Armas menos letais podem matar, diz Sérgio Silva após perder a visão durante protesto

Alana Rodrigues* | 20/02/2014 16:15
O fotógrafo Sérgio Silva, de 31 anos, foi uma das vítimas da repressão da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Ele perdeu a visão do olho esquerdo após ser atingido por um tiro de bala de borracha disparado pela polícia durante manifestação em 2013.

Crédito:Arquivo pessoal
Sérgio Silva retorna à vida profissional aos poucos após perder a visão de um dos olhos

A lesão ocorreu durante a manifestação de 13 de junho de 2013 contra o aumento da tarifa do transporte público na capital paulista. Oito meses depois, ele tenta se adaptar à sequela deixada pela agressão. O fotógrafo também passou a relatar os desafios de seu retorno à profissão em seu blog "A Construção de um Olhar" e em sua página no Facebook.

À IMPRENSA, Sérgio falou sobre o processo de readaptação após a cirurgia, o cenário em que se encontra a ação que ele move contra o Estado de São Paulo e como avalia o posicionamento de entidades e do governo em relação às agressões contra os profissionais de imprensa.

IMPRENSA - Como foi seu retorno ao trabalho depois da agressão? Você voltaria a cobrir protestos? 
Sérgio Silva
- Meu retorno ao trabalho está sendo de maneira muito cautelosa. Ainda passo pelo processo natural de readaptação à nova forma de enxergar, portanto, não posso voltar no mesmo ritmo de antes. Mas isso é uma questão de dar tempo ao tempo. Em breve, espero ter me adaptado por completo e retomar o que mais tenho prazer em fazer que é fotografar a vida nas ruas de São Paulo. Voltaria a cobrir protestos tranquilamente, mas desde que a situação atual de trabalho para profissionais de imprensa mudasse.

Crédito:Arquivo pessoal
Fotógrafo apoio projeto de lei que limita o uso de balas de borracha para conter os protestos

Você apoiou o projeto de lei do deputado Francisco de Campos (PT) para limitar o uso de balas de borracha para conter os protestos. Houve algum resultado? Qual a importância da proposta?
O Projeto de Lei aparece em um bom momento devido ao aumento da violência policial nas manifestações e o descontrole de algumas pessoas que vão para os atos, apenas com o intuito de tirar a legitimidade de direito à manifestação. 

O uso da bala de borracha vem provando, a cada dia, não ter nenhuma eficiência no controle dos chamados distúrbios pelos órgãos de segurança pública. Como já disse em certa ocasião, e volto a repetir, o impacto da bala no ser humano gera muita dor não só em sua vítima, mas em toda sua família, amigos e sociedade. Além de gerar uma revolta ainda maior naqueles que procuram enfrentar a polícia no corpo a corpo.

A sociedade precisa se unir e defender a proibição desse armamento antes que outras pessoas sintam o tamanho da dor que senti em junho passado. As armas menos letais não são menos, elas podem matar. Fora do Brasil existem casos de morte por este armamento. Esta é a nossa chance de evitar que isto se repita por aqui.

Você moveu uma ação contra o Estado de São Paulo pedindo indenização de R$ 1,2 milhão. Você obteve alguma resposta?
O processo ainda nem andou. Não houve nenhuma avaliação, nem mesmo na primeira instância.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade foi muito marcante para toda a imprensa. Você acredita que as entidades o governo deveriam ter se posicionado antes?
Eu acredito que sim, mas não da forma como está se fazendo. O Ministério da Justiça, por exemplo, elaborou um manual para os jornalistas trabalharem nas manifestações. Na verdade, há um posicionamento do governo, mas tende sempre a pender para o lado das próprias instituições e todos os órgãos ligados ao Estado. 

O que deve ser feito para que os profissionais possam ter segurança efetiva para exercer seu trabalho?
Uma reforma dentro da polícia. A grande parte dos profissionais de imprensa foi agredida por policiais. Eles têm que ter uma postura de defensa para o direito de o profissional trabalhar na rua e não fazer repressão. O foco da mudança é esse.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.