"Definitivamente, não vou voltar", garante Ana Paula Padrão sobre carreira de âncora de TV

Alana Rodrigues* | 11/04/2014 15:15
Após deixar as bancadas dos telejornais para se arriscar em novos negócios e decifrar a relação entre as mulheres e o trabalho, a jornalista Ana Paula Padrão deu mais um passo na carreira.  Na última segunda-feira (7/4), ela lançou oficialmente o livro "O Amor Chegou Tarde em minha Vida", publicado pela editora Paralela.

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Livro traz trajetória da jornalista e de mulheres de sua geração

Na obra, ela retrata não só sua história e relação com o jornalismo, mas a presença das mulheres no mercado de trabalho, principalmente daquelas que ingressaram nele, assim como ela, nos anos 1980.

À IMPRENSA, a jornalista falou sobre o novo livro, carreira, novos desafios e como avalia o papel da mulher na mídia brasileira. Ana pontua que sua saída dos telejornais é definitiva: "Não, definitivamente não vou voltar", disse.

IMPRENSA - Quando você decidiu escrever o livro?
ANA PAULA PADRÃO - Há muitos anos eu sou convidada por várias editoras diferentes para escrever sobre minhas viagens, especificamente sobre o Afeganistão. No ano passado, o Matinas Suzuki, publisher da Cia das Letras, teve uma dessas conversas comigo. Mas não me animava em escrever sobre viagem. Ele disse, então, que eu tinha de escrever sobre mim e sobre mulheres, contar histórias da minha vida porque havia muita similaridade entre o que eu passei e o que muitas mulheres passam. Essa ideia já criava um link com o leitor. Aí pensei no assunto. 

Dou palestras há muito tempo e é engraçado porque começo a contar histórias de mulheres dos anos 80, citar exemplos e pesquisas. Nesses encontros, muitas delas choram na plateia, pois pensam que estão sozinhas. Foi quando eu percebi que, na verdade, o livro já estava pronto. Eu já tinha ele em cada palestra, em cada texto que eu já havia escrito para revista e outras publicações. Ele já estava pronto, era só colocar ordem e contar uma história de verdade. 

Fiz mais uma reunião com o Matinas e a gente fez esse exercício de colocar em ordem e depois foi fácil porque a Guta Nascimento, que me ajudou a escrever, gravou os depoimentos comigo e desgravou também. Isso já foi um primeiro roteiro de cada capítulo. Era como se já estivesse escrito e alguém precisava me dizer isso. Ele [Matinas] foi muito importante nesse sentido. 

O que o leitor vai encontrar nessa obra?
Tem várias passagens da minha vida, mas todas elas são pano de fundo para contar a história da minha geração. Então, todos os episódios que conto no livro sobre mim, não estão em ordem cronológica e juntos não compõem uma biografia. Eles são momentos que, do meu ponto de vista, são importantes para minha formação como mulher dos anos 80. No que eu pareço com a minha geração?  No que eu sou uma representante da minha geração? Essas são as partes que eu conto no livro e aí eu puxo, através desses momentos, depoimentos de muitas mulheres que passaram pela mesma coisa e têm opiniões sobre determinados temas ligados a gênero e diferenças geracionais. 

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Ana Paula diz que não volta ao jornalismo diário

Como é ficar longe do jornalismo diário e atuar como empresária?
Para falar a verdade, eu não sinto muita saudade do jornalismo diário. Eu já estava cansada há muito tempo. A bancada já era a terceira etapa do meu dia. Administrar duas empresas e ainda ter uma terceira obrigação muito importante e com uma responsabilidade gigantesca. Então, era muito pesado para mim. Foi mais um alívio do que um corte de cordão umbilical. A decisão já estava tomada há muito tempo. Eu tenho saudades da TV, das pessoas e do trabalho de equipe. 

Então você não voltaria a atuar em telejornais?
Não, definitivamente não vou voltar (risos). 

O projeto "Tempo de mulher" dá voz às mulheres. O que elas dizem de mais expressivo?
São públicos diferentes. Meu público do portal é mulher média brasileira e não necessariamente da minha geração. Há muitas jovens acessando o site. É uma espécie de canal de autoestima para elas. Eu fiz muita pesquisa sobre essas mulheres e, apesar de serem corajosas e muito batalhadoras, que, em 30% dos casos, sustentam a casa, elas têm muitas tarefas que não tinham na geração anterior. 

Ao mesmo tempo, há muitas coisas que elas não sabem ou porque tiveram uma educação formal em uma escola ruim, ou veem de uma família extremamente pobre. Elas olham para a classe A/B, no sentido de referências visuais, e se sente inadequada. A mulher está começando a assumir a sua própria identidade. O plural, o visual. 

Cada coluna que a gente faz sobre a roupa certa para meninas plus size faz muito sucesso. Matérias sobre relacionamento e como se divertir no fim de semana com pouco recurso também ou ainda textos que trazem para elas repertórios que não tinham antes.

Uma matéria sobre as 20 frases de amor mais famosas do cinema, por exemplo, foi superlíder de audiência durante muitos dias. Isso acontece porque ela aprende e precisa disso. Então, a gente entendeu esse perfil, com muita pesquisa e entregamos isso para as mulheres. É muito compensador, porque eu sei que estou fazendo algo que elas aproveitam. Em breve, vamos investir em mais produções de vídeos justamente para nos aproximar mais do público.

Como você avalia a atuação da mulher na imprensa?
Eu acho que a imprensa, de maneira geral, é muito pouco preconceituosa em relação ao gênero. Quando eu comecei, nos anos 80, já era um ambiente muito aberto para mulher. Havia muitas mulheres cobrindo áreas consideradas nobres. A maioria das jornalistas, colunistas, grandes repórteres de economia, também já atuavam. Eu acho que sempre foi um mercado muito poroso para a mulher. O que acontece é que nos cargos de chefia ainda há lacunas importantes a preencher como em qualquer outro mercado.