"Todo jornalista pode e deve aprender a trabalhar com dados", afirmam profissionais

Jéssica Oliveira | 21/07/2014 11:15

Toda e qualquer pessoa alfabetizada, tanto gramaticalmente quanto digitalmente, pode aprender a trabalhar com dados. Todo jornalista não só pode, como deve fazer isso. É o que afirmam Marcelo Träsel, professor de jornalismo digital da Famecos/PUCRS e conselheiro-fiscal da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji); Tiago Mali, redator-chefe da revista Galileu e coordenador da edição em português do manual de jornalismo de dados; e Sérgio Ludtke, coordenador do Master em Jornalismo Digital e do Programa de Jornalismo de Dados e Visualização do IICS em São Paulo. Segundo eles, as técnicas de Jornalismo Guiado por Dados (JGD) serão habilidades cada vez mais requisitadas aos profissionais de imprensa.

“Se isso ainda não faz parte do descritivo da função em veículos, muito em breve irá constar. Estamos numa era digital, de fragmentação e reagrupamento da informação, em que qualquer unidade da informação pode ser tratada como um dado”, afirma Ludtke.
Crédito:Arquivo pessoal
Mali iniciou no JGD quando trabalhava num site da ONU, em que lidava com indicadores dos países e precisava entendê-los

Segundo Mali, que coordenou da edição em português do manual "Data Journalism Handbook", estamos vendo um fluxo muito grande de dados públicos acessíveis à população, tendência que chegou ao Brasil com a Lei de Acesso à Informação. "Há uma quantidade grande de dados abertos e isso é fonte muito rica para jornalistas. Entender os dados e interpretá-los faz diferença na hora para pautas melhores. Quem daqui para frente não tiver vai ficar uns passos atrás”, acrescenta.

Träsel, que pesquisa a assimilação da cultura de dados nas redações brasileiras e ensina alguns princípios e técnicas para os seus alunos, lembra que a ferramenta pode compensar a falta de recursos para reportagens de fôlego e investigativas. "Essas técnicas permitem fazer investigações sem sair da redação, usando aplicativos gratuitos ou baratos. O trabalho também fica mais eficiente. Menos jornalistas são capazes de apurar mais notícias", exemplifica.

Apesar disso, ele ressalta que o JGD exige do repórter muito mais conhecimento e comprometimento do que "colher opiniões por telefone e botar as aspas num texto". "Se for realizado de maneira incompetente, o JGD pode ser muito mais prejudicial para a sociedade do que uma notícia que reproduza um release ou cite uma autoridade, pois o leitor tende a conferir mais credibilidade a uma informação embasada em dados", diz.

Por onde começo?
O ideal é iniciar o aprendizado ainda na faculdade, afirmam os profissionais que defendem o ensino das técnicas nos cursos superiores. No entanto, a ausência de disciplinas dedicadas ao JGD não impede o aprendizado por esforço próprio e fora do ambiente acadêmico. 
Crédito:Arquivo pessoal
Vários fatores levaram Träsel a se interessar pelo JGD, entre eles aplicativos e reportagens usando georreferenciamento e análise estatística, além da Lei de Acesso.

Träsel cita cursos introdutórios, “gratuitos ou muito baratos”, oferecidos pela Abraji, pelo Knight Center, pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) e pelo European Journalism Centre (EJC); e aconselha também a acompanhar o trabalho do Estadão Dados, do EcoLab, do FiveThirtyEight, Upshot e outras publicações voltadas para o tema.

Além disso, ele sugere aproveitar o conhecimento disponível na web e escolher uma pauta interessante para si mesmo. “Ter um projeto próprio ajuda na motivação para aprender algumas técnicas que, se não são inacessíveis, podem ser difíceis. O trabalho com dados é árduo, às vezes monótono, então é melhor que seja em prol de um projeto querido”. 

"Também há uma série de tutoriais e recentemente temos mais cursos, alguns ministrados pela Escola de Dados, e online, os chamados MOOCs, que têm sempre versões em inglês e cada vez mais em português”, elenca Mali. O jornalista diz ainda que não há restrição de idade ou experiência para o primeiro passo, tanto que nos cursos é comum ver profissionais de diferentes gerações. 

Ludtke parte do princípio que as noções de "extração, análise e visualização de dados" estão no repertório básico de qualquer jornalista. Sendo assim, ele aconselha conhecer as ferramentas de visualização dos dados. "É muito difícil para o jornalista interpretar uma planilha, mas se ele puder usar ferramentas de visualização, gráficos e mapas, um mundo novo se abre e a excitação com a descoberta vai levá-lo adiante", diz. Afinal, esse profissional será "um repórter que faz entrevistas como qualquer outro, só que ele sabe perguntar também aos números".

Por que não comecei ainda?
Se for possível ordenar os motivos que separam o jornalista de uma relação mais estreita com o mundo dos dados, provavelmente seja essa a sequência: falta de tempo e de interesse, somada à resistência de testar algo novo. Obstáculos contornáveis, segundo os profissionais.
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Ludtke se interessou por JGD quando trabalhou com Alberto Cairo na Época e percebeu a importância do fundamento

"[A resistência inicial] é fácil de quebrar na medida que os profissionais recebem formação e visualizam as oportunidades impressionantes que se abrem com o domínio dessas técnicas", diz Ludtke.

Desde 2013, ele realiza com o IICS versões do programa de Jornalismo de Dados e Visualização em redações. "Tenho trabalho com redações muito preocupadas com isso e cito como exemplo a Rede Gazeta de Vitória e Infoglobo", conta.

Para o professor Träsel, a rotina de correria dentro das redações é o maior empecilho. "É difícil o jornalista conseguir separar um tempo para estudar. E JGD exige muito estudo", diz.

Outro problema que aponta são os setores de tecnologia da informação das empresas, que por segurança barram a instalação do software open source, ou desconhecido, necessários para o trabalho com dados. "Em vez de a TI prestar serviço à redação, acaba muitas vezes mandando na forma como os jornalistas vão usar a informática. Mas a culpa também é dos jornalistas, que não fazem esforço para entender um pouco mais de informática e, por isso, não sabem argumentar contra essas restrições", critica. 

Redator-chefe da Galileu, Mali destaca que é preciso basicamente interesse do jornalista em aprender e melhorar, já que trabalhar com dados independe da plataforma ou área em que ele atua. "É uma ferramenta para você fazer melhor o que você já faz. Posso pensar em diversas matérias: em segurança pública, é possível baixar os dados de taxas de homicídio, de assalto; em economia, ver os indicadores do PIB; em política, analisar os gastos que não condizem com o bom uso do dinheiro público... Não depende do assunto, mas de saber aplicar as técnicas", afirma.

Mali analisa que o Brasil ainda tem uma produção aquém de outros países em termos de jornalismo de dados, com exceção de algumas equipes em jornais. "Tem muita gente de fora de jornalismo, de ONGs, por exemplo, fazendo um trabalho muito relevante com o uso de dados. Ainda falta uma cultura dentro das redações", indica.

Segundo Ludtke, a reportagem baseada em dados é fundamental pois consegue chegar num nível de informação "difícil para o cidadão comum". Essa necessidade ficou comprovada com a cobertura da Copa do Mundo e o mesmo deve ocorrer no período das eleições. "O jornalismo precisa se diferenciar do simples reportar fatos", defende.

Além das dicas citadas por Träsel, Ludtke e Mali, interessados em conhecer mais sobre o JGD podem acessar uma lista de recursos e casos voltados para a América Latina, que o jornalista e programador Philip Smith fez para um workshop que ele dirigiu na Venezuela, em fevereiro.


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