"O dinheiro que financia a BBC é público e não do governo", diz Lúcio Mesquita

Luiz Gustavo Pacete | 13/09/2012 10:30
No segundo dia do mídia.JOR, evento que comemora os 25 anos da revista IMPRENSA e se propõe a discutir os rumos do jornalismo, o entrevistado especial foi Lúcio Mesquita, diretor de jornalismo regional da BBC West.

Na última quarta-feira (12/9), Mesquita participou do painel “Grandes Entrevistas”  e foi entrevistado pelo repórter da TV Globo São Paulo César Menezes. Na conversa, o jornalista falou sobre sua experiência na BBC, credibilidade jornalística e os rumos do jornalismo multimídia.
:Alf Ribeiro
César Menezes entrevista Lúcio Mesquita
César Menezes – Fale um pouco sobre sua carreira. Como é um não britânico virar diretor da BBC? 
Lúcio Mesquita – Muitos colegas sempre perguntam como eu cheguei lá e, na verdade, foi simples, nada de tão glamoroso. Eu vi um anúncio no Estadão que a emissora estava buscando um brasileiro para trabalhar lá. Me candidatei, eles me mandaram as passagens, claro que passei por testes e eu fui trabalhar lá. Na época, eu comecei no serviço de ondas curtas da emissora. A BBC era muito tradicional no rádio. Depois de dois ou três anos, tive a oportunidade de ir para o serviço internacional e ficar permanente por lá. Fui depois para a BBC América e depois de cinco anos fui para a BBC West, onde sou responsável pelo jornalismo regional e por quatro sites de notícias. 

A BBC é reconhecida pelo seu prestigio mundial. Como se constrói essa credibilidade?
Tem questões históricas que fizeram da BBC uma emissora de grande credibilidade para os britânicos. Eu destaco a Segunda Guerra Mundial, porque ela foi fundamental para consolidar a BBC não só na Grã Bretanha, mas no mundo com seu serviço de ondas curtas. Meu avô tinha um jornal no interior de Minas e ele se utilizava da BBC para dar notícias relacionadas à guerra. Eu cresci ouvindo a BBC em ondas curtas. E as pessoas acreditavam na credibilidade da emissora. Em 1982, na Guerra das Malvinas, por exemplo, tinha uma emissora argentina que começava o noticiário com um hino, a BBC não, ela reportava os fatos.
 
Quais são os critérios para se manter a independência da emissora?
Hoje, fala-se muito na credibilidade que tem a BBC, mas ela foi sendo construída. Esses critérios foram sendo adotados. Na guerra do Iraque, por exemplo, uma das normas era que nenhum correspondente poderia dizer nossos soldados ou nossas tropas. Eram solados e eram tropas. Muita gente não gostava que fosse assim, mas era uma forma de manter o máximo de isenção possível. 

E como é manter independência sendo financiada por dinheiro público?
É dinheiro público, mas não é dinheiro do governo Todos os britânicos que possuem aparelhos de TV em suas casas têm que pagar uma taxa anual de cerca de R$500. Isso sustenta a BBC inteira.
 
Esse valor sustenta o que da BBC?
São 7 emissoras nacionais de televisão, 10 emissoras de rádio, 40 emissoras locais e toda a internet. Além de uma orquestra sinfônica. Tudo isso é pago por meio dessa licença. São cerca de 3,5 bilhão de libras que são arrecadados, mas não pode ser usadas para outra coisa que não seja a BBC. Ou seja, não é um dinheiro que você tira de algum outro setor do governo, ele é destinado a isso.

Temos que produzir multimídia, mas somos multimídia também?
O interessante é que somos multimídia, mas eu costumo dizer que assim que entramos na porta da redação parece que deixamos de ser multimídia. E eu vejo, em relação ao público, por exemplo, que um adolescente de 16 anos está consumindo, porém de uma forma muito diferenciada. Ele está no laptop, com a televisão ligada, vários devices. Outra coisa que percebemos é que eles não estão vendo nada real time. E uma coisa muito boa que a BBC fez foi disponibilizar toda sua programação de rádio e TV disponíveis na internet. 

Como é lidar com o jornalismo cidadão?
Eu acho que é uma fonte extraordinária. Através do blog, do Twitter que são fontes sensacionais para o jornalista. Hoje, você interage, observa nas redes sociais os ruídos. É o mesmo serviço de rádio escuta que eu fazia na Jovem Pan, por exemplo, é o que fazem nas redes sociais.  Agora, temos que tomar muito cuidado. Eu posso ver coisas no blog, no Twitter, mas não necessariamente acreditar nelas, eu preciso apurar. 

Como é lidar com o desafio logístico de enviar várias equipes de vários meios da mesma empresa para uma cobertura?
Estamos na fase de aprendizado ainda. É muito novo, mas precisamos definir como fazer isso e chegarmos a um ponto. Eu sempre uso o exemplo de que o repórter tem que tocar bumbo, gaita e violino ao mesmo tempo. Mas isso não pode ser uma regra, depende do que você quer fazer. Existe uma grande diferença entre multimeio e multiplataforma. Muitas vezes pegam uma mesma notícia e replicam ela do mesmo jeito nos mais distintos canais, isso é multiplataforma. Agora, o multimeio é aquilo que você tem uma estratégia que será definida a cada veículo. Decidir se você vai usar um repórter ou uma equipe toda vai depender muito de sua estratégia.