Estúdio Fluxo apresenta novo modelo econômico para produção de informação

Christh Lopes* | 03/09/2014 16:30
Nas jornadas de junho de 2013, as mídias ditas independentes ganharam e corpo na sociedade brasileira. Contraponto à cobertura tradicional, tais veículos despontaram pela espontaneidade da informação e pelo engajamento dos espectadores em suas transmissões. Foi neste cenário que a Mídia Ninja se fortaleceu e conquistou adeptos durante as manifestações no país.

Crédito:Divulgação
Bruno Torturra defende projeto de mídia independente do Estúdio Fluxo

Um dos membros do coletivo de comunicação, o jornalista Bruno Torturra aproveitou a experiência e aprendizado ao longo dos meses de criação e expansão do projeto para seguir seu próprio caminho e retomar o conceito inicial do grupo. De natureza mais autônoma, o projeto de mídia independente Estúdio Fluxo utiliza diversas plataformas para difundir uma nova maneira de produzir informação. 

“Meu plano era investir em um espaço físico, num veículo mais enxuto e focado em experimentar não apenas linguagem, mas um novo modelo econômico para a produção de informação”, conta o jornalista. A vontade de explorar novas possibilidades no jornalismo foi tanta que os organizadores pagaram do próprio bolso o aluguel de um prédio localizado no centro da capital paulista, o Farol. 

No edifício de 70 anos, a equipe divide o espaço com outras iniciativas que também colaboram na produção cultural para os paulistanos. Nele estão alocados o Instituto Choque Cultural (centro educativo focado em arte pública e pensamento urbanístico), o Líquen (escritório e oficina de artistas e designers) e a Balsa (casa de eventos). As parcerias não se restringem apenas ao local.

Junto com Torturra, o jornalista Antônio Martins realizou o primeiro programa feito em parceira de conteúdo com o portal Outras Palavras. Em entrevista transmitida ao vivo no site do projeto, a atração recebeu o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e colunista da Folha de S.Paulo, Guilherme Boulos. Em pauta, questões sobre a habitação popular.

Um das ideias do projeto é justamente fugir do pragmatismo que prende o jornalismo em editorias. No Fluxo, não há divisões em "política", "cultura", "mundo", "cotidiano". A produção do Estúdio será organizada a partir dos temas presentes no cotidiano da agência pública do país. “No nível editorial, pretendo apostar em causas, vozes e pontos de vista subexpostos na mídia comercial”, afirma. 

“Para isso, estamos montamos uma grade de programação ao vivo, em streaming, direto do estúdio. O que aumenta a nossa capacidade de produção de reportagens e entrevistas em vídeos e textos”, acrescenta.

O leitor também encontrará artigos, programas e matérias fotográficas. “Vamos trabalhar em um regime sem muita hierarquia, uma experiência mais fluida entre equipe fixa e colaboradores”. 
 
O jornalismo segue respirando

Ao apresentar o projeto aos leitores, o Fluxo ressalta que não devemos acreditar no que a mídia prega. Segundo o texto, o jornalismo nunca esteve tão vivo. “Nós não confundimos o ofício com o modelo industrial, exclusivamente comercial da imprensa, convenhamos, em franca decadência. Felizmente, grupos, nomes e modelos para um jornalismo diferente emergem todos os dias”, diz Torturra.

Com o objetivo de crescer e se transformar de acordo com a mudança do ambiente político e cultural, a iniciativa pretende contar com a adesão de novos colaboradores e desenvolvedores digitais, como também com a participação do internauta, base considerada primordial para evoluir. “Viabilizando financeiramente nossa produção, ajudando a pautar e criticar nosso conteúdo e difundindo nosso material”, afirma. 

A ideia é construir uma base de assinantes que estabeleça uma relação simbiótica com o projeto. “E, assim, criar um envolvimento pessoal e editorial com nossos apoiadores e membros. E no nível, digamos, físico, usar nosso espaço para a realização de eventos, cursos e festas como forma de aumenta a renda, o tipo de reflexão que produzimos e a participação do público”, salienta Torturra. 

Necessidade de renovar o jornalismo

Na avaliação do jornalista e idealizador do projeto Bruno Torturra, há uma real necessidade de se renovar a maneira como o jornalismo é feito. “A sociedade hiperconectada, o diálogo público que migrou para as redes sociais, o enorme fluxo de informação e debates transforma o modelo industrial e verticalizado do jornalismo em algo obsoleto. A prova disso é a derrocada financeira das grandes redações. O que pode ser muito perigoso se o jornalista confundir seu ofício com o mercado”, alerta. 

Por outro lado, ele reitera que “dada à complexidade dos nossos problemas e pautas, o excesso de informação distribuída e a facilidade de registro e difusão de textos e imagens, o jornalismo nunca foi tão necessário e relevante. Nem teve um potencial tão grande de se reinventar”. A inovação da iniciativa se destaca pela participação do internauta, que pode contribuir e colaboração com o Fluxo.

O leitor que deseja participar do projeto Estúdio Fluxo pode:

Manter: Como apoiador ou membro através de contribuições em dinheiro para a manutenção e expansão do projeto. Em troca, o Estúdio Fluxo oferece recompensas e contrapartidas. 

Produzir: Como colaborador e produtor de conteúdo. O estúdio está aberto a sugestões de pauta e de programação. A iniciativa busca parceiros e comunicadores interessados em usar a estrutura editorial oferecida pelo Fluxo para criar reportagens, programas e projetos. 

Frequentar: Como participante do cursos, eventos e festas promovidas pelo Fluxo e presentes na agenda de encontros no estúdio e no prédio Farol, onde o projeto se localiza. Apoiadores e membros da iniciativa ganham descontos. Em alguns casos, poderão participar gratuitamente.

Espalhar: Como difusor, comentarista e crítico do conteúdo veiculado pelo projeto. Para o Fluxo, essa é única forma de se ampliar o alcance e relevância. Segundo eles, a métrica nunca será o número de cliques; mas a medir e pautar o trabalho pelo engajamento e participação do público. 

Não basta ter fé, é preciso fazer a oferta

No vídeo de arrecadação para a iniciativa, o “Pastor Turra” pede aos fiéis internautas que façam a oferta para que o projeto seja mantido. Em paródia aos programas religiosos na televisão – que fazem campanha para pagar o espaço nos canais abertos – o líder ressalta a importância da singela oferta de R$ 15. “Abra seu coração e prove sua fé na mídia independente”, diz o Fluxo.

Ao falar diretamente para o internauta “que não está feliz” com a cobertura da grande mídia, o Pastor destaca a iniciativa de uma nova alternativa. “Sabe por que ela não está lá? Porque você não faz a oferta. Aqui são dois anos construindo a ‘obra’ do jornalismo independente. É correndo da polícia, respirando gás lacrimogêneo, saldo negativo, pra quê? Agradecemos muito o seu like, fiel seguidor, o seu compartilhamento, mas põe a mão na consciência. E põe a mão no bolso também”, ironiza. 

Por fim, o líder religioso da mídia independente destaca a importância da doação aos seus colaboradores. “R$ 15 para quê? Pagar nosso ‘obreiro cinegrafista’, pagar nosso ‘obreiro editor’, pagar o aluguel meu amigo. Para pagar o aluguel meu amigo. Então é isso, meu amigo. A gente pede para que você ponha a mão no coração e entrar www.fluxo.net/doar. Nos vemos na internet”.

Assista ao vídeo “Doar é Amor”:



* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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