“É hora de agir”, diz apresentadora iraniana que denunciou assédio sexual no trabalho

Alana Rodrigues

 
Cansada de ser vítima de frequentes abusos e alimentar o silêncio feminino no Irã, a jornalista Sheena Shirani decidiu pôr fim aos assédios que sofria em seu ambiente de trabalho e virou um símbolo mundial para outras mulheres que passam pela mesma situação.

A ex-apresentadora da Press TV, canal estatal iraniano de notícias em inglês, denunciou o chefe, o diretor de notícias Hamid Reza Emadi, que é casado, e o diretor de estúdio Payam Afshar. Os dois pediam a ela favores sexuais.

Crédito:Arquivo pessoal

Sheena Shirani denunciou assédio de ex-chefe

Depois de sofrer o assédio, ela se demitiu e deixou o país com o filho para publicar o áudio de uma conversa com o ex-chefe em sua página no Facebook. Durante o diálogo, Emadi pede que a apresentadora o visite depois do trabalho para que ela tenha relações sexuais com ele.

“Eu sempre te apoiei. Eu sempre te ajudei. Eu não estou pedindo para que você mate alguém. Você pode me ajudar como uma amiga. Você pode fazer sexo comigo como amiga”, diz o áudio. Após a repercussão, o diretor alegou que as gravações eram falsas e ameaçou Sheena para que ela apagasse o conteúdo.

À IMPRENSA, a jornalista relatou detalhes sobre o caso, as ameaças que recebeu após a denúncia, a condição da mulher e como ela é vista no Irã, além de seus planos para defender os direitos das mulheres no país.


IMPRENSA:  Você trabalhou durante 9 anos na Press TV. Já havia pensado em fazer a denúncia antes? Quando decidiu que era o momento certo?

Sheena Shirani:
Sim. Eu trabalhei na área esportiva e de notícias para a Press TV por 9 anos e, antes disso, atuei como apresentadora no Serviço em Inglês da Rádio Voz da República Islâmica (IRIB). Ao longo de todos esses anos em que fiquei lá, fui assediada sexualmente por homens de diferentes cargos.

A gravação de voz que eu decidi publicar na minha página do Facebook foi o último incidente que ocorreu na Press TV, e que me obrigou a fugir do meu país. A conversa que eu gravei foi um telefonema com o meu chefe, que também é diretor de redação da Press TV, Hamid Reza Emadi.

Um homem que tinha apoio do CEO da Press TV, Mohammad Sarafraz, que agora foi nomeado pelo líder supremo do Irã como chefe da IRIB. Emadi era uma figura muito poderosa e influente não só na Press TV, mas também no Irã, especialmente após ter sido sancionado pela UE por violações dos direitos humanos.

Se eu tivesse uma chance de ser apoiada pelo sistema judicial no Irã ou por autoridades superiores na Press TV, se eu tivesse como apresentar uma queixa legal contra Emadi, eu teria, sem dúvida, feito isso, mas como disse anteriormente, Emadi tinha apoio do Sarafraz e do líder do Irã. Eu poderia perder minha vida.

Você recebeu algum tipo de ameaça depois da denúncia?

Depois que eu publiquei a gravação de voz na minha página do Facebook, fui contatada pelo próprio Emadi. Ele me mandou uma mensagem, pedindo para que eu assumisse um cargo baixo. Disse que o que eu fiz teria consequências graves para mim e meu filho e que seria interpretado como um ato conspirador contra sistema. Mais tarde, ele postou uma mensagem no WhatsApp pressionando os funcionários da Press TV e ameaçando enviar a Interpol atrás de mim.

Houve ainda uma enorme reação contra mim por muitos adeptos iranianos e não iranianos da República Islâmica. Recebi inúmeras mensagens de ódio, disseram que eu seria morta num acidente, que eu deveria ser apedrejada até a morte e até agora eu ainda fico preocupada com a minha segurança e do meu filho.

A Press TV te apoiou em algum momento?

Mesmo que Emadi tenha sido suspenso pela Press TV após a gravação se tornar viral, na declaração oficial, eles disseram que falar sobre o abuso numa rede social era suspeito e também me acusaram de colaborar com a imprensa de oposição.

Acredita que outras mulheres da emissora passaram ou estão passando por situações semelhantes?

Muitas mulheres. Não só na Press TV, mas em muitas empresas e organizações públicas e privadas elas têm sofrido o que eu passei. Nenhuma delas acreditam que suas vozes podem ser ouvidas e temem perseguição.

Depois que Emadi foi suspenso, diversas colegas me procuraram, agradeceram por representar as vozes delas e disseram para que eu permanecesse forte. Infelizmente, no Irã, a lei e o quadro jurídico é altamente discriminatório em relação às mulheres.

Você quebrou um tabu ao denunciar o assédio sexual que sofreu. O que é preciso para que as mulheres tenham voz no Irã e deixem de passar por isso? 

Quando mulheres protestaram por não ter direito de assistir jogos em estádios, a presidente do Parlamento Iraniano respondeu que era melhor que elas ficassem dentro de suas casas para cuidar de seus filhos. Há corrupção generalizada em diferentes níveis do país.

Como uma mulher, você não pode confiar nem mesmo nos agentes da lei. Se você é uma mulher em oposição ao poder e sem meios financeiros para cuidar de si mesma, você não tem absolutamente nenhuma chance de sobreviver.

É preciso ceder às exigências sexuais de seus chefes e desistir de prosseguir uma carreira e vida social. As leis precisam de mudança. Regras rigorosas devem ser colocadas em prática para garantir a segurança das mulheres e protegê-las.

As mulheres precisam se tornar conscientes de seus direitos e parar de serem tratadas como cidadãs de segunda classe no próprio país. Elas precisam saber que suas vidas são importantes, devem se sentir seguras em suas próprias casas ou na sociedade. As mulheres podem ter poder.

Pensa em voltar a apresentar programas de TV? quais são seus planos no novo país?

A minha principal preocupação agora é a segurança do meu filho. Algum dia, quando chegar em um lugar seguro, quero dedicar minha vida para lutar pelos direitos das mulheres. Após essa provação terrível, muitas mulheres ao redor do mundo estenderam a mão para mim e compartilharam suas experiências tristes de abuso e assédio. Tenho me esforçado muito para levantar esta questão dentro da minha própria sociedade.

Eu não quero que isso seja tratado como um caso obsoleto. Tenho dito repetidamente que falar contra Emadi não foi um ato de vingança, mas um desabafo. Muitas mulheres estão sendo assediadas. Muitas estão sendo abusadas. É hora de agir para salvar não apenas mulheres, mas, consequentemente, homens, crianças, famílias, sociedades e, finalmente, o mundo

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