Comentarista demitido de afiliada da Globo diz que foi vítima da TV Record

Luiz Gustavo Pacete | 18/08/2011 11:11

A relação entre o jornalista Luiz Carlos Prates e o Grupo RBS não foi superficial. Prates trabalhou durante 32 anos na afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Entretanto, a determinação para que sua demissão ocorresse não pode ser evitada pelo grupo da família Sirotsky. Tudo porque, no final do ano passado, Prates fez um comentário polêmico que teve repercussão nacional conforme o vídeo abaixo: 



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No vídeo, Prates afirma que "hoje em dia qualquer miserável tem carro", o que soou de forma preconceituosa. Entretanto, para o jornalista não há problema no comentário. Ele reconhece sua forma intensa de comentar e se defende afirmando que foi vítima de má compreensão por parte da TV Record que colocou seu vídeo em rede nacional (veja abaixo). 


Após a superação do episódio, Prates comemora, em 2011, 50 anos de carreira e acaba de chegar ao time de comentaristas do SBT Rio Grande do Sul. Em entrevista ao Portal IMPRENSA, ele fala sobre sua chegada à emissora, se defende do caso em que considera que foi usado e também comenta a liberdade de expressão no Brasil. 

Divulgação

Portal IMPRENSA - Como é voltar para a TV depois da repercussão no ano passado?
Luiz Carlos Prates - Posso dizer que fiquei dois dias em casa e recebi o convite do SBT em Santa Catarina, agora vou comentar também para o jornal "SBT Rio Grande". Voltei a fazer o que sempre quis, com mais intensidade agora. Apareço mais vezes e ganhei mais espaço. As coisas começaram a acontecer de um modo muito intenso. Minhas palestras agora têm no mínimo mil pessoas. Sou muito intenso e talvez isso chame a atenção no modo de falar.

IMPRENSA - Inclusive nos comentários polêmicos?
Prates - Sim. Só que por mais que chame a atenção o meu modo de falar, eu falo sobre valores, não sobre pessoas, a não ser para elogiá-las. Para criticar diretamente uma pessoa eu não faço. Não tenho o hábito de dizer que fulano é ladrão. Eu trabalho com palestras, sou psicólogo, trabalho muito com valores. Eu assumo o moralismo, peço sempre que retomemos a educação moral e cívica nas escolas. Não é coisa de ditadura, mas é o que faz as pessoas terem limites e respeitar a lei.
 
IMPRENSA - Pelo seu jeito de falar já foi cerceado alguma vez?
Prates - Eu trabalhei 32 anos na RBS de Porto Alegre e Santa Catarina, em nenhum momento fui chamado para receber qualquer tipo de recomendação ou impedimento de dar minha opinião. Jamais fui impedido de falar isso ou aquilo, pelo contrário, sempre tive liberdade absoluta.

IMPRENSA - Mas por qual motivo então um comentário causou sua demissão?
Prates - O que aconteceu foi que eu cai na briga entre Record e Globo. Os caras [da Record] ficam de olho em alguém da Rede Globo que possa dizer alguma coisa e ser jogado contra a opinião pública. Nesta ocasião, o que aconteceu foi que o apresentador do telejornal acabava de falar de uma matéria sobre trânsito e eu disse que hoje qualquer miserável tem um carro. Mas o que eu quis dizer foi miserável no sentido de poder aquisitivo, não quis usar de preconceito. Quis dizer com isso, que hoje um grande problema é o endividamento das pessoas, tanto que elas compram carros e pagam a vida toda. Só que o que aconteceu foi que a Record pegou o vídeo editou aquilo, deixou a parte em que eu falo a parte do miserável e disseram que eu falei que quem causa acidente é pobre. Eles projetaram isso em rede nacional. A Globo não gostou e pediu minha demissão para a RBS que não teve saída a não ser acatar, inclusive eles tiveram todos os cuidados e me trataram muito bem. 

IMPRENSA - Você foi julgado em praça pública?
Prates - Foi um julgamento de ordem moral, mas nós somos jornalistas, sabemos que com uma edição você pode derrubar qualquer um, edita e coloca uma frase solta no ar e pronto. Foi simplesmente um jogo entre concorrentes em que eu fui vitima, assim como qualquer um seria. 

IMPRENSA - Hoje em dia está complicado dizer o que pensa?
Prates - Toda vez que alguém me diz que sou corajoso eu digo que quem diz a verdade não precisa de coragem. De um modo geral, os formadores de opinião andam muito reticentes, acovardados e reféns do politicamente correto. Esta história de politicamente correto é um tiro no pé dos jornalistas. Claro que não significa abrir a porta para escândalos. Mas o jornalista tem que ter coragem para dizer a verdade.

IMPRENSA - De alguma forma a liberdade de expressão está ameaçada no Brasil?
Prates - Se não houver uma reação dos jornalistas no sentido de ter o pé no chão e uma atitude corajosa nós vamos cada vez mais andar no sentido de recuar. Quanto mais medo, mas você vai recuar. Dizem que a imprensa é o quarto poder, não é o quarto poder, é o primeiro, porque você chega nas casas das pessoas levando informação.

O Portal IMPRENSA procurou a TV Record para comentar as declarações de Prates e aguarda o posicionamento da emissora.

SBT Rio Grande do Sul

Luiz Carlos Prates passou fazer parte da equipe de jornalismo do SBT RS  quarta-feira, 10 de agosto e estará no ar todas as quartas-feiras durante o Jornal do SBT Rio Grande Manhã com a missão de dar a sua opinião e dialogar com o gaúcho sobre os mais variados temas que fazem parte do cotidiano no Rio Grande do Sul. Para o gerente de jornalismo do SBT RS, Diego Sangermano, a iniciativa de incluir um comentarista dentro do jornal matutino deve agradar ao público. "Temos um público muito crítico logo de manhã e o Prates se encaixa muito bem nesse perfil. O nosso telespectador vai ter agora uma opinião forte, com muito conteúdo. A expecativa é que esse novo quadro semanal seja um sucesso", comenta. 

Luiz Carlos Prates

Luiz Carlos Prates é psicólogo por opção e jornalista por vocação. Possui em sua bagagem 50 anos de carreira, dos quais completa em 2011, 30 de mídia catarinense. Já atuou em empresas como: RBSTV, Diário Catarinense, CBN, Hora de Santa Catarina, Guaíba AM, TV e Rádio Eldorado, Rede Record, Rádio Gaúcha, O Pioneiro e Diário Gaúcho, além de realizar concorridas palestras de motivação, mercado e educação em todo o Estado. Hoje é contratado do Sistema Catarinense de Comunicação (SCC), onde participa diariamente do SBT Meio Dia, e a partir de agosto é contratado do SBT RS como comentarista da manhã nos mais variados assuntos. 

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