Amaury Ribeiro Jr. deixa ICIJ após questionar entidade sobre dados do caso HSBC

Alana Rodrigues* | 25/02/2015 15:30
Na última quinta-feira (19/2), o jornalista Amaury Ribeiro Jr. enviou uma carta aberta ao site Viomundo, na qual relata sua renúncia do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), após uma troca de e-mails com a vice-diretora da entidade, Marina Walker Guevara, questionando o fato de o órgão escolher apenas uma empresa de mídia, o UOL, para apurar e divulgar o vazamento de dados referentes às contas secretas do HSBC no caso Swissleaks.

Crédito:Divulgação
Jornalista acredita que entidade não tem agido corretamente ao divulgar dados do Swissleaks

No Brasil, o "SwissLeaks" foi revelado pelo blog do jornalista Fernando Rodrigues, no portal UOL. Segundo a página, constam na lista 6.606 contas bancárias de 8.667 clientes brasileiros, com um valor movimentado de cerca de 20 bilhões de reais.

Amaury, também membro do ICIJ desde sua fundação, em 1997, explica no e-mail que após a entidade publicar as contas de políticos na Suíça, recebeu solicitações de colegas para tentar obter os dados.

"Jornalistas de toda parte do Brasil dizem que o site UOL, ao contrário do que vem ocorrendo em outros países, só tem divulgado o nome de políticos de esquerda, livrando os chamados políticos neoliberais apoiados pela grande mídia. Me comprometi, como membro do ICIJ, a tentar obter a lista", relata.

Ainda no mesmo e-mail, o jornalista se compromete a divulgar aos colegas de imprensa apenas as chamadas "contas sujas" e não declaradas ao Fisco. "O Brasil vive uma crise política sem precedentes, que poderá acabar para sempre com todo o esquema de corrupção que perdura há mais 50 anos. Mas, para que isso ocorra, a imprensa não deve colaborar com a manipulação de dados", acrescenta.

Em resposta, a vice-diretora questionou a afirmação de que o Rodrigues estaria escondendo o nome de políticos neoliberais. "Você viu os dados para fazer tal acusação tão séria contra seu colega e co-integrante do ICIJ?", questiona. Ela pondera ainda que, por enquanto, o ICIJ não planeja abrir os dados para outras organizações de mídia do Brasil.

Amaury rebateu os questionamentos da vice-diretora e argumentou que não acusa Rodrigues, mas reitera a denúncia de que o portal estaria escondendo as contas, feita por "centenas de jornalistas" e confirmada por fontes da Polícia Federal.

Por fim, o jornalista renuncia sua participação na entidade. "Queria deixar bem claro que não estou escondendo nada de ninguém. Mas há uma maneira fácil de resolvermos o problema. Tire o meu nome da lista dos membros do ICIJ. A partir de hoje não faço mais parte da organização de jornalistas. Fico devendo a prova das contas dos ladrões neoliberais que vocês estão ajudando a esconder".

Desdobramentos

À IMPRENSA, Amaury confirmou sua saída do Consórcio. "É uma irresponsabilidade. Não há investigação. O caso foi divulgado no mundo todo", disse. Ele reiterou que ao ver seu nome como membro, blogueiros e jornalistas de diversos veículos passaram a procurá-lo para cobrar os dados. "Parecia que eu quem estava escondendo. Tentei pedir a lista para a vice-diretora. E ela foi grosseira".

Para ele, a investigação jornalística feita no Brasil é algo difícil de ser concretizado. "O jornalista não pode apenas pegar os dados, a coisa pronta, e publicar. Tem que ver o que tem por trás disso", acrescentou.

Resposta

Fernando Rodrigues explicou que em nenhum país onde são investigados os dados sobre as contas no HSBC houve publicação de listas com os nomes de todos os correntistas. "Seria um erro jornalístico divulgar sem apurar — e uma eventual injustiça irreparável com alguém que mantivesse uma conta legalmente no exterior, seguindo o que mandam as leis no Brasil", diz.

Segundo ele, diversos profissionais membros do ICIJ de vários países seguem com a apuração dos nomes que aparecem nas listagens. "Toda vez que ficar claro que há interesse público e jornalístico (com a comprovação de algo ilícito, por exemplo), os dados serão sempre publicados —como determinam as regras do bom jornalismo", conclui.
 
A política editorial sobre as apurações relacionadas ao caso também é detalhada em publicação da entidade e do UOL. O ICIJ ressalta que não vai liberar dados pessoais em massa, mas continuará a explorar dados completos com seus parceiros de mídia. 

O Gerente-Geral de Notícias do portal, Irineu Machado, reiterou os pontos de política editorial divulgados pelo blog do jornalista e pontuou que apenas Rodrigues integra o Consórcio. "Consideramos, conforme ressaltou o Fernando Rodrigues, que o bom jornalismo preza por apurar eventuais irregularidades antes de divulgá-las", acrescentou.  

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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