“Detalhes deveriam ser valorizados na notícia”, diz autora de livro sobre jornalismo literário

Danubia Paraizo | 04/12/2013 16:00
A objetividade e neutralidade foram, ao longo de décadas, reconhecidas no processo de construção da credibilidade no jornalismo. O cenário começou a mudar de figura em meados de 1960, não porque os princípios perderam sua importância, mas porque grandes nomes da imprensa norte-americana identificaram que o distanciamento com os fatos deixava as histórias sisudas e pouco atrativas. Para conquistar o leitor pela riqueza de detalhes e seu envolvimento com a história, jornalistas como Gay Talese, Truman Capote, entre outros, abraçaram o chamado New Journalism

A modalidade permite narrativas em primeira pessoa e a utilização de recursos de textos que se aproximam da literatura, estilo amplamente utilizado em publicações que marcaram época também no Brasil, como a revista Realidade. A publicação, que circulou de 1966 a 1976, inovou por trazer grandes reportagens em que o repórter ocupava o papel de narrador-personagem. 

Crédito:Divulgação
Angélica Weise analisou as reportagens de José Hamilton Ribeiro na revista "Realidade"
Para evidenciar o trabalho de um dos mais representativos repórteres a adotar o New Journalism no Brasil, a jornalista Angélica Weise acaba de lançar o livro “Jornalismo Literário: Uma análise das reportagens de José Hamilton Ribeiro publicadas na revista Realidade”. A obra elenca as dez principais marcas dos textos do veterano na publicação. “Ele tem uma profunda criatividade, e por causa de seu olhar apurado, é muito observador, o que rendia descrições com alta riqueza de detalhes de lugares, pessoas e situações”, destaca a autora.

Para quem imagina que os textos longos e mais trabalhados de Realidade já não teriam mais espaço nos dias de hoje, em que o imediatismo exige informações minuto a minuto, Angélica defende a modalidade até mesmo nas plataformas digitais. Nesse sentido, o tempo acaba sendo o principal dificultador, mas deve ser melhor administrado.

“Não se faz jornalismo literário em cinco minutos e essa é uma das contradições de muitos veículos, que vivem na pressão do chefe, correndo contra o tempo. Mas a gente tem que dar uma informação mais completa, contar uma boa história. Há público para isso. Os detalhes deveriam ser mais valorizados”, aponta.

Angélica defende que trabalhar melhor as informações e se especializar em histórias bem contadas, com mais profundidade, acaba sendo uma forma de o veículo se diferenciar em relação aos concorrentes. “Por mais que os sites e as notícias do momento sejam cada vez mais buscados, dá para trabalhar melhor o texto. Os próprios leitores cobram e até criticam essa informação seca, pouco aprofundada. O público está se tornando mais crítico”.

A TV, que também costuma trazer reportagens curtas, com duração de segundos, também pode explorar melhor o potencial do jornalismo literário. Tanto é que o próximo passo da autora é, justamente, estudar a modalidade no segmento audiovisual. "O jornalismo literário é muito amplo, cabe até mesmo nas editorias de hardnews, em menor ou maior grau. Dá para tornar as matérias de economia mais curiosas, interessantes. Requer paciência, criatividade, mas é possível”, conclui.