"Um turbilhão de sentimentos tomou conta de mim", diz Lúcio Flávio sobre indicação da RSF

Alana Rodrigues* | 30/04/2014 12:30
Lúcio Flávio Pinto é conhecido como representante do bom jornalismo em Belém do Pará. Ganhador de quatro prêmios Esso, ele tem mais de dez livros e coletâneas publicados sobre a Amazônia, uma de suas paixões.

Crédito:Divulgação
Jornalista ficou emocionado com indicação em lista da RSF

Formado em Sociologia, é jornalista profissional desde 1966. Passou por redações como o Correio da Manhã e O Estado de S.Paulo. Em 1988, fundou o Jornal Pessoal, publicação independente sobre a região amazônica. 

O alternativo é sustentado da venda avulsa em bancas e livrarias. Nele, Lúcio publica denúncias sobre empresários e nomes poderosos da região. A iniciativa gerou nada menos que 33 processos ao profissional, que mobilizou colegas da imprensa a criarem o manifesto "Somos todos Lúcio Flávio Pinto", espaço dedicado à divulgação de ações e meio de solidariedade ao jornalista.

Na última terça-feira (29/4), Lúcio foi indicado como um dos "100 heróis da informação" pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), único brasileiro da lista que representa o bom combate em defesa da liberdade de expressão. Em entrevista à IMPRENSA, ele falou sobre a indicação, como conduz suas denúncias no jornal e o modo como avalia o cenário da liberdade de imprensa no país.

IMPRENSA: Como é estar na lista de um grupo de 100 jornalistas ao redor mundo que representam o combate em defesa da liberdade de expressão?
Lúcio Flávio Pinto: Um turbilhão de sentimentos tomou conta de mim ao saber que eu estava na lista e que, de 65 países dos quais foram selecionados nomes, do Brasil apenas eu fui indicado. É uma responsabilidade enorme, uma honra e uma alegria, que atesta a preocupação dos dirigentes de RSF de vascular pelo mundo profissionais que estão em lugares remotos ou fora do eixo central de seus países. Mas também me dá uma tristeza muito grande. Os jornalistas brasileiros deviam refletir com coragem e profundidade sobre esse fato. Será que estamos deixando de lado os compromissos éticos, morais e políticos — mas não partidários, que constituem um compromisso negativo, mas em expansão — para apenas exercer a profissão? Será que não estamos contribuindo para que o país corrija suas inacreditáveis distorções e paradoxos, sobretudo a concentração da riqueza, a violência indiscriminada, a segregação social, o populismo educacional e cultural, a corrupção e outros itens mais, que todos os dias ocupam a agenda da imprensa sem provocar indignação?

O senhor enfrenta alguns processos na Justiça. Como é manter, com independência, um jornal que denuncia irregularidades na Amazônia?
Mesmo quando estava na grande imprensa, como correspondente em Belém de O Estado de S. Paulo, eu me sentia como se fora um correspondente de guerra. Tinha que cobrir a ação de pistoleiros profissionais, violências contra índios, conflitos de terra, destruição da natureza e temas de uma pauta internacional e, em e alguns casos, que remetiam a situações e condições primitivas.

Ao romper com a grande imprensa, em 1989, e me dedicar integralmente ao
Jornal Pessoal, decidi encarar todas as consequências de fazer jornalismo crítico, radical. Radical no sentido de pegar as coisas pela raiz e, como era a inscrição do primeiro jornal do Pará, dar nome tanto ao boi quanto ao ladrão. O critério da verdade é o da demonstração. E a inserção de material no jornal se orienta pela relevância social do assunto. Uma vez atendidas essas premissas, meu jornal publica suas matérias, sem se importar a quem doa ou o efeito sobre o jornalista. Para ter esse compromisso radical com a verdade, meu jornal não aceita publicidade nem mecenas. Vive da venda avulsa dos seus exemplares em bancas de revista e livrarias. É o leitor que decide sobre a continuidade do jornal - e isso não é apenas uma frase de efeito para uso do marketing.

Já pensou em parar de produzir o jornal?
Já pensei várias vezes e já tentei parar. Aliás, eu achava que o Jornal Pessoal ia durar pouco. Ele surgiu dois anos depois do fim do regime militar. E vivemos o mais longo período de democracia em toda história republicana do Brasil. Não há mais censura estatal. Mas se o JP parasse, muitas informações, análises e opiniões sumiriam do registro jornalístico. A razão é autocensura crescente e já galopante, a renúncia aos compromissos do ofício e à covardia de muitos jornalistas, que nem tentam a publicação de informações inconvenientes para o poder, nele compreendido desde o governo até a empresa, incluindo a jornalística. Meu jornal se especializou em publicar o que costuma não sair em nenhum outro órgão da imprensa.

Para o senhor, qual é a real situação da liberdade de imprensa no país? 
Seu potencial é enorme, inclusive por causa do volume de circulação das informações. Mas há uma autolimitação, quase castração. É crescente o receio de perder posição na empresa, receio agravado pela multiplicação das firmas individuais, que passaram a ser exigidas pelas empresas para a contratação de profissionais, especialmente dos de maior conceito. Criou-se uma relação nova, com a transferência de encargos e responsabilidades para a empresa individual do jornalista, o que afeta a independência do profissional. Fechar uma empresa custa mais do que abri-la. E mantê-la em funcionamento requer estabilidade de rendimentos. Essa mudança foi nociva para a autonomia da imprensa.

O senhor esperava o apoio de colegas que criaram o movimento “Somos Todos Lúcio Flávio Pinto”? Houve algum resultado vindo dessa campanha?
Não esperava. Foi uma maravilhosa surpresa. O blog foi uma praça pública, que é do povo, como o céu é do condor. Sem o blog talvez eu não conseguisse mobilizar as 770 pessoas que doaram R$ 28 mil para pagar ao grileiro Cecílio do Rego Almeida pelo "crime" de ter provado que ele tentava se apropriar de terras no Pará com área equivalente à do Estado da Paraíba e duas vezes o território da Bélgica. Não quis mais recorrer na justiça por me convencer se que se tratava do mais indigno capítulo da perseguição que me tem sido movida pela via judicial.