"A imprensa vive uma crise de credibilidade", diz Bruno Torturra, da Mídia Ninja

Edson Caldas* | 07/10/2013 15:00

Nesta segunda-feira (7/10), IMPRENSA promove a segunda edição do seminário internacional mídia.JOR. Bruno Torturra, um dos líderes do Mídia Ninja (braço jornalístico do movimento Fora do Eixo), participou do painel "Os desafios da cobertura de conflitos: valor da notícia x liberdade de imprensa".


Crédito:Alf Ribeiro
Torturra defende que a rua é lugar de jornalista, tanto quanto dos manifestantes

Para o jornalista, a violência contra os profissionais da mídia durante os protestos de junho foi resultado da falta de reflexão por parte da polícia e dos manifestantes acerca do papel da imprensa em uma democracia, além de uma reação provocada pelo próprio jornalismo que, segundo a população, não representava o povo.


IMPRENSA - Como a cobertura da Mídia Ninja influenciou os demais meios de comunicação?

Bruno Torturra - Essa pergunta pode ser melhor respondida pelos outros veículos. Acho que provocou, de alguma forma, os veículos a estarem um pouco mais dentro das próprias manifestações. Teve uma questão estética, em que alguns veículos houve uma influência clara - de usar celulares, de entrar mais no meio das pessoas para transmitir ao vivo. E acho que gerou um debate muito forte sobre a própria mídia, em tempos de crise financeira, e sobre qual o papel do jornalista dentro de uma grande crise social e política de uma sociedade em rede.


Quais são os maiores desafios de cobrir uma manifestação?

Por elas não terem uma organização vertical é muito difícil você prever o que vai acontecer. Isso deixa o trabalho jornalístico ainda mais importante: você estar presente de fato, testemunhar e relatar como a coisa está se desenrolando. O desafio é você justamente não saber o que vai acontecer, você tem que estar preparado para tudo, para uma repressão policial violenta e um eventual descontrole dos manifestantes, eventos inesperados mesmo. Pessoalmente, não acho muito difícil cobrir, já que temos uma equipe muito ágil, com experiência em manifestações e equipamentos muito simples de usar. 


Por que, na sua opinião, os jornalistas viraram alvo, tanto de manifestantes quanto da polícia?

É uma boa pergunta. Acho que isso tem dois lados. Um é a pouca reflexão por parte da polícia e dos manifestantes de entender que, se a gente de fato está em uma democracia, a imprensa é radicalmente fundamental para esse processo acontecer de maneira madura e saudável. Entender que a rua também é lugar do jornalista. Se os manifestantes estão lutando pelo direito de estar na rua, é injusto e ignorante expulsar [os repórteres].


Apesar de uma reação, para mim, totalmente inadequada, também tem o lado de algo que a mídia provocou nos manifestantes ao longo de muitos anos de uma erosão de credibilidade como representantes do povo. A imprensa vive uma crise de credibilidade, as pessoas identificam a mídia como parte do poder opressor. Existe uma autocrítica que a mídia precisa fazer. Mas expulsar os jornalistas e agredi-los não é justo.


Qual a importância que você vê em um evento como o mídia.JOR, que debate o jornalismo?

Hoje em dia, acho fundamental, pois se discute pouco o jornalismo. Tem um movimento importante começando esse processo de reflexão, de autoanálise do jornalismo. Mas, em tempos de crise financeira do jornalismo e do desabrochar de novas possibilidades tecnológicas, culturais e de redes para difusão de informação, é fundamental que o jornalista repense seu papel.


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves


O mídia.JOR acontece nos dias 07, 08 e 09/10, no teatro da Aliança Francesa, em São Paulo (SP). O evento, realizado por IMPRENSA, é patrocinado pela Oi, com apoio da Aliança Francesa, Fenaj, Abert, Abradi, Aner e ANJ.



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