“Legião Estrangeira”, da TV Cultura, acaba em meio a especulações de disputa política

Maurício Kanno | 14/11/2013 17:15

Depois de quase dois anos na TV Cultura, o programa “Legião Estrangeira”, que reunia variados correspondentes estrangeiros no Brasil para debates sobre o país, foi encerrado no início deste mês. O fato deixou perplexos os colaboradores do programa, que disseram não terem sido esclarecidos sobre esse término. A peruana Verónica Goyzueta, que participou desde o início, soube via post na fanpage do Facebook; a venezuelana Paula Ramón só soube pela reportagem de IMPRENSA. 

Crédito:Paulo Fridman
Thierry Ogier e Verónica Goyzueta, que participavam do programa "Legião Estrangeira" da TV Cultura
Thierry Ogier e Verónica Goyzueta, que participavam do programa "Legião Estrangeira" da TV Cultura

Há suspeitas de que uma disputa política entre o ex  e o atual presidente da Fundação Padre Anchieta (FPA) - mantenedora da TV Cultura -  tenha implicado no fim da atração, idealizada na gestão de João Sayad. Marcos Mendonça, o novo presidente, tem implementado novas políticas à emissora. Procurada, a TV Cultura relatou que “a grade passa por uma série de reformulações em função das dificuldades orçamentárias que, neste momento, envolvem a Fundação Padre Anchieta e também diante das novas diretrizes da atual gestão”.


IMPRENSA apurou que o "Legião Estrangeira" tinha boa audiência para o horário – entre 1,5 e 1,8 no Ibope às 20h de domingo –  e era barato, porque era composto pela apresentadora, Mônica Teixeira, e seus convidados. Parte deles atuava apenas por colaboração, sem cachê. Outra parte recebia um valor simbólico e apenas no segundo ano.

A disputa entre Mendonça e Sayad é clara, segundo alguns funcionários ouvidos por IMPRENSA. Um dos exemplos foi o artigo “Taxonomia dos ratos”, de autoria de Sayad, publicado na Folha de S.Paulo em maio, mês do anúncio de troca da gestão. O artigo, sobre corrupção no serviço público, seria um ataque implícito ao rival. 

Crédito:Arquivo pessoal
Celso Kinjo, ex-gerente de jornalismo da TV Cultura, critica alta rotatividade radical na emissora
Celso Kinjo, ex-gerente de jornalismo da TV Cultura, critica alta rotatividade radical na emissora

“Deformação crônica”
Celso Kinjo, gerente de jornalismo nos três anos da gestão Sayad, um dos cerca de 30 afastados e substituídos por Mendonça, lamenta que haja tal “deformação crônica” na TV Cultura, em que se troca programas "apenas para dar uma espécie de autoria da administração”. Para ele, a rápida rotatividade de três em três anos na Presidência impede uma continuidade profissional que deveria caracterizar toda empresa jornalística. Para ele, as novas mudanças não resolveriam o déficit financeiro, tampouco trariam audiência. 

O ex-gerente de jornalismo afirma que o jogo de poder na emissora é complicado. A eleição dos presidentes é feita pelo conselho, mas sua maioria vem da influência do governador de São Paulo, que tem sido do PSDB nos últimos anos. Kinjo lembra que, antes dele, passaram por seu cargo dez diferentes gerentes de jornalismo nos três anos anteriores. 

O francês Thierry Ogier, que participou do “Legião Estrangeira” por pouco mais de um ano e já trabalhou com jornalismo em serviço público na França e no Reino Unido, afirma que não se lembra de nada parecido na BBC, a TV pública britânica. “É uma questão importante para o jornalismo. A qualidade dos programas e o interesse publico deveriam prevalecer”, diz ele.

Kinjo também denuncia o uso da emissora como um “terrível cabide de empregos”. “Quando cheguei, o ‘Roda Viva’ tinha umas 15 pessoas, mas para um programa de entrevistas com um único apresentador, bastam quatro. Além disso, a emissora tinha 2 mil funcionários, metade PJ, mas os reduzimos para 1,2 mil, com ganho de produtividade e todos CLT.” 

Em defesa de Mendonça, uma funcionária afirmou que Sayad teria passado para o sucessor uma emissora sucateada e endividada, com falta de figurino, cenografia, maquiagem e biblioteca.

Engajamento dos correspondentes
Ogier diz que, no último mês do “Legião Estrangeira”, houve decisão de se mudar seu horário para 1h da madrugada. “Nós nos mobilizamos e enviamos uma carta para a direção, que o deixou ao menos para 23h30, mas depois acabou”.

O português João Almeida Moreira, que participou do programa por cerca de um ano e meio, afirma achar essencial este tipo de programa entre gente de várias nacionalidades. "O Brasil e os Estados Unidos são gigantes e muito diversos e por isso correm o risco de olhar apenas para eles próprios.” 

“Numa fase destas, em que o Brasil parece vir a ocupar o lugar no mundo que lhe pertence, e com grandes eventos a caminho, é essencial, aliás, inevitável que programas deste gênero se multipliquem”, completa ele.

Verónica também ressalta a importância da atração. “A audiência e o retorno que todos os que participávamos tínhamos do público mostrou que, ao contrário do que a gente pensava, os brasileiros gostam de conhecer outras visões do mundo. Outro dado surpreendente que tivemos foi que uma parte importante do público era a classe C. Isso porque a vida dos brasileiros tem melhorado e a maioria quer viajar, conhecer o mundo e aprender mais.”