Violência em protesto do Dia da Pátria marcou cobertura de fotojornalista em 2013

Danubia Paraizo | 16/01/2014 15:30
Com seus 1,56 m de altura, a repórter fotográfica Monique Renne, do Correio Braziliense, custou a decidir se de fato abraçaria a profissão. Apaixonada por fotografia, mas preocupada que seu tamanho pudesse interferir na função majoritariamente masculina, ela acabou optando pelo curso de publicidade na Universidade de Brasília (UnB). Depois de formada, logo percebeu que a rotina das agências não era para ela. Sempre imediatista, se diz movida a prazos apertados e adrenalina. Cursou, então, jornalismo e se entregou de vez ao desafio do fotojornalismo. 

Crédito:Divulgação
Monique é finalista na categoria "fotojornalismo"
Dez anos se passaram de lá para cá. Hoje, Monique conta no currículo com coberturas importantes, como a Copa das Confederações, em junho passado, manifestações no feriado de 7 de Setembro, quando foi atingida por spray de pimenta por policiais militares, em Brasília (DF), e a CPI de Carlos Cachoeira, que lhe rendeu uma das imagens mais comentadas do noticiário nacional em 2013. A foto trazia alguns parlamentares olhando o derrière de Andressa Mendonça, mulher do contraventor, após seu depoimento. 

Finalista na categoria “Fotojornalismo”, do “Troféu Mulher IMPRENSA”, Monique falou com exclusividade sobre os pontos altos da carreira e da importância de um prêmio que reconhece o trabalho da mulher nas redações de todo o País.

Carreira
"Fotojornalista mulher é muito raro. É muito difícil conseguir aguentar o peso da profissão, literalmente. A máquina, as lentes, todo o equipamento, a corrida, tudo na mesma velocidade que os homens. E eu sou bem pequena, tenho 1,56 m. Até para decidir que queria me tornar fotojornalista isso tudo foi uma barreira. Tanto que fiz faculdade de publicidade na UnB primeiro, porque já queria trabalhar com fotografia. 

Acabei emendando o curso de jornalismo logo depois. Sempre tive a intenção de ser fotógrafa. Mas, na publicidade, percebi que eu era imediatista demais para a área. Sempre trabalhei muito bem sobre pressão, com prazos apertados. O que para muitos jornalistas chega a ser um problema, para mim foi vantagem". 

Protestos de 7 de Setembro
Em Brasília, essas manifestações ocorreram com mais intensidade por ser capital do Brasil e porque teve jogo da seleção no Estádio Nacional. O foco do protesto se encaminhou para o entorno do estádio, momento em que a polícia entrou em choque com mais intensidade para impedir que os manifestantes se aproximassem demais. Quando a polícia conseguiu controlar a situação, só sobrou a imprensa no local. Achamos que estaríamos mais seguros próximos da polícia do que correndo junto com os manifestantes. Permanecemos no lugar do conflito. Foi então que a polícia decidiu que a mídia também deveria ser retirada dali.

Foi um ataque massivo à imprensa. Vários colegas sofreram a ação da polícia, não foi só comigo, que levou spray de pimenta no rosto. Talvez meu caso ficou mais marcado devido ao meu tamanho: uma cena ridícula de um troglodita enorme jogando spray em mim.

Coberturas marcantes
2013 foi um ano muito bom profissionalmente. Fiz a cobertura da Copa das Confederações, uma oportunidade sensacional de cobrir um evento grande, dificílimo. Ao longo dos jogos, reparei que apenas quatro mulheres jornalistas estavam fazendo essa cobertura, entre elas, eu. Por coincidência, as outras três eram de Brasilia. Dos 60 fotógrafos na beira do campo, teve jogo que tinham apenas duas mulheres. 

A oportunidade de conviver com fotógrafos internacionais também é sempre muito bom. Você conhece, aprende, descobre como as outras pessoas trabalham. Às vezes, descobre que a forma que você trabalha é parecida, o que me faz perceber que não estou atrás da imprensa internacional.

Crédito:Monique Renne
Monique foi a única a registrar flagrante durante CPI do Cachoeira

Caso Cachoeira

Durante a CPI do Cachoeira, após o depoimento da mulher dele, Andressa Mendonça, na hora que ela levantou, todos os homens olharam para a bunda dela. Ela é realmente muito bonita. Já estava prevendo que isso iria acontecer e consegui flagrar esse momento. Todos os fotógrafos que cobriam o Congresso estavam lá. De mulher, apenas eu. E só eu registrei aquele momento.

Vantagens de ser mulher
Os homens são mais gentis comigo em campo, o que facilita muito a vida. Fiquei vários dias no Plenário do Senado cobrindo os depoimentos no caso do Carlos Cachoeira, e vira e mexe chegava um segurança para me trazer um café, comida. Foram atenciosos. Apesar de claramente não ser frágil, até pela profissão que escolhi, não foi nem uma, nem duas vezes, foram várias situações em que as pessoas foram muito gentis e educadas por eu ser mulher.

Chega a ser engraçado, no Palácio do Planalto ver os seguranças gritarem: “deixa a pequenininha passar”. É um cuidado bacana. Por ser uma profissão masculina, quando tem uma mulher os meninos são mais atenciosos.

Troféu Mulher IMPRENSA 
Acho o prêmio importantíssimo. As mulheres já estão dominando o jornalismo. É um mercado que aparentemente vai contra a mulher pelo desgaste físico da profissão, pelas coberturas longas, pelos plantões, mas muito pelo contrário. Dizem que as jornalistas não dão conta de trabalhar, ser mãe, mas isso não é verdade. Estamos dando conta muito bem.

O "Troféu Mulher IMPRENSA" é realizado e idealizado por IMPRENSA Editorial. As votações vão de 14 de janeiro até as 23h59 de 13 de fevereiro. Para mais informações e conhecer a lista de finalistas, clique aqui.

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