Jornalistas da geração "baby boomer" comparam as mudanças na profissão

Jéssica Oliveira | 26/08/2014 11:45

IMPRENSA perguntou a jornalistas nascidos em diferentes gerações como era o jornalismo quando começaram, como avaliam a profissão hoje e como a imaginam futuramente. Além disso, propusemos uma brincadeira: se existisse a máquina do tempo, quais conselhos o profissional do passado e do presente trocariam.

Os jornalistas ouvidos são Zé Paulo de Andrade e Clóvis Rossi, da "Boomer" (antes de 1946); Cora Ronai e Marcelo Rezende, da "Baby Boomer" (de 1946 a 1964); Mauri Konig e Daniel Castro, da "X" (de 1965 a 1978); Bruno Ferrari e Carolina Ercolin, da "Y" (de 1980 a 1990); Bruno Rodrigues e Gustavo Torniero, da "Z" de 1990 a 1999). 

Marcelo Rezende: "Eu diria de um para o outro; e do outro para o um: Para de dar palpite"
Crédito:Edu Moraes/Record
Rezende começou a carreira no Jornal dos Sports, aos 20 anos
Nascido em 1953, o dono do bordão "corta pra 18" no "Cidade Alerta", da Record, lembra que no começo de sua carreira o olhar jornalístico passava por uma transição. O Jornal da Tarde e o Jornal do Brasil davam mais peso às grandes reportagens; pouco antes tinha nascido a revista Realidade, “berço do saber contar uma história; e o jornal O Globo apresentava notícias curtas e de leitura rápida, “como se fosse a internet de hoje”. Era 1973 e Marcelo Rezende tinha 20 anos.

“Eu fazia parte da editoria de esportes [do Jornal dos Sports]. Primeiro, repórter de esportes amadores; aos 21 anos fui promovido a copydesk (o redator da época, aquele que dava o texto final); aos 23 pedi para voltar a ser repórter e fui cobrir futebol”, recorda. Aos vinte e poucos anos, ele não esperava nada da profissão. “Sempre - e desde sempre - uso o que Paulinho da Viola consagrou: "Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar".
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Afastado há mais de duas décadas das redações de jornais e revistas, o apresentador já soma 27 anos de dedicação à televisão e diz que o jornalismo na TV é uma coisa “extremamente” complicada, pois são muitas pessoas envolvidas numa única reportagem de um, dois minutos.

“O telejornalismo está morto. Só esqueceu de ser enterrado. [Porque] Para assistir a um minuto de reportagem, a pessoa lê na internet”, diz. Apesar das críticas ao formato tradicional, ele não concorda com a ideia de que a internet vai acabar com essa ou qualquer outra mídia, desde que o jornalismo – em todas as plataformas – busque o que falta atualmente: “histórias bem contadas, um olhar mais profundo e humano em cada notícia e denúncias bem fundamentadas”.

“O futuro a Deus pertence, mas como consumidor eu gostaria de ver e ler notícias mais bem contadas, aprofundadas. Lembrei de uma frase do Rubem Braga: "Repórter é olho". É esse olhar que pode nos salvar do óbvio”, defende. 

Cora Ronai: “Gostei muito de ser jornalista naquela época, gosto muito hoje. A gente não pode ficar mergulhado no passado. O meu tempo é agora”
Crédito:Reprodução
Cora viveu uma época "pitoresca" e "de filme" na profissão em que as redações pareciam chaminés de tanto cigarro
Quando ela pisou no jornalismo, os tempos eram outros: uma maluquice, uma coisa muito solta e divertida. “Tinha uma liberdade que hoje não dá para imaginar”, compara Cora Rónai, colunista do jornal O Globo. Nascida em 1953, a jornalista tinha apenas 17 anos quando começou a fotografar no Correio Braziliense. Em pouco tempo assumiu responsabilidades de “gente grande”

“Com 20 anos eu estava editando o segundo caderno. Tínhamos a liberdade, por exemplo, de um dia publicar o jornal todo na horizontal, fazer uma edição temática sobre mar (imprimimos em azul) ou uma nostálgica em sépia. Teve até uma página que escrevemos toda a mão”, lembra aos risos.

Mesmo com a liberdade dentro da redação, era a época da ditadura militar e os jornalistas viviam sob a sombra da censura. Qualquer mínima coisa poderia ter um desdobramento sério. Cora chegou a prestar depoimento por cobrir a retrospectiva do cinema russo, atividade “ligada ao comunismo”, segundo o regime. “Pegavam no pé por coisas imbecis. Era muito ruim ver as coisas e não poder falar, perdia um pouco a objetividade do material da época. [Por isso] O grande divisor de águas na minha vida foi quando acabou a ditadura e a gente pôde trabalhar normalmente”.
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Apesar dos pesares, Cora viveu parte da época mais “pitoresca” e “de filme” da profissão, com detalhes que sempre rendem boas risadas, como sua relação com as máquinas de escrever.  "Elas tinham uma fita. Quando estava gasta, tinha que trocar aquela porcaria. E não tinha como fazer isso sem deixar a mão preta. Eu era muito caprichosa, trocava sempre. Mas aí o pessoal vinha e pegava a minha que já estava trocada”, conta rindo.

Além desses causos, ela recorda que jornalistas que cobriam polícia andavam armados; fumar na redação era permitido (“dava para cortar o cheiro de cigarro com uma faca”); beber “era lei” (“redação era reduto de boemia”); e os horários eram indefinidos. “Quando comecei o caderno de Informática d’O Globo, em 1991, fechávamos às 3h, 4h. Éramos a turma de corujas. Às vezes, vinha o pessoal da limpeza, dava uma depressão porque só tinha a gente... Hoje é uma profissão mais normal, com rotinas mais parecidas com a das outras profissões”.

Aos 61 anos, o balanço da jornalista é positivo: gostou de ser jornalista naquela época tanto quanto gosta agora e, por isso, não é adepta do famoso “no meu tempo”. “O meu tempo é agora. Sinto saudade do barulho da redação, mas não sinto saudade das máquinas de escrever”, resume.

Confira amanhã os relatos dos jornalistas Mauri König e Daniel Castro, da geração "X", nascida nos anos de 1965 a 1978.

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