Diretor de redação do "Diário do Comércio" revela bastidores do fim do jornal

Redação Portal IMPRENSA | 03/11/2014 11:30

Atualizada às 12h55

Diretor de redação do Diário do Comércio desde 2003, o jornalista Moises Rabinovici comentou em sua página no Facebook no último domingo (2/11) sobre o fim da edição impressa do jornal, anunciada na sexta-feira (31/10).


Crédito:Alf Ribeiro
Moises Rabinovici criticou fim da edição impressa do "Diário do Comércio"

"'Neste momento em que conversamos aqui, estou suspendendo todos os contratos no Diário do Comércio. O jornal acabou'. Ainda não sei o que senti ao ouvir a inesperada sentença de morte do jornal, tão incomensurável. Ainda não a absorvi, passados já dois dias de sua execução", escreveu ele ao relatar a conversa com Rogério Amato, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Sem edição de despedida e com a equipe pega de surpresa pelos executivos da entidade, o fim do jornal resultou na demissão de boa parte dos jornalistas. Rabinovici também está na lista de profissionais que deixaram a publicação.

Ao anunciar o fim da versão impressa do Diário, marca que completou 90 anos em 2014, a ACSP, em texto assinado por Amato, disse que o veículo será convertido em "plataforma digital, incorporando as grandes mudanças tecnológicas que transformam e dinamizam a imprensa mundial".

Em seu texto, Rabinovici presume que o déficit "insustentável" apresentado por Amato, embutiam "o gasto milionário com processos trabalhistas iniciados em 2013, quando foi demitida a metade dos informais da redação, e a outra metade, contratada pela CLT. A banca de advogados que assessorou a ACSP baixava um taxímetro caríssimo quando consultada até por telefone".

Segundo ele, a conta era debitada no jornal e se todos os informais fossem celetizados, na época, os gastos seriam baixos e a "sangria" na redação poderia ser estancada. "Perdemos muitos talentos, cortamos cadernos semanais de Cultura, Informática, Turismo e Esporte, reduzimos as páginas do jornal e amargamos frustração, baixo astral e o dobro do trabalho", acrescenta.

O jornalista menciona também a perda de anunciantes como Bradesco, que apostava no jornal há 80 anos, e o Grupo Votorantim. "A redação encaixotava, limpava gavetas, sentíamos todos como se estivéssemos sendo expulsos. O DC foi o último reduto para alguns jornalistas", pondera.

Segundo Rabinovici, circula a informação de que a "plataforma digital" será comandada por Marcelo Tas, que há algum tempo frequentava a ACSP. O jornalista diz ainda que os anúncios e licitações contratados devem ficar a cargo do jornal O Estado de S. Paulo.

"Gostaria de ter fotografado a minha sala depois de esvaziada. Daria uma ótima foto para a última edição: sobre a mesa e cadeiras, ficaram os prêmios e diplomas conquistados pela equipe valorosa que honrou o Diário do Comércio, e aqui incluo também os jornalistas que saíram revoltados no tsunami da formalização de 2013, e que contribuíram, paradoxalmente, para o déficit agora apontado como nossa causa-mortis", finaliza ele.

À IMPRENSA, Rogério Amato disse que a entidade trabalha na ampliação do escopo do veículo para novas plataformas. "Nós não estamos encerrando o Diário. Estamos partindo para um outro alcance", reforçou.

"Evidente que o aspecto econômico também prevalece. Mas não é um fato isolado", acrescentou. Segundo ele, o fato de a ACSP ser uma entidade que mantém um jornal escrito, as dificuldades são ainda maiores em termos de captação de anúncio, por exemplo.

O presidente ponderou ainda que, embora seja doloroso dispensar profissionais qualificados, é preciso pensar no futuro, na entidade e nas atividades desenvolvidas pelo jovem empreendedor no meio digital. 

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