Documentário "O Mercado de Notícias" levanta questionamentos sobre atuação da imprensa

Alana Rodrigues* | 02/07/2014 15:30
Em 1625 a imprensa dava seus primeiros passos e já debatia impasses como a manipulação da informação, o papel do jornalista como intermediário entre o fato e o leitor e sua relação com as fontes. As inquietações foram projetadas pelo dramaturgo inglês Ben Jonson na peça “The Staple of News” e agora ganhou sua primeira tradução para a língua portuguesa e adaptação para o cinema com o trabalho do cineasta e também jornalista Jorge Furtado.

Crédito:Fábio Rebelo
Jorge Furtado debate o mercado da notícia em documentário

Em "O Mercado de Notícias", Furtado resgata as inclinações de Jonson e aborda com ironia o jornalismo exposto como um negócio no nascente capitalismo, intercaladas por entrevistas com 13 jornalistas brasileiros como Fernando Rodrigues, Luis Nassif, Raimundo Pereira, Janio de Freitas, Mino Carta, Geneton Moraes Neto e Renata Lo Prete. Nelas, os profissionais compartilham suas experiências e percepções acerca da profissão.

O documentário tem início com a reunião dos atores gaúchos no palco de Theatro São Pedro, em Porto Alegre (RS) — no elenco, estão nomes como Evandro Soldatelli, Mirna Spritzer, Irene Brietzke, Janaína Kremer, Nelson Diniz, Zé Adão Barbosa, Marcos Contreras, Sérgio Lulkin, Elisa Volpatto e Eduardo Cardoso.

O longa-metragem traça a linha histórica da evolução da imprensa com episódios emblemáticos da imprensa nacional pincelados por ele para ilustrar o processo do mercado de notícias. Um desse casos é a da Escola de Base, ocorrido em São Paulo, em 1994. Na ocasião, os donos e funcionários da Escola de Educação Infantil Base foram acusados de abuso sexual de crianças. A denúncia, que se mostraria falsa, ganhou manchetes sensacionalistas de jornais e revistas.

IMPRENSA -  Quando surgiu a ideia de produzir o documentário?
Jorge Furtado -
Eu comecei a trabalhar no documentário em 2006. Resolvi fazer um trabalho sobre a imprensa depois que a mídia estava num momento de grande transformação. Com a chegada da internet, os jornais e telejornais passaram a ter uma competição totalmente nova. Aquela ideia de que quatro ou cinco veículos formavam a opinião pública se transformou radicalmente. Havia novos agentes no processo que eram os blogs, os sites de notícias, Twitter e Facebook. 

Parecia, num determinado momento, que o jornalismo havia se tornado uma profissão obsoleta. Todo mundo era jornalista. Até coincidiu com o fim da obrigatoriedade dos cursos. E eu, ao contrário, comecei a perceber que mais do que nunca precisávamos do jornalismo. 

No momento em que havia uma torrente de informações, uma quantidade infinita de fatos circulando por todos os lados e nós, leigos, sem poder ler tudo, precisávamos de profissionais da área para filtrar esse conteúdo. 

Como você chegou ao Ben Jonson?
Fui estudar a história do jornalismo e através do livro "A História Social da Mídia", de Peter Burke e Asa Briggs, eu vi uma referência do Ben Jonson e fiquei sabendo da existência da peça, escrita em 1625, e o jornalismo em Londres começou em 1622. Então, em três anos, o Jonson percebeu muitas coisas que até hoje são importantes para a profissão. 

Com uma percepção incrível, ele detectou essas questões de relação com a fonte, de como a notícia pode ser custeada, os interesses políticos. Achei que havia uma relação muito direta. O que o jornalismo impresso enfrenta com as novas mídias, ocorreu no começo do século 17 com o surgimento da imprensa. Uma explosão da quantidade de informações multiplicou-se muito a informação circulante e ao mesmo tempo a dificuldade e necessidade de distinguir o que é notícia com credibilidade.
 
Naquele período, a Inglaterra estava em guerra e os governantes precisavam de informação para poder tomar decisões. Demorava muito para as informações das fronteiras chegarem e as pessoas precisavam saber a verdade do que era noticiado. É nesse momento que o jornalismo se profissionaliza. 

É curioso perceber que a Inglaterra decapitou seu primeiro rei 150 anos antes da Revolução Francesa. Eles não derrubaram o rei, mas criaram um parlamento com poder e uma imprensa independente do governo. Essa mídia livre para os padrões da época, onde se podia discordar do rei e do parlamento, é a imprensa que serviu de modelo para a ocidental. Foi ela quem deu origem ao jornalismo americano e que depois virou nosso padrão de jornalismo, enquanto que na França, ficou muito ligada ao governo.

Qual foi o critério utilizado para escolher os jornalistas?
Foi totalmente pessoal. Escolhi a partir da diversidade de veículos e jornalistas que eu julguei que são profissionais onde reconheço honestidade intelectual. Essa é a principal virtude de um jornalista. Eles podem errar, mas têm como objetivo buscar a verdade factual e podem mudar de opinião. 

Por que decidiu abordar o jornalismo político?
No início do projeto pensei em jornalismo cultural, mas ficaria muito amplo. Então, fechei um pouco o foco para poder ter comparações. Também acho que as pressões ideológicas e econômicas sobre o jornalismo político são mais evidentes e graves. É onde identificamos a parcialidade dos jornais. Em outras áreas também tem isso, mas não é tão imediato como na política.

O filme relata o incidente da “Bolinha de Papel” do Serra para criticar a situação da imprensa nas eleições de 2010. Com a proximidade de um novo pleito, como vê a situação da mídia atual?
Acredito que nas últimas eleições – de 2010, 2006 e 2002 - a imprensa se partidarizou muito. A imprensa, em geral, sempre foi muito governista. Apoiou o golpe de 64, depois a abertura política. Em seguida, apoiou Tancredo [Neves], [José] Sarney, Itamar [Franco], criou praticamente o [Fernando] Collor, apoiou muito o Fernando Henrique Cardoso, e só passou a fazer uma oposição feroz contra o governo na chegada do Lula ao poder. 

Então, ela passou a ser mais crítica e abandonou, em muitos momentos, critérios profissionais e básicos do jornalismo que é checar o outro lado, ouvir várias fontes, verificar a veracidade da informação. Passou a ser negligenciado se a notícia servia o interesse de atacar o governo. O que foi muito forte em 2006 e 2010. 

Um exemplo é a cobertura do 'Mensalão Petista' e 'Tucano'. O último foi pouquíssimo noticiado em comparação ao outro. Há uma distância enorme entre as coberturas. O que ocorre em pequenos escândalos também, como o da 'Bolinha de Papel', não houve interesse em descobrir o que realmente aconteceu.

Nas entrevistas, os atores e os jornalistas comentam como consomem notícias. Você acha que existe um meio mais democrático e confiável?
A maneira mais confiável de consumir notícia é com a diversidade. Há uma frase no filme que diz: "Se você não está em dúvida é porque foi mal informado". Acho que o leitor tem que ter uma postura ativa e não pode se contentar em ler um único veículo superficialmente. Quando lemos dois, três ou quatro meios sobre uma mesma notícia, conseguimos chegar mais perto do que seja a verdade. Essa é a maneira de consumir informação com qualidade.

"O Mercado de Notícias" estreia nos cinemas no próximo dia 7 de agosto. A peça, dividida em cinco atos, pode ser assistida por meio do site especial do documentário que também traz informações completas sobre o projeto, matérias, pesquisas, fotos e entrevistas.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves. 

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