Casal de jornalistas "larga tudo" para investigar o que é a felicidade mundo afora

Lucas Carvalho* | 22/07/2014 15:30

O que é a felicidade? Incontáveis filósofos, artistas e pensadores dos mais variados meios têm feito a mesma pergunta há séculos. O casal Fred di Giacomo e Karin Hueck também resolveu buscar uma resposta, só que por meio de uma investigação jornalística. Assim nasceu o Glück Project ("Glück", em alemão, significa "felicidade").

Crédito:Arquivo pessoal
Fred di Giacomo e Karin Hueck pesquisam o que é felicidade em todo o mundo

No início de 2014, os dois jornalistas deixaram seus empregos na Editora Abril – Karin era editora da revista Superinteressante e Fred gestor de projetos digitais e multimídia – para embarcar no projeto. Se mudaram para Berlim, na Alemanha, e começaram a desenvolver o site.

O casal confessa que a rotina de um emprego fixo e de uma vida profissional “segura” foi o que deu origem ao desejo de mudar alguma coisa. Karin, que tem família na Alemanha, sugeriu o destino e foi acompanhada por seu marido que, assim como ela, também tinha interesse em buscar novos e desafiadores horizontes.

“A vida que a gente estava levando no Brasil estava muito ligada ao consumo, gastar dinheiro, perder tempo no trânsito e depois sair para comer, gastando para ir ao bar... A gente pensava ‘não é possível que seja só isso’. Tem tantas questões da alma que a gente não está respondendo”, conta Karin.

Eles então perceberam que pensar na vida e no que é felicidade não era um hábito só dos dois, mas de toda uma geração. “Muitos dos nossos amigos estavam largando bons empregos, muita gente querendo dar uma volta ao mundo e a gente queria entender um pouco o que era isso”, explica Fred.

"E também foi para marcar uma fase na vida. Em vez de simplesmente sair para morar fora, transformar isso em um projeto. Ter uma unidade, um grande tema que circulasse em todos os assuntos que a gente escrevesse. Resolvemos juntar o útil ao agradável e nasceu o Glück", acrescenta Karin.

O objetivo do site é propor uma investigação jornalística, apurando informações e apresentando entrevistas e pesquisas minuciosas. Na visão dos autores, apesar da importância do tema, ela ainda sofre com certo preconceito nas grandes redações. Nesse ponto, o Glück vem para suprir uma demanda do público que também quer saber o que é a felicidade.

“Não é frescura você querer ser feliz. Não é uma coisa de hippie, de filósofo, essas coisas. Todo mundo quer ser feliz. Por que não procurar isso de um jeito sistemático?”, questiona Karin. 

Crédito:Reprodução
Jornalistas deixaram a Editora Abril para pesquisar o que é felicidade

Profissionalmente

“É uma grande reportagem de 365 dias”, avalia Fred sobre a iniciativa. Para o jornalista, o principal valor do projeto é a valorização de um jornalismo “mais lento”, contrariando a tendência na web. “A gente não quer ser mais uma voz do ódio na internet, o furo pelo furo, qualquer coisa pela polêmica ou pela audiência. É um jornalismo mais reflexivo, com textos maiores etc.”

Os autores usam muito a primeira pessoa e, em meio à informação imparcial, contam pedaços de sua história aos leitores. Isso, segundo o casal, dá um toque de jornalismo literário ao conteúdo. “É bem libertador não ter um manual de redação fixo, como nas grandes redações. A gente escreve bem mais com as vísceras”, afirma Karin.

Para o casal, o projeto tem sido satisfatório não apenas por responder a uma urgência existencial deles, como também acrescenta profissionalmente. “Às vezes, estar em um grande site ou uma grande revista dá menos vitrine do que fazer alguma coisa em que você acredita”, ressalta Fred, que atua como freelancer na Alemanha entre uma postagem e outra.

O projeto se mantém no ar a partir de planos de assinaturas (que variam entre R$ 5 e R$ 25 mensais), além de parcerias com editoras em indicações de livros – cujas vendas pelo site do Glück reservam uma pequena porcentagem do lucro ao casal.

Largando tudo

Mesmo acreditando no projeto e querendo sair da rotina, largar um cargo seguro e estável em um grande grupo de comunicação não foi uma decisão tomada da noite para o dia. Até hoje, inclusive, os dois ainda param e avaliam as consequências de uma iniciativa tão radical. Apesar disso, não há sombra de arrependimento no ar.

“Às vezes, paramos para pensar e vemos que o salário não cai mais todo mês... Dá aquela ansiedade de 'como vai ser no futuro?', enfim... É uma coisa que não é para todo mundo, e se você for ansioso pode ser um tiro no pé. Mas tem pontos muito bons que, no saldo total, estão compensando”, diz Karin.

Ainda que a atitude pareça movida por puro instinto, Karin e Fred levaram em conta diversos aspectos profissionais antes de mergulhar no projeto. “O jornalismo está numa fase de crise, não é? Se a gente ficasse na Abril esse ano, quem garante que, em dois anos, a empresa não teria fechado a revista da Karin, o meu site, e a gente teria sido demitido?”, diz Fred, seguido por Karin: “A gente tem que ser criativo na hora de aumentar as nossas opções”.

O jornalismo traz felicidade?

“Existem algumas situações no jornalismo em que as pessoas estão hoje que não trazem felicidade. Ficar trabalhando 14 horas por dia, com plantão, sem ter folga, definitivamente é uma delas", ressalva Fred.

Para os dois, porém, aqueles que mantêm vivo o sonho de trabalhar com o que gosta não vão se decepcionar. Desde que não criem expectativas ilusórias. “Tem uma frase do [cantor e compositor brasileiro] Wander Wildner que diz: 'a vida é muito simples, é só você encontrar alguma coisa que você goste de fazer'. Se você gosta de ser jornalista, se tem tesão pela coisa, o jornalismo pode te trazer felicidade sim”, conclui Fred.


SERVIÇO:
Oficina IMPRENSA Infografia, com Fred di Giacomo e Karin Hueck
Data:
20/9, das 9h às 13h
Local: Av Francisco Matarazzo, 229 - 10º andar - Barra Funda, São Paulo 
Inscrições no site

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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