Grandes escritores brasileiros anteciparam questões contemporâneas do jornalismo

Alana Rodrigues* | 24/01/2014 15:45
A palavra, matéria-prima em comum de grandes nomes como Graciliano Ramos, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Lima Barreto, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, se sobressaiu em obras conhecidas até hoje. Mas não foi apenas na literatura que estes profissionais imprimiram suas identidades. A histórica interação entre real e ficcional ganhou espaço com o trabalho desses escritores na imprensa.

Para resgatar o lado “jornalista” de seus textos, pesquisadores como Thiago Mio Salla, Aparecida Maria Nunes e Jeana Laura da Cunha Santos decidiram reunir os principais trabalhos de não-ficção desenvolvido por alguns deles. Vasculhando em arquivos de jornais, colhendo depoimentos e encantados com a faceta jornalística, descobriram que esses escritores brasileiros anteciparam questões contemporâneas ainda refletidas na profissão.

Crédito:Arquivo pessoal
Clarice Lispector

Clarice Lispector - Plural no fazer jornalístico

A pesquisadora, jornalista e professora de Literatura Brasileira da UNIFAL-MG, Aparecida Maria Nunes, pesquisou durante 11 anos a vida de Clarice Lispector. O resultado de seu trabalho foi direcionado à sua dissertação de mestrado e tese de doutorado, defendidas na USP, e no livro que publicou no ano de 2006, “Clarice Lispector Jornalista: Páginas Femininas & Outras Páginas”, pela editora Senac/SP. "Meu propósito inicial era resgatar sua produção jornalística, que era totalmente desconhecida em seus perfis", relata.

Em suas pesquisas, Aparecida descobriu os pseudônimos que a escritora utilizou para produzir as páginas femininas e os textos inéditos publicados pela ficcionista, que foi uma das primeiras mulheres a trabalhar em uma redação. "A carreira jornalística de Clarice Lispector é multifacetada, interessante, intensa e importante para a história do jornalismo brasileiro. Como ela mesma revelou certa vez, fez de tudo, menos editoria de polícia e social", conta.

Helen Palmer, Teresa Quadros e Ilka Soares são os pseudônimos que a jornalista usou para escrever crônicas em suas colunas femininas. Ela também pretendia utilizar o pseudônimo de Cláudio Lemos, “um nome muito simpático” segundo a escritora, pela vergonha que sentia das histórias eróticas que havia escrito sob encomenda. Aparecida Nunes destaca ainda que a influência mais importante de Clarice no jornalismo foi a identidade singular que deixou em seus escritos, legado que contribui no fazer jornalístico atual. 

"Considero que o importante nesse legado jornalístico clariciano é perceber que Clarice sempre imprimiu sua maneira de ser, a visão de mundo que tinha, suas inquietações. Embora procurasse se adaptar aos manuais de redação, ela não se deixou influenciar. Fez um jornalismo à sua moda. Tanto a jornalista quanto a escritora dialogam", acrescenta.

Entre as narrativas de destaque da jornalista-escritora, a pesquisadora lembra o caso da conhecida receita de matar baratas, sob o título “Meio cômico, mas eficaz”, publicada na página feminina do Comício, quando Clarice assinava com o pseudônimo de Tereza Quadros, na edição de 8 de agosto de 1952. Elementos do texto, que era ficcional, serviram de esboço para outra página feminina, publicada em 1960, no Diário da Noite. Mais tarde, transforma-se em conto, disponível na revista Senhor, e em 1964, ganha as páginas de “A Paixão Segundo G.H.", adquirindo forma definitiva de “A Quinta História”. "A narrativa publicada inicialmente na página feminina permanece no imaginário da escritora e revela a gênese de produções literárias", conclui.

Crédito:Divulgação
Graciliano Ramos

Graciliano Ramos - O revisor e copidesque alagoano

Thiago Salla, pesquisador e organizador de “Garranchos” (Record, 2012), obra resultante do trabalho de mais de sete anos que reúne cerca de oitenta textos escritos pelo alagoano Graciliano Ramos para a imprensa, diz que a principal dificuldade foi encontrar a produção jornalística do escritor em veículos comunistas.

“Em geral, as coleções da imprensa do Partidão apresentam lacunas o que demandou visitas a muitos arquivos. Mas no fim valeu a pena, pois, talvez, o maior destaque dos "Garranchos" esteja na apresentação de um conjunto de mais de 30 textos que documentam uma parcela significativa trajetória de Graciliano”, diz.

Graciliano, como jornalista, passou por grandes redações, entre elas Correio da Manhã, O Século, A Tarde e Jornal de Alagoas. Em suas páginas, imprimia contos e trechos de memórias. Segundo Salla, dos 13 capítulos da obra “Vidas Secas”, 10 foram publicados antes na imprensa.

“Sua produção dedicada a gêneros mais tipicamente jornalísticos (crônica e ensaio) era intermitente, mas marcada pela agudeza e por um estilo enxuto que tipifica sua produção romanesca e memorialística. Graciliano se notabilizou como revisor e copidesque”, destaca o pesquisador.

Para ele, o trabalho de Graciliano como jornalista foi fundamental para mudanças do modo como se escrevia nos grandes jornais e revistas brasileiros, muito antes de aderir ao modelo americano da pirâmide invertida nos anos de 1950.

Crédito:Divulgação
Machado de Assis

Machado de Assis: Um repórter à frente de seu tempo

Jeana Laura da Cunha, jornalista, doutora em Literatura e pós-doutora em Antropologia, dedicou-se a apresentar em seu livro, “O Colecionador de Histórias Miúdas: Machado de Assis e o jornal”, o encontro entre o jornalismo do passado e o contemporâneo. 

Segundo ela, o Machado jornalista era “profundamente ‘antenado’ com as questões do seu tempo”. A pesquisadora explica que, à época — fim do século XIX e início do XX —, o Rio de Janeiro (RJ) se modernizava, apesar de apresentar déficits como o analfabetismo e o subdesenvolvimento, a vida passou a ser mais pública e acelerada.

“Na passagem do livro ao jornal, surgiu a crônica, narrativa que possibilitou com que muitos dos nossos grandes literatos escrevessem no veículo adotando um tom mais leve, ligeiro, mais adequado aos novos tempos. E Machado foi um deles, escrevendo não somente crônicas, mas também publicando romances em “fatias”, o chamado folhetim, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, por exemplo”.

A linguagem de Machado era caracterizada pelo tom irônico e informal, falando em primeira pessoa e chamando o leitor para um diálogo. Escrita bem diferente de suas narrativas. “O que o jornal possibilitava em termos de acesso e democratização, ele sempre exaltou, a ponto de num determinado momento chegar a dizer que o jornal aniquilaria o livro”, conta a pesquisadora.

Além da identidade do autor expressa em suas obras, Machado também adiantou temas contemporâneos. De acordo com Jeana, em 1892, por exemplo, antecipou o que hoje intitularíamos de lead. “Podem arranjar as crônicas de maneira que os acontecimentos fiquem sempre em cima; a parte inferior das linhas cabe às considerações de menor monta, ou absolutamente estranhas. Moralmente, é assim que escrevo”, narrou Machado.

O jornalista também abordou o critério de noticiabilidade, ressaltando que os acontecimentos “são melindrosos, ambiciosos, impacientes, o mais pífio quer aparecer antes do mais idôneo, atropelam tudo, sem justiça nem modéstia... E quando todos são graves? Então é que é ver um miserável cronista, sem saber em qual pegue primeiro”.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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