Agência promove jornalismo para jovens com estímulo à produção de conteúdos

Christh Lopes* | 23/10/2014 13:00
Promover a produção de conteúdos de comunicação para quem não tem a oportunidade de arcar com os custos de um ensino especializado deixou de ser apenas um desejo para se tornar um negócio para a jornalista Amanda Rahra. Junto com Nina Weingrill, ela comanda a Énois Inteligência Jovem. A agência desenvolve projetos que estimulam o desenvolvimento de novas formas de fazer, pensar, ver e inovar os processos que envolvem o cotidiano da imprensa brasileira.

Crédito:Divulgação
Equipe da agência Énois ensina jornalismo para jovens da periferia de SP

Dividida em três fases, a iniciativa trabalha nas frentes de Educação, Produção de Conteúdos e Pesquisa, todas integradas em prol do segmento juvenil. “Temos como norte a visão do jovem e de colocá-lo para fazer [algo]. Não fazemos nem por ele, nem para ele e nem sobre ele; mas junto com ele”, diz Amanda.

A jornalista começou a lecionar os conceitos que aprendeu na faculdade de jornalismo em oficinas conduzidas pela Casa do Zezinho, ONG situada no Capão Redondo, zona sul de SP, em 2009. Foi o primeiro passo para a paixão pelo ensino. “Começamos a lecionar oficinas para jovens de periferias e, aos poucos, largamos o jornalismo clássico – trabalhávamos numa editora. Pelo caminho, encontramos os makers, transformadores. Percebemos como a comunicação fortalecia a ação desses caras, mobilizava pessoas e eles se orgulhavam quando viam a coisa comunitária”.

Atualmente, a Énóis conduz os conceitos de comunicação para mais de 3.200 alunos. Tudo isso graças às parcerias com empresas que desejam dialogar com o segmento juvenil. As ideias passam por uma base primordial: estabelecer um canal de contato direto com o target da mensagem, a fim de aperfeiçoar cada vez mais os materiais presentes nos produtos desenvolvidos pela agência. “Antes de produzir qualquer coisa, a gente pergunta para o público”, diz.

Ferramenta para os jovens

No centro paulista, o negócio local já apresenta resultados. Um deles, o projeto ‘Jovens de Responsa’, patrocinado pela Ambev, contempla organizações não governamentais (são mais de 25) que estimulam propostas para alertar os adolescentes sobre o consumo do álcool. “Nós falamos: ‘o programa é para jovens e vocês não se comunicam com eles. Que tal se a nossa equipe fizer uma revista para disseminar a ideia de consciência e atitude, que é o mote da história?’”.

“Você não fica no fato, na coisa careta de: ‘ah, não beba, não beba’, pois não é isso que o jovem, ouve, não reverbera nele. Então, vamos chamá-los para produzir um conteúdo que faça sentido para transmitir a mensagem”, acrescenta. Na quinta edição, a publicação conta com mais de dez correspondentes espalhados por todo o país, que auxiliam com o envio de sugestões de pauta, personagens, além de colaborarem com os materiais do periódico.

A diversidade cultural está presente na agência. Ao reunir os potenciais mobilizadores da nova geração e colocá-los em prol de um objetivo foi possível remunerar pela produção dos conteúdos e expandir suas atividades. Ao criar uma metodologia voltada à demanda, Amanda conseguiu atrair a atenção dos alunos aos conceitos do jornalismo.

A partir das aulas presenciais, ministradas em oficinas, as técnicas são colocadas em prática e planejadas a partir do chamado feedback. Ou seja, a grade curricular é discutida com o real interessado, o estudante, que troca experiências com os professores a fim de aperfeiçoar tanto a docência como a forma como os princípios tangentes de cada matéria serão passados. “[É] ter planejamento que envolva o target. É uma metodologia que respeita muito o diálogo. O diferencial é colocar ele para fazer. É dar autonomia para que faça - e critique também - a produção para que se entendam os diversos conceitos conforme o que é feito”.

Ancorado na prática, o Énois desenvolveu uma plataforma para democratizar o acesso ao ensino. No ano passado, o grupo reuniu verba por meio do financiamento coletivo catarse para criar a sua Escola Livre de Jornalismo. “Pensamos em expandir a formação. Mas, para isso, precisamos saber onde o jovem de ensino médio - nosso público e foco de atuação - estava; na internet!”.

Conectados com o mundo

No YouTube, é comum acompanhar uma série de vídeos com professores lecionando conteúdos distintos, de jeitos particulares. Parecidas com o “cursinho para vestibular”, as videoaulas são mais práticas e estimulam o internauta, no caso, com exemplos próximos ao seu cotidiano e exercícios resolvidos para visualizar o processo de cada equação. “É isso de maquiagem a matemática”, afirma.

Com a ajuda de uma produtora, um curso sobre como fazer um vídeo documentário neste formato foi lançado. Resultado: mais de três mil alunos interessados. “Tem uma demanda reprimida, uma galera querendo fazer isso. Criamos algo livre, que qualquer um pode acessar e se quiser criar a sua plataforma também. Com o Catarse, conseguimos viabilizar a produção da plataforma e de mais três módulos de vídeo-aula, que serão lançados no próximo dia 11 de novembro”.

Um deles discorrerá mais sobre o vídeo documentário, com materiais de apoio atualizados. Outro, pretende falar com os usuários da rede que têm facilidade com programação e afins. É o “Hackear a cidade”. Este módulo será conduzido pela jornalista especializada em planejamento urbano, Natália Garcia. No “Cidades Para Pessoas”, ela faz um mapeamento de problemas em regiões distintas e estimula conexões para suas devidas soluções, como uma rede de conteúdos e conexões urbanas. 

Ainda haverá um que tende a abordar conceitos de pesquisas, para instigar o aluno a levantar dados sobre o cotidiano/bairro/comunidade em que está inserido. “Queremos oferecer o que a gente chama de oficina híbrida, fazendo a formação do educador para que ele possa trabalhar com as vídeo aulas”.

A plataforma foi desenvolvida para ser atualizada conforme a demanda. Por isso, há uma ferramenta que auxilia o docente a acompanhar o desenvolvimento individual do aluno. Como até que ponto ele chegou nas matérias, como melhorou nas atividades, de que forma progrediu e o que precisa para se adaptar ao conteúdo lecionado. Assim, é possível decodificar um certo avanço ou as limitações que existem na metodologia de ensino. “É avaliar e avaliar, para democratizar o acesso à educação”, diz.

Embora tenha alcançado um número significativo de alunos, Amanda não pretende deixar as aulas presenciais de lado. Para ela, há espaço para se dedicar aos dois modos presentes na agência. “Uma complementa a outra. Para fomentar vídeo-aulas e atingir mais gente, é necessário prosseguir com a escola experimental, para ver o que funciona ou não. É o grande laboratório de experimento de acertos, erros, dúvidas e angústias. Enfim, queremos construir coisas mais palatáveis à maioria”. 

“Se não temos o encontro olho no olho, não conseguimos conversar com eles. A plataforma só pode ser construída com base em um fazer real”, completa.


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

Leia também