mais mulheres com habilidades tecnológicas. E, de certa forma, acho que a mídia social tem sido uma benção para as mulheres, para escrever, para serem reconhecidas como escritoras e especialistas, para organizar outras mulheres e apontar as desigualdades. Mas também é verdade que quando as mulheres postam notícias ou opiniões online são mais perseguidas do que os homens.

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