“Aos dez anos já sabia o que queria ser na vida”, diz Marilu Cabañas

Alana Rodrigues* | 30/01/2014 11:00

Jornalista há 30 anos, Marilu Cabañas, que trabalha atualmente na Rádio Brasil Atual, decidiu a profissão aos dez. Encantada com a faceta jornalística, inventava histórias e brincava de fazer investigações quando descobriu a leitura e o rádio.


Crédito:Divulgação
Marilu Cabañas foi indicada outras três vezes ao prêmio


O primeiro contato com o ofício aconteceu quando começou a trabalhar na Rádio Guarujá Paulista AM/SP, onde permaneceu por cinco anos. Mais tarde, foi para o Jornal Guarujá, passando para a Rádio Bandeirantes. Teve breve passagem pelo SBT, onde trabalhou durante dois anos e atuou como repórter no programa “Atenção Brasil”, da Rádio Cultura de São Paulo.

Ao longo de sua carreira conquistou diversos reconhecimentos, principalmente por retratar minorias como a luta de índios por suas terras. A série "Voz Guarani-Kaiowá", veiculada em novembro de 2012, retratou a luta da etnia em municípios do Mato Grosso do Sul. Marilu ouviu familiares de índios, lideranças ameaçadas, professores, políticos e representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

A jornalista, que já foi indicada quatro vezes ao “Mulher IMPRENSA”, concorre agora na categoria “Repórter de Radio” ao lado de Ana Lúcia Caldas (EBC - Empresa Brasil de Comunicação), Cátia Toffoletto (CBN), Ermelinda Rita (CBN) e Michelle Trombelli (BandNews FM). Em entrevista à IMPRENSA, ela conta sobre as coberturas especiais que fez ao longo 2013 e como avalia a atuação das mulheres nas redações.

IMPRENSA: Como foi para você saber que havia sido indicada como uma das finalistas do prêmio?
Marilu Cabañas: É sempre motivo de alegria. É a quarta vez que sou indicada ao Troféu Mulher Imprensa. Essa honra tive em 2005, 2010 e 2013, mas nunca ganhei (risos). Mas olha, só o fato de estar entre as indicações já é motivo de orgulho porque sei da seriedade na escolha dos nomes. A Revista IMPRENSA, o Portal Imprensa, têm credibilidade no meio jornalístico.  Feliz porque essa indicação se dá quando estou numa emissora alternativa, a Rádio Brasil Atual FM, que tem como slogan veicular "as notícias que os outros não dão". A linha editorial tem a preocupação de dar voz aos que não são ouvidos com tanta frequência pela mídia tradicional, como índios, negros, sindicalistas, sem terra, sem teto, os que não têm nada.  E quando soube da indicação tive o prazer de compartilhar a notícia com a pessoa mais importante da minha vida, minha mãe, que lutava contra o câncer mas infelizmente faleceu no último dia 10.

Você decidiu que seria jornalista aos dez anos. Como foi isso?
É engraçado, na realidade eu queria na época primeiro ser detetive, imagina. Criava histórias na minha cabeça para poder desvendar algum mistério. Entrava, por exemplo, na Igreja do Embaré, que ficava no bairro onde morava em Santos, e os fiéis viravam personagens. Imaginava mil situações em que eu tinha que descobrir a verdade. E, é claro, eu desvendava tudo na minha imaginação infantil. Mas na casa onde vivia, junto com os patrões da minha mãe, que era empregada doméstica, lia-se muito jornal, de São Paulo e de Santos e quando eram descartados no final de semana eu separava os suplementos infantis e adorava ler. Também me interessava pelas notícias dos adultos mas não entendia nada, mas lia. O rádio também estava muito presente. A dona da casa ouvia a Rádio Eldorado AM e aquela musiquinha, a assinatura da emissora, me acompanhou por toda a adolescência. Gostava também de ver telejornais, os repórteres em todas as partes, aquilo me fascinava. E aí aos dez anos já sabia o que queria ser na vida: jornalista.

Qual a importância que as mulheres exercem no jornalismo como um todo?
Um papel fundamental. Quanto mais a mulher se destaca no jornalismo creio que ela contribui para diminuir o machismo existente na profissão e na sociedade em geral. Acredito que mesmo as mulheres que não tenham exercido a maternidade, como eu, tenham em si o dom de cuidar. E esse cuidado se manifesta nas reportagens. A sensibilidade feminina sempre está presente e o resultado é uma reportagem, uma entrevista, que procura revelar a verdade de cada um e trazer informações úteis sob ângulos inexplorados. Têm jornalistas incríveis que traduzem bem o que eu estou dizendo, como a Eliane Brum, na revista, e a Mara Régia, no rádio. Grandes mulheres!

Você recebeu o prêmio jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos pela série que retratou a luta pela terra da etnia Guarani-Kaiowá em municípios de Mato Grosso do Sul. Como foi desenvolver esse trabalho?
Primeiro tive a ajuda do antropólogo Spensy Pimentel que conhece profundamente os Guarani-Kaiowá e me indicou lugares para visitar. Ao conversar com os indígenas percebi a grandeza da riqueza cultural que eles representam para o país e ao mesmo tempo como são discriminados, dizimados. Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não cumprem a Constituição Brasileira  quando os direitos dos povos indígenas estão em questão. Vi barbaridades durante minha estada em aldeias e acampamentos em alguns municípios do Mato Grosso do Sul.  A realidade é chocante. Como pode uma cacique ter quatro pessoas da família mortas, por morar num acampamento à beira da estrada? Três filhos e netos atropelados e a tia morta por não resistir à pulverização de agrotóxicos em cima dos barracos da terra ocupada? É o fim. A presidenta Dilma Rousseff, que tem em sua trajetória de vida a marca da coragem, deveria ter pulso mais firme para liderar o resgate do verdadeiro valor dos indígenas no Brasil e coibir os abusos cometidos por fazendeiros do Mato Grosso do Sul.

Qual foi a cobertura que mais marcou para você em 2013?
Em 2013, a questão indígena continuou a pautar minhas reportagens. A situação não só dos índios do Mato Grosso do Sul mas em diversos estados é alarmante. Eles são perseguidos e assassinados. O trabalho do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), é exemplar ao denunciar tais abusos. Destaco também a atuação dos juízes que compõem a Associação Juízes para a Democracia (AJD), que vão na contramão de magistrados que legislam em favor dos fazendeiros permitindo reintegrações de posse que são contrárias ao que a Constituição Federal determina em relação aos direitos dos povos indígenas. No ano passado também atuei na série especial "Dores do Parto", da repórter Anelize Moreira. Participei do trabalho na edição de texto e sonorização junto com o técnico Émerson Ramos. Já estava envolvida com o tema antes da série e pude constatar que as mulheres são extremamente mal tratadas na hora do parto, seja na rede privada ou pública. Um tema pouco discutido. Ganhamos pela série a Menção Honrosa do Prêmio Vladimir Herzog.

Qual a expectativa para o jornalismo neste ano?
Temos Copa do Mundo, Eleições, muitos eventos que vão esquentar o jornalismo brasileiro. Espero em torno desses acontecimentos trazer informações que ajudem a sociedade a refletir como um evento esportivo de grande porte pode atingir a vida de muitas pessoas, que por exemplo, perderam suas casas, ou de crianças e adolescentes que estarão na rota do turismo sexual. Sobre as eleições é importante passar a informação que saúde é voto, habitação é voto, tudo é voto, e por isso devemos informar que política é importante para a vida em sociedade e não passar a ideia de que "nenhum político presta", "todos são ladrões", enfim, isso não contribui para a construção de um sistema democrático forte.

O Prêmio

O "Troféu Mulher IMPRENSA" é realizado e idealizado por IMPRENSA Editorial. Em 2014, a premiação celebra sua 10ª edição consecutiva, e vai homenagear as jornalistas que mais se destacaram em suas áreas de atuação em 2013. As votações vão de 14 de janeiro de 2014 até às 23h59 de 13 de fevereiro. Para mais informações e conhecer a lista de finalistas, clique aqui.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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