Críticos repercutem post polêmico de blogueiro do R7 sobre "12 Anos de Escravidão"

Lucas Carvalho* | 17/03/2014 15:15
No último dia 27 de fevereiro, o jornalista especializado em cultura André Forastieri publicou em seu blog no R7 um texto intitulado “16 razões para não assistir 12 Anos de Escravidão”. No post, ele admite que não viu e nem tem interesse em ver o último vencedor do Oscar de melhor filme, e apresenta suas justificativas. O colunista foi duramente criticado por leitores e até por outros profissionais que desaprovaram a atitude.

Crédito:Arquivo pessoal
Jornalista explica que não fez crítica do filme

“Quanta ignorância! ‘Não vi e não recomendo’? Que tipo de crítica é essa?”, dizia um dos milhares de comentários negativos que o texto recebeu. Para Forastieri, porém, os autores de respostas do tipo não entenderam o sentido do post.

“As pessoas que falam que eu fiz uma crítica sem ter visto o filme não sabem o que é uma crítica. É evidente que isso não é uma. É uma questão simples de interpretação de texto. Eu não falo em nenhum momento se o filme é bom ou ruim, se a interpretação [dos atores] é boa… É uma lista dos motivos pelos quais eu não quero ver o negócio. Não é uma crítica, é qualquer outra coisa”, diz o jornalista.

Ele justifica a forte repercussão dizendo que a comunicação na era digital propicia reações mais exageradas dos leitores. “Sempre que você é muito claro e direto, histriônico ou até meio caricatural, isso funciona melhor na internet. As pessoas entendem melhor. Elas podem ser a favor ou contra, mas elas entendem e se posicionam em altos brados”, afirma, lembrando que o post teve cerca de 70 mil visualizações em uma semana.

O crítico de cinema e editor do site Omelete, Marcelo Forlani, também discorda de que a intenção de Forastieri tenha sido fazer uma crítica do filme. “Não se pode entender aquilo como uma crítica, até porque não é. Ele só levantou os pontos de porque ele não ia assistir ao filme. Mas se, de alguma maneira, ele quisesse criticar uma obra de arte sem vê-la, seria errado”, diz.

A “obrigação” de um crítico

Um dos argumentos apresentados por Forastieri para não assistir “12 Anos de Escravidão” é o de que o filme é “obrigatório”. “De vez em quando aparece um desses, que todo mundo tem que assistir, porque é ‘importante’, edificante, promove valores etc.”, diz o texto. O longa foi indicado a nove Oscars, vencendo em três categorias, incluindo melhor filme, o que aumentou ainda mais sua popularidade.

Para Forlani, um profissional que cobre cinema não pode, de fato, se sentir obrigado a assistir um filme. Ele cita exemplos como os vencedores do Oscar de 2009 e 2012, respectivamente “Quem quer ser um milionário?” e “O Artista”. Para ele, apesar das premiações, as duas obras perderam importância e significado para a história do cinema com o tempo e não podem ser considerados “clássicos obrigatórios”.

“Você precisa saber de tudo o que está acontecendo. Ter essa bagagem de um filme que foi ganhador do Oscar desse ano é interessante, mas não é obrigatório. Nada tem que ser obrigatório. Vai de cada pessoa saber o que aquilo vai acrescentar na bagagem cultural dela para os próximos filmes que assistir”, pondera o editor.

Mario Abbade, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), acrescenta que não concorda com a atitude de um crítico que se recusa a assistir qualquer que seja o filme. “O jornalista ou crítico tem um compromisso com a arte que ele escolheu para analisar. Então não pode dizer ‘isso eu não vou ver’, ‘isso eu não vou fazer’”, afirma.

“Como hoje em dia são lançados dezenas e dezenas de filmes a cada minuto, [...] é humanamente impossível assistir tudo. Mas nesse caso, que é um filme premiado e que concorreu em várias categorias, não seria bom um crítico não querer assisti-lo. Amanhã ele pode estar num debate e pode ser perguntado e aí ele vai dizer ‘não vi esse filme’? Perde um pouco a credibilidade”, completa.

Responsabilidade com o leitor

Forastieri tem mais de 25 anos de experiência em jornalismo e, como ele mesmo diz, não se considera um crítico de cinema. Ele conclui dizendo que a maior parte dos comentários que seu post rendeu veio de pessoas que não têm o costume de acompanhá-lo e que, na internet, é muito mais comum criticar do que elogiar.

“Tem uma regra na vida, que na internet funciona muito melhor: se você vai num restaurante e gosta, você conta pra dez pessoas ou não conta pra ninguém. Se vai num restaurante e encontra uma barata no teu prato, você conta para dez mil pessoas”, diz.

“Quando você tem dentro do seu texto alguma coisa que já vem com uma carga emocional grande, isso estimula reações pré-fabricadas. [...] Por exemplo, se amanhã eu escrever ‘Rachel Sheherazade é a melhor jornalista do Brasil’ num título, não importa o que eu vou escrever embaixo. Vai dar um fuzuê do c…, entendeu? [risos], Mas, enfim… a vida é assim”, completa o jornalista.

Abbade conclui dizendo que, num blog pessoal, o jornalista tem o direito de dizer o que quiser, mas precisa ter responsabilidade para lidar com as consequências. “Eu respeito a opinião do colega, mas eu não faria isso. Acho que essa não é a atitude certa para uma pessoa pública. Mas o que é certo e errado, não é?”, finaliza.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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