Correspondente da Globo News fala sobre as diferenças na cobertura no Brasil e na França

Danubia Paraizo | 08/10/2013 19:00
O painel "Visão de correspondente brasileiro no exterior: por trás das câmeras", durante o mídia.JOR, trouxe um bate papo entre o jornalista Moisés Rabinovici, editor do jornal Diário do Comércio e ex-correspondente em Paris, e Joana Calmon, correspondente internacional da Globo News. 

Crédito:Alf Ribeiro
Debate sobre trabalho no exterior mostrou a diferença das coberturas

Joana, que atuou nos principais jornais e emissoras de TV em Paris, contou como foi o início da profissão, quando decidiu ir para a França fazer mestrado. "Foi um caminho sinuoso até chegar no cargo de correspondente. A vaga é muito cobiçada e, em geral, é uma recompensa para jornalistas sêniors, sobretudo em Paris, que é uma cidade sonho para muitos".

Rabinovici também aproveitou o momento para lembrar sua vida como correspondente, contrariando a ideia de que a vida a capital francesa seria fácil. "Fui para Paris depois de ser correspondente no Oriente Médio, vivia de guerra em guerra, uma situação penosa. Quando me convidaram para Paris me vi sentado em um bistrô escrevendo um romance. Tudo isso foi ficção porque não tive uma vida tranquila". 

Sobre sua experiência no exterior, Joana começou contando um episódio inusitado ocorrido no final de setembro, quando em uma entrada ao vivo no programa "Estúdio I", chorou no ar. "Era a minha despedida de Paris. Depois de 10 anos morando fora, oito anos para a Globo News, decidi voltar para o Brasil", contou a repórter que em breve ocupará o cargo de repórter especial no Rio de Janeiro. 

Joana conta que sua carreira profissional começou antes mesmo de se formar, quando ainda criança fazia da redação do Jornal do Brasil, onde sua mãe trabalhava, seu parque de diversões. "Fiz o curso Abril de Jornalismo, estágio na Gazeta Mercantil, trabalhei também na Veja, além de jornais franceses, como o Le Fígaro, quando fui fazer meu mestrado em Paris".

O início na Globo News aconteceu graças a um pedido do jornalista Sílvio Boccanera, do programa "Sem Fronteiras", que precisava de alguém  que produzisse suas entrevistas em Paris. Prontamente, Joana se disponibilizou ao trabalho quando o repórter entrou de férias e ela foi convidada a substituí-lo. "Recebi uma ligação dele para cobrir suas férias em Londres. Tive receio, mas cancelei minhas férias porque aquela era uma oportunidade de ouro. Fui para Londres bancando do meu próprio bolso".

Como ainda não era contratada, fazia freelas para a TV francesa, principalmente, documentários. Um deles, sobre o Bope, foi traduzido para diversas línguas, chegando ao Brasil como "Tropa de Elite 4". O vídeo mostrava a truculência policial.

Sobre os dez anos em que viveu na França, Joana destacou as dificuldades com a língua, apesar de ter feito curso de francês no Brasil.  "Já estava lá há mais de um ano, mas quando tive que começar a escrever, e não só falar, foi outra história. Mas não tinha vergonha de pedir ajuda aos colegas", lembra.

Diferenças Brasil-França
De todas as mudanças na vida da jornalista, a ausência da presença do repórter na TV francesa foi o que mais chamou sua atenção. "Eles não fazem passagem, só se o profissional for enviado especial ou algo que justifique sua presença em frente às câmeras", lembra. "O repórter não é estrela da notícia. Já no Brasil existe um outro padrão que a gente aprende a respeitar. É rigoroso e a gente aprende a se enquadrar, embora eu não estivesse acostumada com isso". 

Joana destacou que na Franca a aparência ou a idade não importa na hora de aparecer no vídeo. "No Brasil, há uma expectativa do telespectador de você estar impecável, senão ela não consegue prestar atenção na notícia". A jornalista lembrou também que o trabalho de correspondente é muito solitário e que precisou se adaptar. "Acordo e está todo mundo dormindo. Minha rotina é ligar o rádio, ler os jornais, e apesar de ter um cinegrafista para gravar minhas matérias, também tive que aprender a ser um pouco técnico, cinegrafista, editor e operador de áudio".

Como dica final para os que desejam apostar na profissão de correspondente, Joana explica que o candidato deve ser destemido, não ter medo do novo, de aprender. "A profissão não vai acabar.  Você precisa do olhar brasileiro no exterior. Você pode ler os jornais franceses, mas um jornalista do Brasil vai saber mostrar melhor do que ninguém o que de fato interessa ao nosso país", finaliza.