Jornalistas discutem o papel da imprensa na cobertura das manifestações no Brasil

Igor dos Santos* | 07/10/2013 16:00
Mediado por Théo Rochefort, o “Painel Diálogos II - Os desafios da cobertura de conflitos e o valor da notícia liberdade de imprensa”, da 2ª edição do Mídia.Jor, teve Bruno Torturra, da Mídia NINJA, Fábio Pannuzio, da Band, e Fábio Rocha Braga, Folha de S.Paulo.

Crédito:Alf Ribeiro
Jornalistas acreditam que a imprensa precisa repensar a forma de fazer jornalismo

Na onda de protestos pelo Brasil de junho de 2013, os jornalistas discutiram a forma hostil que a imprensa foi recebida, além da liberdade de informar e a disparidade da cobertura entre os grandes meios e as redes sociais.

“A Mídia Ninja não surgiu para cobrir os conflitos”, disse Torturra, que explica que o grupo começou a fazer coberturas em 13 de junho, quando houve uma “repressão policial” durante uma manifestação em São Paulo contra o aumento da passagem de ônibus.

Naquele dia, a Mídia Ninja “foi para rua e não saiu mais”, iniciando a fazer coberturas com o que tinham em mãos. “Nós (Ninja) não somos os salvadores da pátria, não somos contra a grande mídia. Mas a grade mídia tem uma passividade atonia”, acrescenta.

Torturra afirma que a mídia ser agredida em um estado democrático “mostra uma grande ignorância do público”. 

Para Pannuzio, a “velha mídia”, como ele gosta de chamar, foi cobrir os protestos “muito timidamente” e a Mídia Ninja fez uma cobertura “muito melhor do que a imprensa velha conseguiu fazer”.

O jornalista ainda diz que o questionamento sobre a legitimidade dos Ninjas “é muito pouco importante pela novidade que esses caras trouxeram”. “Eles estão ensinando a gente”, acrescentou.

Braga acredita que “quando a gente (imprensa) começa a apanhar na rua, temos que nos perguntar novamente qual é o papel que estamos desempenhando”.

“Fomos mais agredidos pela polícia. Os manifestantes atacaram mais o veículo do que o repórter em si”, disse o repórter fotográfico da Folha. “Acho que a Mídia Ninja é o canal que está mais próximo das manifestações”, acrescentou.

Identificação 

Sobre o uso de identificação por parte dos repórteres e fotógrafos durante protestos, os jornalistas concordam que isso pode não ser uma solução justa e eficaz. “Eu não quero ser identificado como imprensa e parecer que tenho mais direito que qualquer cidadão. A rua é de todo mundo”, diz Braga.

Pannuzio acredita que a ideia não funcionaria, pois “a polícia bate na imprensa, os manifestantes também, então usar uma identificação de jornalista não ajudaria a diminuir a violência, só facilitaria a demarcação dos ‘alvos’”. O jornalista ressalta que a própria mídia “precisa se dar um pouco mais de respeito”.

Torturra argumenta que “hoje em dia, quem tem um celular, pode ser um jornalista no meio da manifestação”.

Culpa da imprensa

Quando questionados se a imprensa teria sua parcela de culpa, Torturra disse que “a imprensa não estimula a violência, isso vem do próprio cidadão”. 

“Foram as redes sociais que conseguiram quebrar aquela visão única que a grande imprensa stava dando das manifestações. Eles tratavam os manifestantes como vândalos”, diz um dos criadores da Mídia Ninja.

“Não sabia de onde saia tanta gente, mas só podiam ser pessoas indignadas com a violência policial”, afirma o jornalista da Band. 

Braga concordou que muito da violência veio por parte da polícia. “Eu posso garantir que, até o dia 13, quem começou a confusão foi sempre a polícia”, disse.

Dificuldades

Uma das dificuldades de cobrir uma manifestação desse porte é a disparidade de opiniões entre veículo e o repórter. “Muitas vezes a gente trabalha com fatos que vão contra o que nosso patrão pensa”, diz Pannuzio.

Braga citou o polêmico edital da Folha, que falava em “retomar a Avenida Paulista”, e disse que muitos dos repórteres do veículo foram contra ele.

Além disso, outra dificuldade apontada foi o “preconceito” sofrido pela imprensa. “Cada dia era um dia, o dia mais surreal foi quando expulsaram os partidos da Avenida Paulista. Tinha de tudo, mas não havia mais pauta”, afirma Braga.

Torturra diz que teve “muita surpresa com que a coisa tomou e a forma como os protestos mudavam, pois um era muito diferente do outro”.  “Uma mata atlântica ideológica estava presente na rua”, acrescenta.

“Hoje a gente (mídia) apanha na rua e não há quem nos defenda, porque não demos motivos para sermos defendidos”, conclui Pannuzio.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves