Jornalistas falam sobre o potencial do YouTube como meio de comunicação

Lucas Carvalho* | 19/05/2014 14:45
O YouTube, plataforma de vídeos do Google, existe desde 2005. Mas seu potencial como canal de comunicação de massa demorou para ser descoberto pelos profissionais da área no Brasil e no mundo. Hoje, os jornalistas também estão inseridos nessa plataforma, oferecendo conteúdo das mais variadas vertentes e trazendo o conhecimento e a prática profissional para um mundo virtual povoado por produtores amadores.
Crédito:Divulgação
Flávia Gasi é mestre em comunicação e semiótica e apresenta um canal de games
Canais sobre games, por exemplo, se multiplicam a cada dia na esfera digital, mas a grande maioria é feita por fãs de jogos eletrônicos e não por comunicadores especializados. A jornalista Flávia Gasi é uma exceção. Ao lado de Felipe Della Corte, ela inaugurou em abril o canal “Fatality”, que aborda o assunto com conteúdo informativo e análises de jogos.

“Eu e o Della já tínhamos passado por televisão. A gente queria fazer algo que fosse profissional, mas não necessariamente engessado. O YouTube é muito bacana, porque você pode ter uma relação direta com as pessoas que veem. Então, tudo pode ser montado, alterado, refeito, repensado, e acho que essa é a parte mais legal”, conta Flávia, que é mestre em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), além de ter um livro publicado sobre games e mitologia.

Outro jornalista que também faz sucesso na web com o conhecimento adquirido nas redações é Renato Bellote, apresentador do canal “Garagem do Bellote”, onde faz a análise de carros clássicos e modernos para quase 70 mil inscritos. Antes do conteúdo em vídeo, ele avaliava os automóveis em imagens e texto, até descobrir o potencial do YouTube.

“Comecei a trabalhar no segmento em 2007 e pensei que uma forma de preservar a memória dos carros e, ao mesmo tempo fazer algo diferente, seria o formato de vídeo. No YouTube temos muitos canais automotivos e alguns deles com bastante produção. O que acho mais fantástico da internet é que não dependemos da grande mídia para gerar notícia e divulgar o trabalho”, conta.

Se automobilismo e jogos eletrônicos são temas de grande concorrência na internet, ainda há espaço para inovações. Francine Lima é formada pela USP desde 1997 e fez carreira nas redações paulistanas escrevendo sobre saúde e hábitos alimentares. Em 2013, ela criou o canal “Do campo à mesa”, apresentando informações e discussões sobre a indústria alimentícia.
Crédito:Divulgação
Renato Bellote possui um dos canais mais acessados do YouTube sobre automobilismo
“Eu já escrevia sobre o tema fazia tempo. Trabalhei na revista Época, onde fiz algumas matérias e tive uma coluna na Época Online. Vídeo eu não tinha tentado ainda. Desconfiava que pudesse dar certo porque hoje as pessoas consomem muito mais informação em audiovisual do que em texto. Eu achava que assim eu poderia atrair mais gente e deu certo”, conta a jornalista.

O cenário atual

Conteúdo jornalístico, porém, ainda não faz tanto sucesso na web quanto temas segmentados. Segundo uma pesquisa do site de análise de mídia SocialBlade, dentre os dez canais mais acessados no YouTube, quatro são de humor, três são os chamados “vlogs” (diários pessoais em vídeo), dois são sobre games e um é destinado ao público infantil. O veículo de imprensa mais popular da rede é a agência Associated Press, que ocupa o 76º lugar no ranking geral de canais.

Ainda assim, o “Garagem do Bellote” possui mais de 10 milhões de visualizações; o “Fatality” em menos de dois meses já caminha para os 100 mil views; ao passo que o “Do campo à mesa” já publicou pouco mais de 20 vídeos, que juntos foram vistos mais de um milhão de vezes. 

Todos esses portais são comandados por jornalistas formados e com experiência em outras mídias, que encontraram no YouTube uma maneira de produzir o tipo de conteúdo que eles gostam e que, por algum motivo, não tinham liberdade na imprensa tradicional.
Crédito:João Bertholini
Francine Lima deixou as redações, mas continua falando sobre a indústria dos alimentos
“O que eu enxergo, de uma forma mais ‘macro’, é que o mercado foi sendo enxugado cada vez mais. Tem cada vez menos pessoas nas redações e um monte de desempregado talentoso por aí… E eu não queria voltar para uma redação. Se hoje alguém me chamasse para uma revista especializada em saúde, eu não iria. O que eu quero é fazer uma coisa que ninguém tá fazendo nas redações”, comenta Francine.

Para Flávia, "o YouTube é democrático". Produtores de conteúdo amador têm tanto espaço na rede quanto jornalistas, mas cabe aos profissionais de comunicação saber usar sua expertise a seu favor. “O que eu achava que talvez pudéssemos fazer de diferente era trazer um conteúdo que fomos maturando ao longo de muito tempo com o jornalismo tradicional em revista e TV. É claro que tudo isso também é uma aposta. Ninguém sabe ainda o que funciona no YouTube. É muito novo, né? Mas, para nós, é uma aposta divertida”, diz a jornalista.

Tendência para o futuro

“Eu acredito realmente que o YouTube é a nova TV”, continua a Flávia. Para ela, a popularização das mídias digitais não significa, necessariamente, o fim das mídias tradicionais, mas sim que a forma como elas funcionam deve mudar.

“Agora nós temos uma plataforma aberta que não suporta só uma programação da meia-noite a meia-noite. Isso cria possibilidades que antes só seriam possíveis em TVs comunitárias ou em canais fechados e não na TV aberta. Isso que é o bacana da internet”, acrescenta.

Bellote segue o mesmo raciocínio e consegue ver até como veículos de imprensa podem encontrar na internet um novo ponto de partida e não o fim de um “reinado”. “Acredito que o jornalismo sério tem muito espaço na realidade virtual e sua tendência é se solidificar nesse meio também. Acredito que em breve teremos até jornais apresentados dessa forma na internet. A imprensa é bastante dinâmica e vem se moldando às novas tendências há décadas. Essa é mais uma delas”, finaliza.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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