“O cargo de correspondente está acabando”, prevê Moisés Rabinovici

Gabriela Ferigato | 08/10/2013 18:30

O diretor do Diário do Comércio e ex-correspondente, Moisés Rabinovici, participou do painel “Grandes entrevistas – Visão de correspondente brasileiro no exterior: por trás das câmeras” na tarde desta terça-feira (8/10). Segundo o jornalista, que cobriu as negociações de paz no Oriente Médio, o cargo de correspondente está acabando. 


Na opinião dele, esse cenário acontece, principalmente, pela facilidade adquirida com a internet. “É muito difícil hoje um jornal investir no exterior. Com a crise mundial do veículo, será que eles precisam gastar dinheiro com correspondente?”, questionou. 


Crédito:Alf Ribeiro
Para Moisés Rabinovici, manter um correspondente no exterior é muito custoso

IMPRENSA: Ser correspondente sempre foi uma ambição profissional?

MOISÉS RABINOVICI: Não, nunca foi. Foi uma surpresa. O Grupo Estado, onde eu trabalhava, tinha um correspondente no Oriente Médio que deixou a empresa e o cargo ficou vago. Foi difícil na medida em que Israel é um posto muito importante e, na época (1977), o presidente do Egito (Anuar Sadat) resolveu visitar Jerusalém. Foi uma visita histórica. O jornal viu a necessidade de preencher o lugar e me perguntaram se eu queria ir. Eu fui para esperar a paz, que não surgiu até hoje. Depois fui mandado para Washington e Paris. Minha vida quase toda foi vivida no exterior e eu não desejaria outra coisa.


Qual foi/é o principal desafio em ser correspondente?

O Oriente Médio. Lá a notícia é diária e sempre importante. Há 30 dias me pediram para escrever um artigo sobre a região e com um prazo de publicação distante e eu disse que seria difícil. Eu escrevi e mudou tudo, tive que reescrever. Se demorasse mais uma semana, mudaria tudo outra vez. Lá acontecem as grandes surpresas, as guerras e, no termo bíblico, é o centro das religiões.


Existe uma diferença no tratamento recebido por ser um correspondente brasileiro em comparação com outras nacionalidades?

No meu tempo, que é o do telex, o brasileiro no Oriente Médio não podia, como os franceses, ingleses ou americanos, chegar à agência Reuters e deixar meu texto em papel. Eles não aceitavam. Eu tinha que sentar e copiar. O português era uma das línguas que eles não colocavam funcionários para digitar. Outra questão é que o Brasil não tem tanta importância geopolítica para o Oriente Médio. Não tem a mesma força política como os americanos. Se acontecesse alguma coisa na fronteira, por exemplo, os americanos eram levados de helicópteros e os brasileiros iam de ônibus com japoneses, italianos, que não são vitais para a venda de armas. O que se quer lá é atingir a audiência do país que eles compram armamento.


Qual país possui mais burocracia para um correspondente?

A França. Para alugar um apartamento, você precisa ter uma conta bancária. Para ter uma conta bancária você precisa ter um apartamento. Você só quebra esse ciclo se você se colocar na casa de algum amigo e mandar uma carta. Tem essa inicialização que é curiosa, mas que faz parte do país que criou a palavra ‘bureaucrati’, de origem francesa. Mas depois a França é uma delícia.


Quais dicas você daria para os jornalistas que almejam se tornar correspondente?

Seja bastante singular. Porque esse cargo de correspondente está acabando, com a invasão da internet. Só uma pessoa realmente capaz, que tenha algo em particular, vai ganhar destaque. É muito difícil hoje um jornal investir no exterior. Eu, por exemplo, posso ver todos os jornais israelenses pela internet. Com a crise mundial do jornal, será que os veículos precisam gastar dinheiro com correspondente?


O mídia.JOR acontece nos dias 07, 08 e 09/10, no teatro da Aliança Francesa, em São Paulo (SP). O evento, realizado por IMPRENSA, é patrocinado pela Oi, com apoio da Aliança Francesa, Fenaj, Abert, Abradi, Aner e ANJ.

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