"Antes de tudo, o leitor é um torcedor", diz editor geral de esportes do "Estadão"

Danubia Paraizo | 07/10/2013 17:00
Durante o painel "Grandes entrevistas - Jornalismo investigativo: os bastidores do esporte", que ocorreu nesta segunda-feira (7/10) no mídia.JOR, o jornalista Luiz Antônio Prósperi, editor geral de esporte do grupo Estado, conversou com o repórter Marcelo Gomes, da ESPN. Os profissionais falaram sobre os desafios da cobertura esportiva no Brasil e como driblar as dificuldades da apuração investigativa na editoria.

Crédito:Alf Ribeiro
Editor de esportes do "Estadão" diz que agenda do jornalista esportivo é muito extensa


IMPRENSA: Por que as reportagens investigativas ainda são tão escassas na editoria de esporte?
Luiz Antônio Prósperi – Existem poucos matérias investigativas no esporte porque fazemos grande cobertura de agenda, jogos, campeonatos, torneios, corridas. Você  tem que contar como foi a competição. O leitor não quer saber apenas se tem ou não mal feito no esporte. O espectador esportivo quer saber se o time dele jogou bem ou não, se o time de vôlei dele tem estatura maior que a do adversário. Isso faz parte da imprensa esportiva e tem que ter mesmo. Se eu não colocar isso no site, no jornal, não vou atrair o leitor, que antes de tudo é um torcedor.

O jornalismo esportivo acaba perdendo por ser considerado por muitos como entretenimento?
Algumas emissoras estão forçando para que o esporte se torne entretenimento. Esporte se confunde com entretenimento quando você fala da sua paixão, da sua emoção de ver um jogo. Mas ele é notícia também. O que se passa dentro de um estádio é tão importante quanto o que se passa na rua. Só que para forçar a audiência, algumas emissoras forçam o esporte como entretenimento, aí acaba tratando virando pauta de celebridades. 

Quais desafios passam os repórteres que cobrem esporte para a produção de reportagens investigativas?
É o desafio de cada jornalista, não só na área de esporte, de quebrar o modelo engessado de algumas instituições. Todas as instituições têm hoje uma assessoria de imprensa que funciona como uma grande barreira para que o repórter não consiga chegar na informação. Há um filtro muito grande, você quase não consegue chegar no personagem principal da sua matéria. Há muita coisa que inibe hoje a investigação. Você tem que ir por caminhos mais difíceis até chegar na fonte principal de sua matéria.

No caso do esporte essa apuração acaba sendo mais dificultada pela falta de tradição da editoria em matérias investigativas?
No esporte acaba sendo um pouco mais complicado porque é tudo muito fechado. As confederaçãoes dão pouco acesso às informações sobre elas. Elas que dominam, elas que recebem grandes cotas de patrocínio, a cota de televisão,  tudo passa pelos presidentes dos clubes, a base, os jogadores, recebe um salário, mas não tem poder nenhum. Para o repórter é muito difícil cavucar nessa rede de dirigentes, técnicos, presidentes de clubes. Isso é muito difícil: tentar provar algo contra, ter acesso a algum documento. Além de tudo, eles estão há muito tempo no poder é complicado ter informações mais profundas sobre eles.

O mídia.JOR acontece nos dias 07, 08 e 09/10, no teatro da Aliança Francesa, em São Paulo ( SP). O evento, realizado por IMPRENSA, é patrocinado pela Oi, com apoio da Aliança Francesa, Fenaj, Abert, Abradi, Aner e ANJ.

Leia também

- Profissionais devem ser multimídia e exercer jornalismo com paixão, defende Rosana Jatobá

- “A oportunidade do jornalista hoje está na internet”, opina Rita Lisauskas

- Diretor da AllTV modera painel sobre mercado de trabalho e considera o papel da emissora