"A tecnologia nunca tem culpa de nada", diz Simonetta Persichetti

Mariana Rennhard* | 16/07/2012 13:15
Simonetta Persichetti nasceu em Roma, na Itália, mas se mudou para o Brasil ainda muito nova. Bem cedo decidiu ser jornalista. “Na verdade, eu sempre quis ser jornalista. Eu decidi aos 13 anos de idade”. E, assim como acontece com muitos profissionais dessa área, ela se aproximou da fotografia e, principalmente, do fotojornalismo. Mas, ao mesmo tempo, seguiu um rumo diferente. Optou pelo lado teórico da fotografia. 

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Embora já tenha trabalhado como fotógrafa profissional, Simonetta descobriu que gostava mesmo era de falar sobre foto. E ela explica a decisão de seguir por um caminho mais teórico. “Eu não optei por tirar foto. Porque, desde o início, a minha opção foi texto. Já fiz foto profissional, fiz estágio como fotógrafa em jornalismo, mas não é isso que me atrai”. Para Simonetta, a parte mais atraente dessa área é a forma como as imagens comunicam. 

Atualmente, Simonetta Persichetti é professora da graduação do curso de jornalismo e da pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, de cursos de fotografia do MAM e da especialização da UEL de Campinas. Ela também escreve textos como colaboradora para O Estado de S. Paulo e para a revista Brasileiros

Crédito:Paulo Vilar

Por que você escolheu ser jornalista e, depois, professora?
Na verdade, jornalista eu sempre quis ser. Eu decidi aos 13 anos de idade. Troquei às vezes de ideia. Teve uma época que eu quis fazer psiquiatria, mas achei que era melhor ser louca do que cuidar dos loucos e fui pelo jornalismo mesmo. Era uma paixão. Sempre gostei do jornalismo e é uma coisa da qual eu gosto muito até hoje. Embora hoje eu esteja muito na vida acadêmica, ou quase totalmente nela, porque eu continuo escrevendo para os jornais como colaboradora e como crítica, se alguém pergunta qual é a minha profissão, imediatamente digo jornalista, nunca digo professora. Nada contra ser professora. Mas acho que é uma coisa que está tão em mim que imediatamente eu falo jornalista. Depois eu acrescento a função de professora. 

Por que você optou por um lado mais teórico da fotografia?
Eu não optei por tirar foto. Porque, desde o início, a minha opção foi texto. Eu nunca pensei em ser fotógrafa. Então, quando as pessoas dizem ‘o crítico é um fotógrafo frustrado’ eu digo que não, porque eu nunca pensei em ser fotógrafa. Então eu não me sinto frustrada. Ou então dizem ‘você fala porque não sabe fazer’ e eu respondo que ‘não, eu sei fazer’ porque eu fiz vários cursos de fotografia e, até 1990, eu fotografei. Já fiz foto profissional, fiz estágio como fotógrafa em jornalismo, mas não é isso o que me atrai. O que sempre me atraiu é como a imagem comunica, qual a importância da imagem. Realmente eu sempre gostei da teoria. Eu nunca tive dúvidas quanto a isso. Eu gosto de fotografar, eu compro equipamento, faço fotos para mim, mas não é a minha prioridade. A minha prioridade é o teórico. É o que eu gosto. 

Qual a importância da fotografia? 
Eu acho que ela é uma linguagem fascinante. Primeiro porque todo mundo tem acesso a ela, então a acho que absolutamente democrática. Tem gente que diz que o lápis é mais democrático. Não sei, eu acho que as pessoas, às vezes, ficam mais inibidas em desenhar do que em fotografar. Ela está em várias áreas do conhecimento. Você pode usar a fotografia como registro puro e simples, no lugar do lápis. Hoje em dia, pelo celular você fotografia a capa do livro, em vez de escrever você fotografa a lousa do professor. Você pode fazer arte com a fotografia. E, na questão do jornalismo, porque dentro da fotografia a área que eu mais gosto é a do fotojornalismo, eu não acredito que ela mude o mundo, mas eu acho que ela é um grande vetor de discussão. Eu acho que, hoje, vários autores já falaram isso, ninguém pode dizer que ‘não sabia’, porque a fotografia mostrou. Você pode não querer ver, você pode não querer fazer nada, como você pode querer não escutar. Mas você não pode dizer ‘eu não sabia que isso acontecia’ porque, cada vez mais, o fotógrafo se tornou o verdadeiro jornalista. É ele que está na rua, nos lugares. Então, eu acho que a importância da fotografia é esse fascínio, esse poder que ela tem. Ela está na mão de todos, então ela é generosa, democrática e, ao mesmo tempo, ela traz o mundo para muito perto.

Como você avalia essa questão das redes sociais hoje em dia? Elas atrapalham a divulgação do fotojornalismo, por exemplo?
Acho que a tecnologia nunca tem culpa de nada. São as pessoas que fazem mal uso dela. Então, sem dúvida nenhuma, as redes hoje acabaram se tornando fundamentais. Para o bem e para o mal. Se você não está numa rede dessas como profissional, como professor, você acaba quase que desaparecendo nesse mar. Então, é bom você ter. Eu me irrito muito com gente que fica perdendo tempo ali. Por exemplo, saber o que a pessoa está comendo, aquele checkpoint. Isso, para mim, é uma coisa que atrapalha e suja o Facebook. Sei que ele tem essa parte lúdica, sei também que ele tem que funcionar assim. A mim atrapalha, porque acho que perdemos um tempo enorme no Facebook, às vezes para ver coisas interessantes, porque você tem 200 páginas de bobagem. Eu acho ele muito útil. Eu acho que ele é imediato, acho que ele é um ponto de encontro. As pessoas começam a perceber isso, é só ver a quantidade de grupos que vão nascendo. Me colocaram em um grupo de jornalistas que eu nem sabia que existia. Mas se eu quiser saber só isso, eu vou lá. Acho que ele é uma boa coisa. Eu não adoro, mas acho necessário e, se bem usado, é muito bom. 

Qual a principal relação entre comunicação e fotografia?
Eu defendo uma tese de que a fotografia, ontologicamente, no seu DNA, pertence à área da comunicação. Antes de qualquer coisa ela é comunicação. Ela pode ser arte, pode ser o que quiser. Mas ela está intimamente ligada à comunicação. Ela não nasceu por isso, mas, logo em seguida, se transformou nisso, como uma forma de documentar o mundo, de trazer experiências. Essas são coisas que fazem parte da área da comunicação. Então eu não consigo ver a fotografia separada da comunicação. Como forma de expressão, como linguagem, ela está ligada a isso. Quem fotografa quer comunicar alguma coisa necessariamente. Não existe separação. E eu acho a fotografia muito mais próxima de uma escrita, de uma narrativa escrita, do que, por exemplo, da pintura. A forma de construção dela, mesmo quando pensamos em moda, em publicidade, acho que é muito próxima do texto. Na minha opinião, a fotografia é da área da comunicação. E, depois, navega pelos espaços que ela quer. 

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves