Jornalista propõe rotas literárias da capital paulista em novo livro

Alana Rodrigues* | 01/08/2014 14:45
São Paulo foi e ainda é palco de inspiração para diversos escritores brasileiros. A capital acumula pontos “turísticos literários” como o Teatro Municipal, que sediou a Semana de Arte Moderna em 1922; a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde estudaram Álvares de Azevedo e Castro Alves; e o Centro Cultural, concebido pelo poeta contemporâneo Mário Chamie.

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Goimar Dantas traz roteiro literário de SP em livro-reportagem

Para abordar a história desses e de outros locais, a jornalista e escritora Goimar Dantas produziu o livro-reportagem “Rotas Literárias de São Paulo” (Editora Senac). Ela propõe 21 rotas paulistanas baseadas na vida dos escritores que moraram na cidade. A ideia do projeto surgiu depois que a autora visitou as casas que pertenceram ao escritor William Shakespeare na pequena cidade de Stratford-upon-Avon, na Inglaterra.

“Tive a ideia pensando nos roteiros literários incríveis de São Paulo e que, para muita gente, não estão tão em evidência. Pensei em um livro que pudesse lançar luzes sobre esses locais”, explica a jornalista.

O trabalho é resultado de sete anos de pesquisa, entrevistas e seleção de materiais já debruçados sobre o tema. “Costurei o que já tinha sido feito com o olhar dos frequentadores. A intenção era deixar o texto memorialista e também contemporâneo”, ressalta a autora.

Com mais de 40 entrevistas realizadas ao longo de um ano, o livro conta com depoimentos do jornalista José Nêumanne Pinto; Pedro Herz, proprietário da Livraria Cultura; Marcelo Tápia, diretor da Casa Guilherme de Almeida; Frederico Barbosa, poeta e diretor da Casa das Rosas; da dramaturga Maria Adelaide Amaral e do presidente da Academia Paulista de Letras, Antonio Penteado Mendonça.

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Livro traz rota de bibliotecas, livrarias, museus e saraus

Eles discorrem sobre os espaços e revelam suas rotas literárias preferidas na capital entre bibliotecas, livrarias, saraus, sebos, museus, centros culturais, faculdades e até cemitérios, como o da Consolação, onde estão enterrados alguns dos escritores que marcaram a literatura brasileira.

Personagens

Ao longo de suas pesquisas, Goimar conheceu personagens que nunca imaginou encontrar. Um deles é Armando Marcondes Machado Júnior, mais conhecido como Armandinho. Ele foi presidente do Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Aos 90 anos, retornou à faculdade para fazer um levantamento de todos os estudantes que passaram por lá e transformou o material em livros.

A produção foi divida em sete volumes que apresentam a árvore genealógica dos advogados paulistanos, entre eles, poetas e escritores que frequentaram a academia como Hilda Hilst, uma das maiores literárias do século XX.

Outro personagem destacado pela jornalista é Hilda Merz. Quando adolescente, apaixonou-se por Monteiro Lobato. A jovem interagia com o autor, chegando a fazer parte de suas histórias, como no conhecido livro "Pica Pau Amarelo". Com seu conhecimento sobre a vida e obra do autor, Dona Hilda contribuiu por meio de diversas resenhas.

A jornalista relata ainda a curiosa história de Oswald e Mario de Andrade, destacados participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Quando o Mario morreu, eles estavam brigados e Oswald sentiu muito o fato de Mario ter falecido sem terem se reconciliado, mas foram enterrados a poucos metros um do outro no cemitério da Consolação. “Por uma brincadeira do destino, eles foram viver eternamente próximos”.

Repórter do passado

“Costumo dizer que o livro foi composto também por este fator que denomino como sorte. Foi um acaso encontrar estes personagens. Teve essa coisa da pesquisa in loco, do repórter, mesmo. A sorte de ir à rua e cruzar com personagens incríveis, os quais não teria pautado”, pondera a escritora.  

Goimar diz que a obra apresenta um mix de arte, literatura, história e jornalismo. Para ela, o resgate de documentos que remontam histórias é essencial para integrar a literatura brasileira. “Temos de mesclar informações do passado com o presente para projetar e vivenciar um futuro que valorize mais a literatura”, acrescenta.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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