“Há uma demanda pouco atendida de matérias religiosas”, diz autora de novo blog da “Folha”

Danubia Paraizo | 12/11/2013 16:00
Há duas semanas, os leitores interessados em notícias e discussões relacionadas à fé e religião contam com um novo espaço para a temática na Folha Online. Atualizado pela jornalista Anna Virginia Balloussier, o blog Religiosamente traz, três vezes por semana, “um pouco de tudo: dos bilhões que o setor movimenta no mercado de negócios às pequenas histórias que somam, subtraem, multiplicam e dividem nosso incalculável estoque de fé”, define a profissional.

Crédito:Divulgação
Anna Virginia é autora do blog "Religiosamente"
A jornalista, que tem passagens pela revista Trip, além da própria "Folha" — na coluna de Mônica Bergamo e na revista sãopaulo, acumula mais de 50 reportagens sobre religião na carreira.

Segundo a blogueira, o interesse pela pauta é antigo. Afinal, desde criança já gostava de ler “um tal ‘Livro das Religiões’”. Em 2010, quando foi escalada para cobrir as eleições presidenciais, houve o reencontro com o tema fé. “Uma das tarefas que a editora passou foi frequentar cultos evangélicos e missas católicas para ver o que os líderes religiosos falavam dos candidatos. “Desde então, acompanho o assunto”.

Entre suas pautas mais marcantes, ela destaca uma entrevista com o pastor Silas Malafaia e com a bispa Sônia Hernandes, da igreja Renascer. A jornalista também ressalta que o espaço para pautas sobre religião tem crescido, apesar de ainda ser insuficiente. “Acredito que há uma demanda (ainda pouco atendida) de matérias religiosas, um assunto que sempre instiga muito o leitorado”.

Em entrevista à IMPRENSA, Anna Virginia fala sobre as discussões no blog Religiosamente, a polaridade entre evangélicos e católicos, a cobertura de religião na mídia e os planos para sua pós-graduação na área, em Nova York.

IMPRENSA - Como e quando surgiu seu interesse por religião? 
Anna Virginia Balloussier - Não lembro do "marco zero". Sei que, quando criança, adorava um tal "Livro das Religiões". Meu interesse jornalístico pelo assunto começou em 2010. Recém-saída do programa de trainees da Folha de S.Paulo, fui escalada para cobrir as eleições presidenciais. Uma das tarefas que a editora passou foi frequentar cultos evangélicos e missas católicas para ver o que os líderes religiosos falavam dos candidatos. Desde então, acompanho o assunto - sobretudo as movimentações no segmento evangélico. 

Quais reportagens e entrevistas sobre o assunto mais marcaram sua carreira? Por quê?
Por alto, acho que fiz mais de 50 reportagens sobre o assunto. Em 2011, passei três dias acampada com cem mil jovens católicos. As entrevistas com o pastor Silas Malafaia, para a coluna da Mônica Bergamo, e com a bispa Sonia Hernandes, da igreja Renascer, para a revista sãopaulo, também foram marcantes. Para a coluna da Mônica, conseguiu um momento raro: o culto com o bispo Edir Macedo, falando publicamente sobre o então candidato Celso Russomanno na Igreja Universal.  

Como avalia a cobertura de religião nos veículos de comunicação? O tema ainda é restrito à cobertura de grandes eventos, como a Jornada Mundial da Juventude, por exemplo?
Acredito que há uma demanda (ainda pouco atendida) de matérias religiosas, um assunto que sempre instiga muito o leitorado. Claro que uma Jornada Mundial da Juventude é mais magnética — e nem poderia ser diferente: pela verba pública investida, pelo tanto de gente que desembarcou no Rio, pela primeira viagem do papa Francisco após uma "desistência" inédita há mais de 600 anos do papa Bento XVI. Mas não acho que a atenção deva se restringir apenas aos "GPs" da cobertura religiosa.  

E tem outro ponto: havia animosidade a evangélicos, sobretudo nos anos 1990. Mas eles vêm ganhando mais espaço no noticiário. Alguns artistas do meio gospel, como Aline Barros, têm vendas equivalentes a uma Ivete Sangalo e aparecem no "Faustão", por exemplo. A própria Rede Globo já abre espaço para personagens evangélicos menos estigmatizados que o pastor falcatrua de Edson Celulari na minissérie "Decadência", de 1995.  

Que tipo de conteúdo vai priorizar no blog? 
Entrevistas, reportagens, quem sabe haicais... Sempre estou atrás da melhor forma para transmitir um conteúdo. E, por ser um blog, dá para ousar mais na linguagem. Mas o produto final será sempre jornalístico: pode ter uma pitada de análise, mas vou me concentrar na apuração de boas histórias e/ou furos relevantes. 

Conta um pouco sobre o curso que fará na Universidade de Columbia. Terá alguma relação com o tema religião?
Será um curso de pós-graduação de três meses na School of International and Public Affairs (Sipa), que é a escola de relações internacionais da Columbia. Ganhei uma bolsa para fazer uma disciplina que tem os Brics (Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul) como tema. Também posso optar por outras três cadeiras. Uma delas terá a religião como tema. Após Columbia, tenho um plano (por ora, está mais para um rascunho num guardanapo de bar...) de escolher uma cidade-chave de cada Bric para estudar o avanço das igrejas evangélicas.