“Achei que seria interessante trazê-los para luz”, diz autor do ensaio “Albinos”

Gabriela Ferigato | 31/07/2014 14:45
Devido à falta de pigmentação e a sensação de fotofobia, é comum associar a ideia de que pessoas albinas “fogem” de qualquer tipo de luz. Fazendo o movimento contrário, o fotógrafo Gustavo Lacerda lança nesta quinta-feira (31/7) o livro “Albinos” (Editora Madalena/Editora Terceiro Nome), selecionado pela Coleção Pirelli/Masp em 2010 e vencedor dos principais prêmios de fotografia do país.
Crédito:Gustavo Lacerda
Ensaio do fotógrafo Gustavo Lacerda com fotografias sobre albinos brasileiros vira livro
Fruto de cinco anos de projeto, Gustavo fotografou cerca de 50 personagens com albinismo em seus estúdios localizados em São Paulo, Rio de Janeiro e Maranhão. “Achei que seria interessante esse movimento contrário de trazê-los para luz, inclusive no sentido de se tornarem protagonistas”, conta.  

Vencedor de prêmios como Conrado Wessel, em 2011, Gustavo acredita que não apenas os albinos, mas “todas as pessoas que convivem com o estigma de serem diferentes, sofrem muitos preconceitos e vivenciam situações de desrespeito”. “Apesar de vivermos num mundo com tanto acesso à informação, ainda somos, em geral, quase 'bárbaros' nessa questão do respeito às diferenças”, opina.

IMPRENSA - Quando e como surgiu a ideia de produzir esse ensaio? Quanto tempo durou? 
Gustavo Lacerda - Na verdade, sempre tive interesse em fotografar pessoas que não costumam ser fotografadas. Acho bonito a sutileza dos tons de pele e pêlos dos albinos, me remetem a algo quase etéreo, sutil. E o fato deles terem fotofobia e não possuírem melanina faz com que sejam pessoas que, naturalmente, “fogem” do sol. Achei que seria interessante esse movimento contrário, de trazê-los para luz, inclusive no sentido de se tornarem protagonistas.  

Como se deu a escolha dos personagens? 
Muitos deles eu encontrei por meio das redes sociais. Outros, descobri nas ruas, ao acaso. Boa parte das pessoas foi surgindo ao longo do projeto, no “boca a boca”: amigos, parentes e amigos de amigos das pessoas que eu fotografava. Todas as pessoas tornaram-se muito especiais para mim. Mesmo as inúmeras fotos que acabaram não entrando no livro, todas trazem tantas lembranças desses encontros, histórias que ouvi, silêncios que diziam tanto, às vezes tensões e sempre muita delicadeza. 

Como foi a recepção do convite? Todos aceitaram na primeira vez?    
Não, imagina. É natural que haja resistência quando se convida para um retrato alguém que normalmente não é escolhido para tirar fotografias; surge uma pergunta automática: “Por que eu?”. Por isso foi um projeto longo, um processo de pesquisa para encontrar essas pessoas, depois o convite e a conquista da confiança de cada um deles até chegar o momento de fotografar.

Existe alguma história, em especial, que marcou a produção desse ensaio? 
São muitas histórias marcantes. No pequeno texto do livro, por exemplo, cito o encontro com a Raimunda. Uma moça muito tímida que encontrei totalmente por acaso numa lojinha, dessas pequeninas tipo bazar, quando estava de passagem por Cururupu, interior do Maranhão. Ela estranhou aquele insólito convite de posar para uma fotografia que sairia num livro, mas acabou aceitando e me procurou no fim da tarde quando saiu do trabalho. Raimunda era de uma timidez extrema, mas trazia uma pureza que a tornava elegante, única.  Nas quase duas horas em que estivemos juntos, ela nada falou comigo, mas me disse tanta coisa com seus gestos sutis e seu olhar cheio de brilho. Muitas vezes as histórias mais comuns são as inesquecíveis.

Quais foram os principais cuidados na produção das imagens? 
Procurei trabalhar com uma luz difusa, que não afetasse tanto a fotofobia dos albinos, mas, ao mesmo tempo, trouxesse bastante brilho à pele e aos cabelos. Optei por intervir na escolha das roupas e nos fundos de tecido. Dessa forma tive mais domínio sobre a estética de cada fotografia. E, o mais importante, aquele ritual da pessoa escolher uma roupa que foi pensada especialmente para a foto, tornava o momento muito mais especial para eles e catalisava um turbilhão de sentimentos tão presente nas imagens: vaidade, tensão, orgulho, desconforto. Tive também a sorte de trabalhar com parceiros que abraçaram o projeto com tanta intensidade quanto eu, como a figurinista Zsa-Zsa Fantini que, em alguns casos, confeccionou a roupa especialmente para a pessoa que a usaria.

Em sua opinião, como os albinos são vistos pela sociedade? 
Acho que não apenas os albinos, mas todas as pessoas que convivem com o estigma de serem "diferentes”, sofrem muitos preconceitos e vivenciam muitas situações de desrespeito. Apesar de vivermos num mundo com tanto acesso à informação, ainda somos, em geral, quase “bárbaros” nessa questão do respeito às diferenças. O que pode ser feito para incentivar a inclusão de albinos na sociedade? Acho que o principal é investir em educação e em uma educação mais humanista, que preze valores e não apenas resultados e números.

Confira a galeria com algumas imagens do ensaio "Albinos"


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