Ariel Palacios diz que o aumento do interesse pela Argentina é evidente na mídia brasileira

Por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA | 04/08/2008 17:24

Desde 1995 na Argentina, o jornalista Ariel Palacios é o correspondente do Brasil mais antigo no país. Já trabalhou nas rádios CBN e Eldorado, na GloboNews, e está desde o começo no jornal O Estado de S. Paulo. Ele conta que assuntos não faltam no país. "A política do país é muito peculiar do ponto de vista jornalístico. Nós aqui somos como roteiristas de filme; há atores fantásticos, roteiros surrealistas", diz.

Ele comenta o aumento do interesse do leitor brasileiro por assuntos relacionados à Argentina, observado principalmente pela demanda de correspondentes no país: "esta é a primeira vez que existe por um longo período jornalistas brasileiros de forma permanente aqui, e isso mostra que o hard news sobre a Argentina virou uma coisa cotidiana na mídia brasileira".

Para Palacios, também colunista da revista IMPRENSA, a cobertura política de lá é interessante pelas peculiaridades das autoridades do país; como um resquício da ditadura militar, os funcionários do governo preferem dar informações em off em 80% dos casos, mesmo que elas sejam corriqueiras. O jornalista acredita que a classe política ficou assustada em informar em on.

Redação Portal IMPRENSA - Como você se tornou correspondente internacional?
Ariel Palacios -
Nasci em Buenos Aires, na Argentina, e com três anos vim para o Brasil. Meu pai era engenheiro, e estávamos na época do "milagre econômico brasileiro", com o país em expansão. Ele resolveu vir para cá e morei em São Paulo, Minas Gerais, e com dez anos fui para Londrina (PR), onde fiquei até os 23. Quando era criança, queria ser arqueólogo, mas meus pais me convenceram que não era uma boa profissão para o Brasil, porque é um país jovem, sem muitos sítios arqueológicos. Anos depois quis ser historiador, e mais uma vez meus pais me convenceram que aqui não tinha campo para isso. Decidi ser diplomata, me preparei durante a adolescência, entrei no curso de Direito, e lá me falaram que eu não podia ser diplomata, pois só brasileiros natos têm permissão para isso. Só poderia se seus pais já fossem naturalizados na época que eu nasci. Então eu pensei: o que eu faço da vida? O que pode ser um pouco parecido? Em qual profissão eu também poderei viajar e conhecer vários lugares? E decidi fazer Jornalismo. Durante o curso esqueci da idéia de ser correspondente internacional e pensei em seguir carreira acadêmica. Fiz mestrado na ECA (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), larguei, fui para Curitiba, onde meus pais moravam, fui fazer um curso de jornalismo em Espanha, no El País, fiz freelancer, voltei para Curitiba, pensei em ir para são Paulo procurar trabalho. Era uma época em que estava experimentando os caminhos e possibilidades. Comecei a namorar com minha professora de italiano, e um dia fomos passear em Buenos Aires e encontrei um correspondente do El País na Argentina que me convidou para ser correspondente. E eu pensei: por que não? Fiquei como frila para o Estadão até que a situação se regularizou. Na metade de 1996 comecei a trabalhar na rádio CBN, e logo depois na GloboNews. Depois deixei a CBN e fui para a rádio Eldorado, que três anos depois suspendeu os correspondentes. Foi uma série de acasos e coincidências, nunca imaginei que ia parar aqui.

Portal IMPRENSA - E como é ser correspondente na Argentina?
Palacios -
Eu gosto bastante, trabalho tem de sobra. Na Argentina sempre acontece alguma coisa, a política do país é muito peculiar do ponto de vista jornalístico. Nós aqui somos como roteiristas de filme; há atores fantásticos, roteiros surrealistas. García Márquez (o escritor colombiano Gabriel García Márquez) dizia que se não tivesse nascido na Colômbia não escreveria os livros que escreveu. Aqui é assim, material tem de sobra, sempre gera notícias para o Brasil. Nesse período já vi de tudo. Governos mais acessíveis ou fechados para a imprensa, como esse, da Cristina Kirschner (presidente do país). 

Portal IMPRENSA - O Brasil se interessa pelas notícias da Argentina?
Palacios -
Eu vi ao longo desses anos o aumento da demanda das informações porque editores pediam mais informações sobre a Argentina e sobre uma variedade maior de assuntos, não só economia ou Mercosul. Há vínculos mais intensos. A maioria dos investimentos comerciais ou políticos fora do brasil são na Argentina. Em 1995 éramos três correspondentes, hoje são mais de dez. Quando vim para cá, a Globo não estava, o jornal Valor Econômico não existia, não estavam aqui o SBT, a Band. O interesse é evidente, todos os grandes meios de comunicação estão aqui. Fora Washington, nos Estados Unidos, talvez seja a segunda maior concentração de correspondentes no mundo numa única cidade. Eu venho percebendo leitores brasileiros se interessando mais pela América Latina. Esta é a primeira vez que existe por um longo período jornalistas brasileiros de forma permanente aqui, e isso mostra que o hard news sobre a Argentina virou uma coisa cotidiana na mídia brasileira.

Portal IMPRENSA - O jornalismo feito na Argentina é muito diferente do feito no Brasil?
Palacios -
De forma geral são muito diferentes. A mídia brasileira é mais rigorosa na apuração de dados, especialmente quando são números. Aqui isso é muito fraco. Trabalhar aqui não é fácil, é preciso conquistar as fontes. Dados oficiais não estão necessariamente na internet, o acesso a informação oficial não é fácil. Por exemplo, no jornalismo econômico, há três, quatro páginas sobre um assunto, vamos supor que seja um novo imposto de arrecadação. Na manchete, o valor é 1,554. No pé da página, aparece 1,499, e na segunda página tem um gráfico mostrando que o número é 1,9. Outra coisa interessante, que não é um defeito do jornalismo, mas na Argentina, desde a ditadura militar, a classe política ficou assustada em informar em on. São recorrentes manchetes com quatro fontes em off. E o negócio é se resignar, porque certas informações, por mais que pareçam corriqueiras, são são em off. É uma peculiaridade da classe política do país, não pode violar o off. Aqui, em 80% dos casos funcionários do governo preferem não dar as caras. Muitas vezes certas informações não vem do governo, mas de analistas e consultoras econômicas que recebem em off e passam em on. Outra coisa interessante é a capacidade de análise de futuro a curto e médio prazo. Eles analisam e em geral costumam acertar. Como é um país que passou por muitas crises, o pessoal tem mais experiência em fazer estimativas sobre as novas crises. Essa experiência em crises facilita fazer estimativas sobre o futuro econômico e político. Nesse aspecto é fantástico.