“Está na hora de o Brasil assumir seu papel no cenário internacional”, diz Adriana Carranca

Danubia Paraizo | 25/11/2014 17:15
Vencedora da categoria “Cobertura Internacional” da 11ª edição do Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo, Adriana Carranca, do jornal O Estado de S.Paulo, falou à imprensa sobre a reportagem “Sudão do Sul: A guerra esquecida”, segundo reconhecimento consecutivo na premiação. 
Crédito: Danúbia Paraizo
Adriana Carranca (à esq.) é vencedora da categoria "Cobertura Internacional"
Em 2013 a repórter levou o “Grande Prêmio” por uma série de reportagens sobre a Guerra no Afeganistão. “Foi uma enorme surpresa estar na final com dois trabalhos: Guerra no Congo e no Sudão do Sul”. À IMPRENSA, a jornalista falou sobre os preparativos da viagem ao Sudão e aproveitou para cobrar mais posicionamento do Brasil perante os conflitos internacionais.

IMPRENSA: Durante seu discurso na cerimônia, você falou sobre a responsabilidade brasileira de mediar conflitos. Ainda falta um maior protagonismo do País?
Adriana Carranca: Falta muito para o Brasil assumir um papel mais ativo no sistema internacional. Com o fim da ditadura, o País voltou a fazer parte do debate de direitos humanos e é sua responsabilidade participar dessas questões que dizem respeito a todos nós, como os grandes conflitos mundiais. Acho que um país isolado é um país menos democrático, onde as pessoas têm menos parâmetros de comparação e de julgamento. Acho que está na hora de o Brasil, como uma das principais economias do mundo, assumir o seu papel no cenário internacional, um papel mais protagonista nessas questões. 

Quais foram as principais dificuldades ao chegar até ao Sudão do Sul?
Quando cheguei na região, não tive confiança para entrar diretamente no Sudão do Sul, os conflitos estavam acontecendo de verdade entre os rebeldes e o exército do presidente. Então, fui até o norte de Uganda, para onde foi a maioria dos refugiados e de lá tive confiança para entrar no Sudão do Sul. Fiz o caminho oposto ao dos refugiados. 

Foi uma cobertura muito impactante porque na medida em que eu avançava em direção à capital eu via aquela multidão fugindo no caminho inverso ao meu. Mas graças à Deus deu tudo certo e a gente conseguiu mostrar um pouco do que está acontecendo por lá. É uma guerra que continua e que o Brasil tem sim possibilidade de pressionar a comunidade internacional para fazer mais pela região.

O que mais te marcou na cobertura?
O país é o lugar mais pobre onde já estive. É realmente miserável. Cheguei um pouco depois do início do conflito. O Sudão do Sul já nasceu de uma guerra. Foi criado a partir de 30 zonas de conflito com o embate muçulmano. São gerações de pessoas que não conheceram nada senão a guerra, então, todo mundo celebrou muito a criação do Sudão do Sul, que é majoritariamente cristão. Mas o país continuou muito frágil. Logo estourou uma nova guerra interna entre grupos étnicos. Por lá há predominantemente os conflitos por interesses financeiros. A região é muita rica em petróleo. É uma guerra que se diz étnica, mas gera interesses financeiros.

Prêmio Líbero Badaró

Iniciativa da revista e portal IMPRENSA, com apoio da Câmara Municipal de São Paulo e de associações ligadas à liberdade de imprensa, o Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo visa estimular o desenvolvimento da imprensa brasileira, distribuindo R$ 72 mil aos melhores trabalhos jornalísticos do país, tanto de profissionais quanto de universitários.

A 11ª edição reconheceu as melhores matérias - veiculadas de 8 de abril de 2013 a 7 de abril de 2014 - em 10 categorias, mais duas categorias especiais: Grande Prêmio Líbero Badaró, à melhor matéria ou reportagem inscrita e Contribuição à Imprensa, que reconhecerá a contribuição à mídia brasileira feita por uma instituição, empresa ou pessoa física.

Leia também