Jornalistas da geração boomer destacam necessidade de um modelo viável no digital

Jéssica Oliveira | 26/08/2014 15:15

IMPRENSA perguntou a jornalistas nascidos em diferentes gerações como era o jornalismo quando começaram, como avaliam a profissão hoje e como a imaginam futuramente. Além disso, propusemos uma brincadeira: se existisse a máquina do tempo, quais conselhos o profissional do passado e do presente trocariam.

Os jornalistas ouvidos são Zé Paulo de Andrade e Clóvis Rossi, da "Boomer" (antes de 1946); Cora Ronai e Marcelo Rezende, da "Baby Boomer" (de 1946 a 1964); Mauri Konig e Daniel Castro, da "X" (de 1965 a 1978); Bruno Ferrari e Carolina Ercolin, da "Y" (de 1980 a 1990); Bruno Rodrigues e Gustavo Torniero, da "Z" de 1990 a 1999). 

Zé Paulo de Andrade: "Não sou saudosista"
Crédito:Arquivo pessoal
Para Zé Paulo de Andrade, bons profissionais se encontram em todas as gerações.
Experiência é o que não falta para Zé Paulo de Andrade, nascido em 1942. Aos 72 anos, ele soma 51 de carreira – cinco décadas apenas na Bandeirantes, sendo 41 à frente do programa “Pulo do Gato”, das 5h30 às 7h, e 37 no "Jornal Gente", das 8h às 10h, com Salomão Esper e Rafael Colombo.

Andrade começou a carreira como radioescuta esportivo no plantão dominical da Rádio América, da Bandeirantes, em 1961. “Era muito ligado em futebol e ainda vivia a emoção do primeiro título mundial, conquistado na Suécia, três anos antes. Minha expectativa era conseguir o emprego e fazer o que gostava, sem outras considerações”, lembra.


O pé no jornalismo veio quando se aproximou do “departamento de reportagem” para fazer os boletins informativos, que iam ao ar de hora em hora. “Não havia teletipo, telex, facilidade telefônica ou outra forma de apuração. Comecei a gostar e durante muito tempo conciliei esporte e jornalismo”.

Andrade lembra que na ânsia de fazer de tudo, até para compor um salário maior, demorou para se dedicar integralmente ao jornalismo geral. "Trabalhei nos campos esportivo e artístico, na TV fui até narrador de "telecatch", tudo isso misturado. É importante que o jovem defina o que o seduz e siga em frente", defende. 

Ao comparar o passado e o presente da profissão, ele diz que as diferenças são pontuais, como o aumento das fontes de pesquisa e facilidade de acesso a elas. "Dependíamos quase que exclusivamente dos jornais, bibliotecas públicas e escolas para aprofundar algum tema", recorda.
 
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Tanto é que, para ele, o que mudou não foi o jornalista ou a profissão em si, mas o público que faz uma "patrulha positiva". "Interage pelos meios a seu alcance, concorda, diverge, critica, muitas vezes até ofende, e, como consequência, baliza a atuação do profissional, apurando sua autocrítica”.

De olho no futuro, ele acredita que a globalização vai exigir basicamente o mesmo que no presente: instrução, conhecimento, fluência em idiomas, aprimoramento constante, dedicação e perseverança. Entre os desejos para a profissão estão "respeito, reconhecimento e remuneração condigna". 

Clóvis Rossi: Eu nunca faço previsões
Crédito:Arquivo pessoal
Rossi começou a carreira quando a profissão tinha cheiro de "boemia"
Nascido em 1943, Clóvis Rossi iniciou no jornalismo aos 20 anos, em 1963, época em que a profissão ainda "era semiamadora". "Com aquele cheiro de boemia”, diz. Nos 51 anos de carreira, ele já atuou como repórter, correspondente internacional e editor. Tem passagens pelos veículos O Estado de S. PauloJornal do BrasilIstoÉ e Folha de S.Paulo, onde está desde 1980, atualmente como repórter especial e membro do conselho editorial da publicação.

Experiente, Rossi já fez reportagens em todos os continentes. Cobriu, por exemplo, a transição do autoritarismo para a democracia em diversos países, como Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Portugal, Espanha, África do Sul e Brasil. 
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"[Quando comecei] Não tinha sonhos profissionais, até porque ainda estava no segundo ano da faculdade e só dava para sonhar em manter o emprego", recorda.

Ao avaliar a profissão no presente, ele compartilha a visão de que a crise do jornalismo está associada à dificuldade em ganhar dinheiro na internet. "Ninguém, no mudo todo, foi capaz de pôr de pé um modelo em que se consiga ganhar dinheiro com jornalismo on-line. [...] Dinheiro para manter redações numerosas e competentes para produzir bom jornalismo", explica. 

Enquanto o modelo não aparece, Rossi prefere não imaginar o futuro. “Eu nunca faço previsões”. E diz que o exercício da máquina do tempo é impossível porque 1963 e 2014 "são anos de dois planetas completamente diferentes”. Entretanto, planetas à parte, ele acredita que o jornalismo depende da boa execução dos verbos ver, ler, ouvir e contar. "Vale para 1963 e vale para 2014”.


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