"Existe vida além da Folha, existe vida além do impresso", afirma Eliane Cantanhêde

Christh Lopes* | 19/11/2014 14:00
A jornalista Eliane Cantanhêde comentou pela primeira vez o fim de sua coluna no jornal Folha de S.Paulo. Ela foi dispensada junto com Fernando Rodrigues e outros profissionais pela direção do veículo, que alegou instabilidade financeira para os cortes

Crédito:Reprodução/TV Globo
Eliane Cantanhêde ficou envaidecida com carinhos dos leitores em sua saída da "Folha"

O corte atingiu 24 profissionais, sem distinção de editoria. Nessa leva, figuram repórteres, editores e pauteiros. À IMPRENSA, a jornalista conta que não esperava a dispensa e ressalta o carinho recebido pelos leitores. Na semana em que foi noticiada sua demissão, alguns assinantes resolveram protestar e desejar sorte a ela no espaço “Painel do Leitor”.

“A força do hábito ainda me faz procurar todas as manhãs, já que sou leitora assídua da Folha, a coluna de Eliane Cantanhêde. Colunista lúcida, como ela, escrevendo em um linguajar fácil, com certeza atingia e conquistava todos os leitores em todas as suas diversidades. Perda para a Folha!”, afirmou uma leitora. 

Ao longo da carreira, Eliane passou pelo Jornal do Brasil, Veja, O Globo e O Estado de S.Paulo. Nos 17 anos de trabalho na Folha, ela dirigiu a sucursal de Brasília até conquistar um espaço na seção de opinião, onde fazia análises sobre a política brasileira. “Existe vida além do impresso”, garante Eliane, que atua  hoje como comentarista do telejornal “Globo News em Pauta” e da Rádio Metrópole da Bahia.

IMPRENSA: Você atuou na Folha de S.Paulo por muitos anos e já conhecia intimamente a estrutura e forma de trabalho da empresa. Esperava esse desligamento poucos dias após o fim das eleições?

Eliane Cantanhêde: Não, não esperava, mas todo mundo, de dentro e de fora da Folha, sabia que, passadas as eleições, haveria mais uma rodada de demissões. Eu e o meu colega e amigo Fernando Rodrigues brincávamos: "Ih! É melhor a gente ficar esperto". Caímos os dois. Ele, com 27 anos de casa, mais de um Prêmio Esso, sai da Folha, mas continua brilhando no UOL.

No corte que acabou atingindo outros 24 profissionais, o jornal alegou razões econômicas. Foi essa, de fato, a justificativa ao informarem a você o fim do contrato?

Sim, foi isso que me disseram. Depois, disseram também à ombudsman que demissões de colunistas são fruto de ajustes financeiros ou de necessidade de "renovação". Bem... Corte de gastos e "renovação" começando justamente por uma das colunistas mais lidas, senão a mais lida? São critérios, para mim, insondáveis.

Como tem avaliado a repercussão de sua saída da Folha de S.Paulo?

Estou surpresa e, confesso, envaidecida. Recebi mensagens incríveis dos meus colegas de Folha em Brasília, em São Paulo, no Rio. E, fora da Folha, virou um turbilhão nas redes, nos meus e-mails, no meu celular, na minha caixa postal. Teve gente escrevendo dos Estados Unidos, da Europa, da América Latina... Há 17 anos escrevendo na página A-2, eu e os leitores criamos um vínculo muito forte. Vou sentir falta deles, acho que eles estão sentindo falta de mim. Mas eles logo se acostumam com os sucessores. Faz parte.

Muitos leitores avaliam que sua saída é uma manobra do jornal para, de certa forma, agradar a situação, visto que muitos avaliam suas colunas como críticas ao governo. Qual sua percepção sobre isso?

Não tenho a mínima informação, mas, pelo que conheço da Folha, acho uma especulação sem sentido.

Há alguns anos, a Folha passa por cortes sistemáticos. Acredita que isso seja reflexo de uma crise no meio impresso ou há raízes mais profundas, como uma crise na profissão?

Há uma crise evidente no impresso, aqui e em todo mundo. Basta olhar o que está acontecendo nos Estados Unidos. Mas não creio que essa crise das empresas se reflita numa crise na profissão. Quem tem talento, dedicação, curiosidade e capacidade sempre terá espaço. Há televisão aberta, TV a cabo, revistas, rádios, internet, comunicação corporativa, assessoria de imprensa, produção de vídeos... Existe vida além da Folha, existe vida além do impresso.

Há planos e propostas para atuar em outro veículo?

Há conversas, mas estamos em meados de novembro, todo mundo já pensando em Natal e Ano Novo. Qualquer coisa mais consistente, só a partir do ano que vem.  Estou feliz e confortável no “Globonews Em Pauta”, das 20h às 21h, de segunda a sexta. Entro geralmente às terças, quartas e sextas e adoro o canal, a turma e o formato. Além disso, tenho a Rádio Metrópole da Bahia, onde também se faz um bom jornalismo. A Folha foi algo fantástico na minha vida. Foi muito bom enquanto durou. Mas tudo passa e estou muito bem, obrigada!

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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