Pós-graduação para escritores de não ficção tem jornalistas como principal público

Maurício Kanno | 04/12/2013 16:30

O Instituto Vera Cruz, que desde 2011 mantém uma pós-graduação para formação de escritores em São Paulo, resolveu agora expandir os horizontes e iniciar uma turma específica para criação de obras de não ficção, a partir de 2014. Com a iniciativa, este é o primeiro curso do gênero no país. 


Crédito:Maurício Kanno
Sala do Instituto Vera Cruz durante palestra com coordenadores sobre pós para escritores
Sala do Instituto Vera Cruz durante palestra com coordenadores sobre a pós-graduação para escritores

A formação parece particularmente adequada para jornalistas, mas é livre para graduados em qualquer área. De todo modo, o curso sempre teve como público frequente profissionais de imprensa. Segundo a coordenação, entre cada dez alunos, quatro são repórteres e três formados em Letras. 

Um dos coordenadores do curso é o jornalista Roberto Taddei. Ele trabalhou no Estadão por dez anos, mas em seguida fez mestrado em escrita criativa na Columbia University, em Nova York.  

Crédito:Arquivo Pessoal
Pedro Paulo Piva, recém formado em jornalismo, pretende explorar livros-reportagens
Pedro Paulo Piva pretende explorar livros-reportagens

Além dele, completam a equipe Josélia Aguiar, biógrafa de Jorge Amado, que dá aulas do gênero; o escritor e jornalista Ronaldo Bressane, que atua nas disciplinas de Jornalismo Literário; o escritor e ensaísta Juliano Garcia Pessanha, no curso sobre Memória; a crítica literária da Folha de S.Paulo, Noemi Jaffe, da pasta Ensaio; e, do mesmo jornal, o colunista da revista sãopaulo, Fabrício Corsaletti, que ministra a matéria sobre Crônicas.


Pedro Paulo Piva é um dos jornalistas que pretende integrar a primeira turma da pós de escritores de não ficção. Formado há um ano e meio, ele pretende se aprimorar na área e diz ter como ponto de partida o livro-reportagem que produziu como trabalho de conclusão de curso sobre a gestão do futebol, em que detalhou a queda do Corinthians para a série B até o título da série A.


O candidato acha que os grandes eventos esportivos no Brasil — em 2014 e 2016 — também darão oportunidades para outros livros-reportagens. Além disso, Piva crê que seu texto para hardnews será favorecido com o aperfeiçoamento em textos mais longos.

Pelas beiradas
O grande pioneiro na criação de cursos de formação de escritores no país é Luiz Antônio de Assis Brasil, que desenvolveu o mestrado e doutorado em escrita criativa na Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio Grande do Sul, em 2010. Há 30 anos, ele coordena na mesma instituição as Oficinas de Criação Literária, como curso de extensão. 

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Assis Brasil, pioneiro na formação de escritores no Brasil
Assis Brasil, pioneiro na formação de escritores no país
“As oficinas têm dado gente muito boa, como Daniel Galera, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura deste ano; ou Michel Laub [finalista do mesmo prêmio]. É significativo que, entre os 20 escritores brasileiros mais promissores indicados pela edição 2012 da revista britânica Granta, sete são do Rio Grande do Sul e seis foram meus alunos.”

Assis Brasil, hoje secretário de Cultura de seu Estado, conta que nos Estados Unidos há dezenas de mestrados (MFA, Master of Fine Arts) em escrita criativa, processo iniciado na década de 1940. Segundo Taddei, há 500 universidades norte-americanas membros da Associação de Programas de Escrita (AWP), que oferecem cursos de escrita criativa. 

“No Brasil, as instituições acadêmicas ainda estão tentando se acostumar com a ideia”, diz Assis. O curioso é que estamos mais avançados nisso que Portugal, tradicional fonte de literatura, mas que ainda não tem formações universitárias nesses moldes. 

Outro fato inusitado é que, no país, o movimento esteve “comendo pelas beiradas”. Pois não foram nas principais metrópoles — São Paulo ou Rio de Janeiro — que ocorreram as iniciativas mais consistentes, mas no Sul e no Nordeste. Em Recife (PE), já ocorrem há 20 anos ininterruptos as oficinas de escrita criativa coordenadas por Raimundo Carrero

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Raimundo Carrero, formador de escritores em Recife
Raimundo Carrero, formador de escritores no Recife
Mesmo assim, houve uma iniciativa na PUC-RJ, em 1973, em que o escritor e jornalista Autran Dourado foi convidado para ministrar um curso discutindo como criou seus romances. O processo resultou na primeira obra brasileira do tipo - memográfica - Poética de Romance. Outra jornalista, Rosângela Peta, em São Paulo, depois de conhecer o curso de Assis Brasil no Sul, criou em 2010 sua Oficina de Escrita Criativa – neste caso, não associada à academia. 

Jornalistas em curso
“Os jornalistas e estudantes de jornalismo concentram mesmo o maior grupo de alunos nas oficinas”, lembra Assis Brasil, percebendo o mesmo fenômeno visto pelos coordenadores do Vera Cruz. “Tem até diretores de jornais aqui no Sul estimulando a frequência de seus jornalistas aos cursos, já que o texto deles costuma melhorar muito”, completa . O secretário ressalta que, apesar dessa espécie de efeito colateral, o objetivo mesmo é simplesmente formar escritores. 

Alguns jornalistas, inclusive, procuram preservar duas identidades separadas, como escritores de ficção ou produção jornalística de fato. Outra atitude é a do jornalismo literário, que vem desde a tradição de norte-americanos como Truman Capote e Tom Wolfe; ou daqueles que se dedicam a obras históricas, como Eduardo Bueno, profissional da imprensa que escreve sobre História do Brasil.

Com enfoque especificamente no chamado jornalismo literário, há várias pós-graduações no país, como a da Cásper Líbero, indica Taddei. Mas, para ele, isso seria diferente da proposta de formação de escritores de não-ficção que sua instituição propõe, mais voltada à produção de livros e extremamente prática.