“AzMina não deveria ser necessária. Todo jornalismo deveria ser feminista”, diz Nana Queiroz

Vanessa Gonçalves

 
“O século XXI chegou e parece que a luta das mulheres nem bem começou. As pautas sobre os temas femininos frequentemente caem no lugar comum e cada vez mais surgem veículos independentes que, cansados da cobertura feijão com arroz, tentam mudar o olhar sobre a mulher na imprensa brasileira.

Há seis meses a jornalista Nana Queiroz fundou a revista digital AzMina, que tem como objetivo empoderamento da mulher e uma cobertura sobre assuntos femininos a partir de um novo olhar.

Crédito:Arquivo Pessoal

Nana Queiroz, diretora executiva da revista AzMina

Com três edições no ar e fazendo a diferença para muitos leitores e leitoras, o veículo financiado por doações e ações crowdfunding se prepara para completar um ano de vida com a produção do livro “Você é feminista e nem sabia”. 

Fora isso, AzMina ampliou sua atuação na imprensa e no Dia Internacional da Mulher abriu dois grupos de apoio psicológico e legal para mulheres vítimas de relacionamentos abusivos. Extrapolando as funções do jornalismo, a revista acabou se transformando em uma rede de apoio às mulheres, comprovando que a luta...continua.
 
IMPRENSA - Qual a importância de uma revista como AzMina que busca o empoderamento feminino?

NANA QUEIROZ - A verdade é que eu acho que a revista AzMina não deveria ser necessária, porque todo jornalismo do Brasil e do mundo deveria ser feminista. O jornalismo feminista não é um que fala só de mulher, o jornalismo feminista é o que prega a equidade, a igualdade de direitos, que interpreta as mulheres como as pessoas inteligentes que elas são. Se o jornalismo fosse feminista em geral, não teríamos, por exemplo, os maiores veículos do Brasil como 70-90% de colunistas homens. Quando vamos para colunistas mulheres e, principalmente, mulheres negras, o número fica ainda pior. A Folha, por exemplo, não conheço nenhuma colunista negra. Então, a revista AzMina vem para desfazer esse desequilíbrio, para dar um pouco de voz para o outro lado que está negligenciado pela imprensa em geral. E isso é empoderador para as mulheres.

As mulheres precisam, em primeiro lugar, ser consideradas na hora da produção de conteúdo e de informação. E, em segundo lugar, elas precisam sentir que existe voz para mulher, que existe consideração para o que elas pensam, dizem e querem. 

As mulheres também precisam de figuras que seja inspiradoras, por que não? Mulheres negras que são fortes por suas ideias, mães que pensam em alternativas aos modos tradicionais de maternidade e prezam por uma carreira, mulheres que escolhem coisas diferentes ao que o mundo e está impondo para elas.

Então, acho que a grande questão aí é que a revista AzMina não deveria ser necessária, mas ela é. Ela é necessária para desfazer um desequilíbrio que existe e não deveria existir no jornalismo brasileiro.

Na sua opinião, a mídia brasileira ainda é machista quando trata de assuntos femininos? E como acha que isso pode mudar?

Acho que toda a mídia brasileira é machista. Quando você fala de mídia de notícias em geral, ela é machista porque não dá voz. Se você pensar, as duas vozes da grande imprensa hoje sobre os direitos da mulher são o Gregório Duvivier e o Leonardo Sakamoto. Isso está errado. As mulheres é que deviam falar dos direitos da mulher. Só que estes grandes veículos não dão espaço. Existem mulheres incríveis e capazes de falar sobre isso e que não estão ganhando espaço dos grandes veículos.

Acho que os veículos mais machistas da imprensa brasileira, por incrível que pareça, são as próprias revistas femininas, que parecem escrever para uma mulher completamente alienada, para uma mulher que só se preocupa em se enquadrar a um padrão de beleza opressor e desesperador, porque 90% das mulheres jamais chegarão àquele padrão quase anoréxico de magreza, loiritude e cara de boneca padrão europeu. As revistas femininas estão se alimentando da insegurança feminina para agradar quem são seus verdadeiros clientes.

Há muito tempo os clientes das revistas femininas não são as mulheres, mas sim os anunciantes. Para esses anunciantes de produtos de beleza, cremes para celulite e cirurgias estéticas, interessa que as mulheres estejam inseguras e procurem cada vez mais compensar a sua insegurança comprando coisas. Na revista AzMina, acreditamos no método de resolver esse problema fazendo com que as leitoras voltem a ser as verdadeiras clientes do jornalismo. Com o advento da internet e a popularização de conteúdos online, aparentemente gratuitos, as pessoas esqueceram que informação, notícia e jornalismo profissional não vem de graça nunca, tem sempre alguém pagando a conta. E a maioria das pessoas que diz estar fazendo jornalismo de graça, na realidade faz um jornalismo pago por pessoas que eles não querem contar quem são. E todo mundo que paga a conta tem interesse. 

Tem que haver um acordar dos leitores lembrando que eles precisam pagar a conta e precisam demandar que o jornalismo os represente melhor. Claro que os jornalistas também têm de fazer o papel e lutar de dentro da imprensa para que isso seja feito. Também precisamos que os grandes veículos paguem cursos e workshops para seus jornalistas aprenderem a falar de gênero de uma maneira menos preconceituosa, para que eles aprendam, por exemplo, a maneira adequada de tratar assuntos LGBT, assuntos da mulher e parem de ficar reproduzindo tanto estereótipos de gênero por aí.

A revista está no ar há seis meses. Quais os resultados e como funciona o financiamento da revista? 

Temos sido financiados em grande parte por doações voluntárias e crowdfunding. É desafiador de convencer o leitor brasileiro de que ele precisa pagar pela informação, mas o resultado tem sido muito positivo. As nossas matérias estão muito bem comentadas e  acho que estamos alimentando o debate sobre gênero. A campanha “Carnaval sem assédio” que foi encabeçada por nós junto com o Catraca Livre e outros grupos feministas atingiu amis de 3 milhões de pessoas só pelo conteúdo produzido pela revista AzMina. É muita coisa para uma revista que só tem seis meses de vida. O nosso artigo sobre as mulheres negras falando sobre a Globeleza chegou a 25 mil compartilhamentos. Mesmo as nossas grandes reportagens questionando temas tabus nunca deixam de ter de menos de mil compartilhamentos. Temos um conteúdo que viraliza muito e as respostas são 99% positiva dos leitores, inclusive de homens, que escrevem dizendo que se transformaram depois de ler nossos textos ou de mulheres que estão muito mais empoderadas com esta visão de mundo.

Essas respostas nos levam a crer que existe muita sede desse tipo de conteúdo no Brasil, embora não exista a consciência de que esse conteúdo só vai surgir se as pessoas pagarem por ele. Esse é o grande desafio no momento do jornalismo: convencer as pessoas de que estão pagando por algo precioso. A informação é valiosa, tem poder. Os nossos resultados têm sido os mais animadores possíveis. No dia 8 de março presenteamos nossas leitoras com a abertura de nossos dois grupos de apoio psicológico e legal para mulheres vítimas de relacionamentos abusivos, algo que até extrapolou o jornalismo para se transformar em uma rede de apoio às mulheres. A nossa expectativa é muito positiva.

E quais são os planos de AzMina para o futuro?

Para celebrar o primeiro ano da revista vamos lançar o livro — "Você é feminista e nem sabe" — em parceria com outra editora. Vamos fazer a seleção dos melhores assuntos trabalhados na revista, com enfoque, claro, mais apropriado para o livro, mas serão artigos inéditos dos assuntos que abordamos no primeiro ano. Achamos que será um livro que ajudará muita gente a enxergar de outra maneira, para as mulheres se empoderarem cada vez mais. Terá uma linguagem super acessível, mas sem menosprezar a inteligência da leitora, para que a pessoa possa ter uma porta de entrada doce para o feminismo. Estamos bastante animadas com isso.

Vemos que outros veículos têm apostado no empoderamento da mulher. Acha que esse é o caminho é sair dos meios tradicionais e apostar no digital porque tem menos amarras?

Acho que as amarras estão muito mais no modelo de negócios do que nos. Acho que mesmo uma revista impressa pode se livrar desse modelo a partir para duas alternativas: que as próprias leitoras se convençam de que têm de pagar pela informação. A outra alternativa é que os leitores pressionem as marcas para que elas entendam que trabalhar nesse modelo de se alimentar da falta de auto-estima da mulher não funciona mais e que eles façam isso através da escolha de produtos, que boicotem marcas que defendem modelos machistas e comprem mais marcas que incentivem o empoderamento da mulher. Muitas marcas têm apostado nisso. A Avon abriu o Instituto Avon, marcas como Boticário, Natura e Dove fizeram campanhas em prol do empoderamento feminino e isso tem ganhado mais poder. A esperança é que essa reavaliação do marketing das empresas também ajude na criação de um novo jornalismo, mas tenho muito pouca fé de que isso aconteça sem a participação ativa do leitor e do consumidor. O leitor tem que pensar que é consumidor e leitor ao mesmo tempo e que isso é um ciclo que se retroalimenta e, se ele de fato não está disposto a comprar marcas que fazem anúncios que ele não concorda, então estará pressionando para que o marketing dessas empresas e que o jornalismo seja melhor.

A revista AzMina é independente, funciona num modelo completamente diferente, um modelo mais livre dos anunciantes porque queremos apostar no investimento de fundações, editais e doações. De certa forma, é um modelo diferente livre deste mercado. Mas entendo que esse modelo para grandes empresas visando o lucro é um pouco insustentável por enquanto, porque ainda está difícil ganhar dinheiro para cobrir o funcionamento básico e a produção de notícias.

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