“Fale com Estranhos” promove entrevistas com anônimos do cotidiano paulistano

Christh Lopes* | 19/11/2014 15:45
Entrevistar um personagem ilustre é o desejo de boa parte dos jornalistas. Porém, no projeto “Fale com Estranhos”, a jornalista Adriana Negreiros e o designer gráfico Daniel Motta apresentam a vida de pessoas que passam despercebidas no cotidiano de milhares de pessoas, sem, ao menos, se revelarem ao mundo. Pelas câmeras do Estúdio Braba, eles ganham voz, holofotes e espectadores.

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Projeto ouve "estranhos" nas ruas de São Paulo

Uma placa amarela convida aqueles que desejam compartilhar suas experiências com os profissionais de comunicação. São populares que se sentem desafiados em expor publicamente seus problemas de todas as ordens.

O projeto é fruto da decisão da dupla em se tornarem documentaristas. Eles se conheceram na redação da revista Playboy, da Editora Abril, e desde então, não se desgrudam. “Temos em comum o gosto pela ‘arte’ da entrevista, a atração pela rua, a vontade de por sair por aí em busca de boas histórias e em novas estéticas”, conta Adriana. 

Certa vez, os dois viajaram até o interior paulista, na cidade de Piracicaba, para conhecer a história de moças que bebiam sangue e se diziam vampiras. A curiosidade e o desejo de seguir na nova função resultou na criação da produtora de conteúdo Estúdio Braba, que presta serviço para empresas. Foi por meio da empresa que viajaram pelo país para entrevistar mulheres para o Prêmio Cláudia.

Nos depoimentos registrados para a Editora Abril, eles relatam ter ficado fascinados com algumas figuras que cruzaram seu caminho, principalmente um barqueiro do Rio Amazonas, um taxista do Rio de Janeiro e uma índia de Dourados (MS). “Pensamos como seria interessante gravar as histórias que essas pessoas, de forma descompromissada, nos contavam”, revela Adriana. 

“Chegamos a gravar algo, como teste, e no retorno a São Paulo começamos a discutir o que seria o modelo do projeto”, acrescenta. O formato que hoje ganha a atenção dos internautas não demanda esforços. A dupla monta os equipamentos de gravação, fixa a placa amarela com os dizeres: "olá, venha aqui e fale com estranhos", sentam-se em um banquinho e aguardam que o entrevistado se apresente.

“Como somos filhos do jornalismo impresso, pensamos em experimentar novas linguagens e foi assim que, com a cara e a coragem, começamos a nos aventurar com uma câmera de vídeo”, diz a jornalista.

Um modelo semelhante havia sido testado por Daniel Motta que, entre 2010 e 2012, colocou urnas em pontos públicos da capital paulista com a inscrição “me dê um conselho”. No espaço, as pessoas escreveriam um conselho qualquer e depositavam no espaço idealizado pelo designer gráfico, que continha uma pilha de papeis e uma caneta. Os melhores conselhos foram transformados em livro.

“Podemos dizer, portanto, que o ‘fale com estranhos’ é filho do ‘mê dê um conselho’. É a principal inspiração para o projeto”, revela Adriana, que, também não descarta um final igual a do pai da iniciativa. “Cogitamos lançar um livro e um longa, mas são projetos a longo prazo. Todas as nossas energias, nesse momento, estão voltadas para os vídeos na Internet”. 

Inspirações, projetos e repercussão

“Vale ressaltar que, no projeto específico, os estranhos somos nós. Nós somos os estranhos com quem as pessoas vão conversar”, declarou Adriana. Ao dar espaço a quem passa despercebido no cotidiano, os vídeos, de fato, deixam expostas algumas raízes da rotina diária do trabalho do profissional de imprensa, que sai das redações em busca de uma pauta que esteja na boca do povo.

Como repórter, por exemplo, a jornalista conta que muitas vezes foi à rua para ouvir os chamados “populares” sobre assuntos díspares, como greve a aborto. “O Daniel tinha o hábito de ler estranhos, por causa do ‘Me Dê um Conselho’”. O sociólogo Geertz tinha uma máxima que, se aplicada à iniciativa, explica o seu sucesso: transformar o familiar como exótico, e o exótico como familiar. 

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Personagem conta que apanhou do pai por brincar com criança negra na infância

Sobre a repercussão, ambos avaliam positivamente o projeto. Quando despontou, a iniciativa certas vezes foi comparada ao modelo do falecido cineasta brasileiro Eduardo Coutinho, que empregou um novo modelo de entrevistas. 

Orgulhosa por ver o seu trabalho relacionado com um dos ícones do cinema, Adriana Negreiros diz que as pessoas, de uma forma geral, estão carentes de boas histórias. "Estão também um tanto aborrecidas com a zoeira a que costumam ser submetidos muitos anônimos que se propõem a dar entrevistas diante de uma câmera. Achamos, com o perdão da imodéstia, que o ‘Fale com Estranhos’ transmite verdade e sensibilidade, e isso é atraente para o público”.


Processo de criação envolve ambos

Todo o processo de produção tem um dedo de Adriana e Daniel, que juntos discutem a pauta, definem os locais das entrevistas e escolhem como o vídeo será editado. “Na hora da filmagem, o Daniel opera a câmera e eu faço as entrevistas. Mas, muitas vezes, ele também contribui. Por exemplo, filmamos um rapaz que mencionou uma reza com as mãos. Ao perceber que eu iria terminar sem pedir ao Leo que rezasse para a câmera, o Daniel ‘interviu’ e pediu ao rapaz que fizesse isso”.

O espírito de equipe resulta em vídeos de, em média, três minutos de duração, com o depoimento de pessoas comuns. Nas imagens, no entanto, fica clara a importância de cada um no processo de criação.  São como peças de um quebra-cabeça que, embora não representem o todo, são fundamentais para um retrato da sociedade paulistana. Confira o canal e os episódios do “Fale com Estranhos” no site.

Assista ao vídeo:


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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