Ombudsman da “Folha” descarta omissão da imprensa sobre o caso HSBC

Redação Portal IMPRENSA | 02/03/2015 11:00
Em texto publicado no último domingo (1/3), a ombudsman da Folha de S.Paulo, Vera Guimarães Martins, comentou sobre o posicionamento do jornal no caso SwissLeaks, nome dado ao vazamento de contas secretas de 106 mil clientes da agência do HSBC em Genebra, na Suíça. A explicação ocorreu pós acusações de que a imprensa estaria omitindo informações para proteger políticos.  

Crédito:Divulgação
Vera Guimarães explica cobertura amena da "Folha" sobre o SwissLeaks

"Uma das partes mais difíceis da função de ombudsman é separar o joio do trigo nas mensagens que recebe. Por joio entendam-se as reclamações dos militantes a soldo. O trigo são os leitores reais, que, com ou sem preferência partidária, manifestam dúvidas genuínas, ainda que fomentadas por fábulas conspiratórias do primeiro grupo", diz Vera no início do texto.

Segundo Vera, as informações, tomadas por um funcionário da agência em 2008, passaram longe do público até fevereiro deste ano, quando o Consórcio Internacional de Repórteres Investigativos (ICIJ) fez a divulgação. No Brasil, os dados foram publicados pelo jornalista Fernando Rodrigues, em seu blog no UOL. Ele trabalhou na Folha por 27 anos e saiu o jornal em novembro do ano passado. 

A divulgação de 8.667 clientes brasileiros envolvidos, detentores de aproximadamente US$ 7 bilhões, foi seguida, segundo a ombudsman, por uma "cobertura modesta" na grande imprensa, "o que fez brotar aqui e ali acusações de que os jornais estariam omitindo-se para proteger políticos ou poderosos. A realidade é mais prosaica: os jornais levaram um furo na testa", pondera.

Para Vera, é ingênuo acreditar que é possível a qualquer publicação, por maior que seja, guardar em segredo "uma grande história". "O erro é tanto mais primitivo no caso do SwissLeaks, cujos dados foram compartilhados por mais de 140 profissionais espalhados por 45 países. Faça um exercício, leitor: pense por dois segundos na palavra jornalista (e no que ela significa) e multiplique por 140: o resultado será qualquer coisa incompatível com segredo", acrescenta.

A jornalista explica que, por diversos fatores, apenas Rodrigues obteve acesso aos dados. Segundo ela, o Consórcio é uma rede global de 185 jornalistas de mais de 65 países, que publica matérias investigativas sobre temas como crime internacional e corrupção, projetos que exigem restrição para garantir uso responsável dos dados. 

Vera cita ainda que o Brasil possuía seis membros - A Folha era representada por Rodrigues e o pelo especialista em dados Marcelo Soares. O carioca O Globo também contava com uma profissional, mas ela deixou a publicação em janeiro. Assim, aponta ela, quando o material ficou pronto, apenas um brasileiro tinha acesso.

De acordo com a ombudsman, como membro do mesmo grupo do UOL, a Folha poderia reproduzir as reportagens de Rodrigues, mas "preferiu relatar o que disseram as matérias nos casos em que julgou relevante", defende a Secretaria de Redação.

"À medida que os dados forem trabalhados, novas reportagens virão, e a discussão sobre a relevância pública será inevitável em cada uma. Mas o desafio dos jornais ainda precede esse dilema: antes é preciso que se virem para ter acesso ao material. O assunto pode render", acrescenta.

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