Livro sobre o basômetro relaciona jornalismo de dados à análise política

Christh Lopes* | 01/08/2014 16:15
O comportamento dos parlamentares em corresponder às expectativas do poder Executivo não era acompanhado de perto pelo jornalismo político. Afinal, há uma tradição de ver a cobertura sobre os temas públicos a partir de pesquisas de institutos e crônicas sobre temas do cotidiano. A mudança de percepção na editoria foi fundada a partir da criação de uma ferramenta chamada basômetro. Por meio dela, cientistas políticos encontraram espaço para investigar, arriscar, formular, ilustrar e reforçar hipóteses sobre a conduta do Congresso Nacional.

Crédito:Divulgação
Obra reúne artigos que tiveram dados do basômetro como fonte

As análises políticas ganharam embasamento e público. Os artigos foram publicados no portal de O Estado de S. Paulo e revelaram pontos desconhecidos pelos próprios especialistas no assunto. Em dez ensaios sobre o tema, o livro “Análise Política & Jornalismo de dados – ensaios a partir do Basômetro”, publicado pela Editora FGV, destaca diversos tópicos revelados pela ferramenta, como o presidencialismo de coalizão, a lógica de representatividade do Senado, a atuação de bancadas partidárias e o conteúdo jornalístico. 

“É um excelente ponto de partida para análises e reflexões”, diz Humberto Dantas, um dos organizadores do livro. Como coordenador do curso de pós-graduação em Ciência Política na FESP-SP, o docente revela que pede aos seus alunos que utilizem a ferramenta para analisar com profundidade a situação política do País. “Solicito a eles análises, hipóteses, testes com a ferramenta. Como pesquisador e colunista tiro dados e os utilizo em meus argumentos”. 

Revolução no jornalismo político

Na editoria de política, por exemplo, existem profissionais que se dedicam a reportar tudo que envolve o cotidiano político de Brasília. Seja a discussão de uma nova lei, a votação de uma proposta de emenda constitucional ou até mesmo as negociatas para apoiar a posição do governo ou da oposição. Todos estes temas podem ser verificados a partir do Basômetro.

“Foi o primeiro grande projeto que fizemos. É uma tentativa de montar e criar uma interface gráfica que qualquer pessoa sem nenhum conhecimento tecnológico ou político pudesse usar com todos os votos dados por deputados e senadores nas últimas quatro últimas legislaturas”, conta José Roberto de Toledo, coordenador do Estadão Dados.

Jornalista atuante na cobertura política desde o início da carreira, Toledo hoje trabalha para que os novos repórteres tenham a ciência de que o trabalho estatístico pode ser a melhor fonte de uma reportagem sobre o assunto. Em 2010, ele fundou o primeiro núcleo de jornalismo de dados do País.

Criado a partir de modelos internacionais, o Estadão Dados desenvolve ferramentas como infográficos, gráficos e tabelas que complementam ou sejam base para uma matéria do jornal. “O núcleo de jornalismo de dados do
Estadão já ofereceu, por exemplo, ferramenta sobre coligações entre partidos. São excelentes formas de facilitar, por meio de imagens, as ideias de cientistas políticos e analistas, que desejam visualizar um dado fenômeno”, avalia Dantas.

A obra tem como principal característica a capacidade de subsidiar análises a partir de uma ferramenta de jornalismo de dados. A partir do instante em que se oferece uma base organizada ela pode gerar uma série de estudos em perspectivas múltiplas. “Essa é uma tendência e obviamente que isso vai exigir que os jornalistas cada vez mais estejam capacitados. Não é o jornalista que busca a notícia, mas aquele que a partir de dados a produz”, diz Marco Antonio Carvalho Teixeira, doutor em ciências sociais e colaborador do projeto que originou o livro.

Com o case de sucesso do basômetro, José Roberto de Toledo afirma que a aposta no jornalismo de dados é uma necessidade para os veículos, pois “o mundo oferece uma quantidade de dados gigantesca e cada vez maior. E você precisa ter ferramentas apropriadas para lidar com dados”. 

Jornalista será organizador e intérprete

Na opinião do docente Marco Antonio Carvalho Teixeira, a relação entre jornalismo e análise política é importante e indispensável, uma vez que “mostra dois olhares que podem produzir interpretações mais consistentes acerca de determinadas realidades”. 

Teixeira afirma ainda que o jornalista será organizador e intérprete. “O jornalismo precisa estar preparado para isso. Precisa ter conhecimento de estatística, conhecimento de diagramação e de ferramentas que possam torná-lo capaz de extrair o máximo dessas informações”, diz Toledo. 

“Como sociólogo posso afirmar que num mundo em que as pessoas estão cada vez mais na frente das telas e cada dia mais dispostas a ter interatividade, é possível afirmar que o jornalismo de dados empresta aos usuários de ferramentas desse tipo um protagonismo incomum à profissão”, destaca Dantas.

Para ele, a oportunidade de atrair o público necessitará de profissionais qualificados para narrar os dados. “Claro que faltará o tato, a habilidade do bom jornalista, mas as ferramentas sugerem que os interesses se adensem, e isso é muito bom”, completa.

Estadão Dados foi base para o estudo

A ideia de lançar dados com metodologias científicas para ser fonte de informação do jornalismo foi o mote principal do Estadão Dados. Assim que foi lançado, o núcleo trabalhou para a formação do Basômetro, e apostou todas as suas fichas na iniciativa. “O Estadão lançou e o fez fazendo um barulho bacana. Logo que sentei na frente da ferramenta pensei: quantas hipóteses isso pode inspirar, quantas perguntas poderiam ser respondidas ou inicialmente trabalhadas?!”, revela Dantas.

Assim que verificou o número de possibilidades oferecidas pela ferramenta, o cientista político conta que ligou na hora para Toledo. “Propus organizar dez textos de cientistas políticos utilizando o basômetro. Ele topou publicar os textos, artigos em ritmo de opinião, no site. Todos os cientistas toparam. Foi então que o Paulo Peres, do Rio Grande do Sul, sugeriu que podíamos aprofundar ou criar novas análises e transformar isso num livro”, diz.

Marco apresentou a ideia de reunir estes artigos em um livro. Como professor da Fundação Getúlio Vargas, teria dito a Dantas que a editora teria interesse na publicação, principalmente em virtude do caráter multi-institucional dos autores. “E a partir daí foi costurar prazos, textos, temas etc. Organizar um livro é exercício de equipe. Essa não foi difícil, até porque todos vibraram com a oportunidade. O problema era o prazo”, afirma.

“Queríamos lançar no aniversário de um ano do basômetro e acabamos lançando com dois anos e pouco. Mas veja que felicidade: estamos em meio às eleições. A hora é agora. Muito mais interessante”, completa.

Acesse a ferramenta no site, ou entre no Estadão Dados

Assista ao vídeo:



* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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