"Isento de verdade", site Sensacionalista brinca com o noticiário e faz sucesso na web

Lucas Carvalho* | 06/11/2014 17:15

Na última segunda-feira (3/11), a Folha de S. Paulo informou que uma agente de trânsito foi condenada por parar um juiz na blitz da Lei Seca e, repreendida, teria dito que ele “não era Deus”. A notícia se espalhou e rendeu discussão e brincadeiras nas redes sociais. Uma das piadas chegou a derrubar um popular site de humor do ar.


Crédito:Reprodução
Site publica notícias falsas e baseadas no noticiários real

A brincadeira, no caso, foi uma falsa notícia cuja manchete destacava: “Vaticano canoniza todos os juízes brasileiros”. A postagem foi de autoria do portal Sensacionalista que, como o nome indica, usa da ironia e do bom humor para repercutir informações que, de tão exageradas, poderiam ser reais.

O projeto foi criado em 2009 por Nelito Fernandes. Ex-redator do humorístico “Casseta & Planeta”, da TV Globo, o jornalista encontrou na internet uma forma de continuar fazendo piada com o noticiário, assim como Beto Silva, Hélio de La Peña e Marcelo Madureira fizeram no fim dos anos 70 com o Casseta Popular.

O Sensacionalista, porém, tem outra inspiração direta: o site norte-americano The Onion (“A Cebola”, em português), mural das “melhores notícias da América”. “A ideia era meio que unir essas duas coisas: fazer humor com linguagem jornalística. É uma brincadeira entre amigos”, revela Nelito.

O site é tocado por outras quatro pessoas: Martha Mendonça, Leonardo Lanna, Vinícius Antunes e Carolina Massote. Sem uma “redação” ou mesmo a estrutura de um negócio sério, o conteúdo é feito “como dá, quando dá, sem pressão, sem nenhum plano ou objetivo”, segundo o jornalista. Por esse motivo, o Sensacionalista já chegou a ficar seis meses desativado, aguardando um espaço na agenda dos redatores.

Nessa época, a página no Facebook tinha 140 mil seguidores. Com a proximidade da Copa do Mundo e das eleições, a equipe decidiu aproveitar o momento e trazê-lo de volta. Hoje, com o fim desses eventos, a página já tem 290 mil curtidas – mais do que o dobro de fãs em pouco menos de quatro meses.

Mais precisamente durante a corrida eleitoral, o site atingiu picos de 300 mil visitas em um único dia, e publicações que atingiram 4 milhões de pessoas nas redes sociais. A fama, porém, trouxe problemas. “Na hora que eu falo pra você ‘legal, o site teve 300 mil visitas’, eu penso: ‘caramba, como é que a gente vai pagar o servidor?’”, brinca Nelito.

Hoje, a equipe não tem interesse em tornar o projeto um negócio sério. Após uma passagem que durou cinco temporadas na TV com o “Jornal Sensacionalista” (exibido no Multishow, de 2011 a 2014), o jornalista revela que sua única preocupação atualmente é “resolver os problemas do servidor”. “Já chegamos ao máximo”, comenta.

Crédito:Reprodução/Facebook
Leonardo Lanna, Nelito Fernandes e Martha Mendonça no estúdio do 'Jornal Sensacionalista', do Multishow

Fato vs. ficção

Frequentemente, diversos veículos repercutem notícias do Sensacionalista como se fossem reais. Em alguns casos, as “informações” se tornam virais nas internet e chegam a erguer discussões em perfis de formadores de opinião. Foi o caso de uma nota publicada em 2013 que dizia: “Bancada gay lança projeto de lei para proibir casamento de evangélicos”.

A “notícia” foi compartilhada por diversos blogs e portais evangélicos e chegou a render comentários do pastor e apresentador de TV Silas Malafaia, seguido por 824 mil pessoas no Twitter. Até o deputado federal Jean Wyllys teve que divulgar uma nota oficial explicando a natureza humorística da história, e, inclusive, exigindo retratação dos sites que a publicaram como se fosse verdade. Na “nota”, o político era descrito como o líder do suposto projeto.

Nelito explica que o objetivo do Sensacionalista nunca foi o de fazer circular notícias falsas como se fossem reais. “Se eu quisesse fazer isso e colocasse o nome do site de ‘Sensacionalista’, eu estaria maluco”, explica. “Mas isso [repercussão] já aconteceu por boa fé e também por má fé.”

O jornalista conta que outras histórias também extrapolaram os limites do site e ganharam manchetes na grande mídia. A notícia “Mulher engravidou vendo filme pornô 3D”, por exemplo, chegou a ser compartilhada em portais de mais de 70 países. “Casal gay é proibido de adotar surfista de 22 anos”, em outra situação, virou pauta da RedeTV!.

“A produção ligou pra gente pra tentar pegar o telefone do casal. Eu até pensei em ir lá e dar entrevista”, diverte-se Nelito. “Mas eu sou jornalista, não poderia. O que eu acho que acontece é que um vai passando pro outro, sabe? Tira do contexto. Quando você entra no Sensacionalista e olha em volta, você começa a perceber que... tem alguma coisa estranha ali”, continua.

“A gente acha engraçado quando acontece. No início eu ficava mandando e-mails para os jornais dizendo que era mentira etc. Muitos nem respondem. Decidi que não vou mais ficar perdendo tempo com isso. E agora tem acontecido bem menos, porque o site já está bastante conhecido.”

Papo de redação

Para Nelito, o sucesso do portal está na forma como ele é escrito. A equipe é composta por dois jornalistas, dois historiadores e um analista de conteúdo. Deles, quatro são redatores de humor na TV Globo. Inclusive o idealizador do projeto, que prepara uma nova série para estrear na emissora em 2015. Por esse motivo, as manchetes parecem reais e poderiam estar, facilmente, na capa de algum jornal ou na home de um grande portal.

Com o sucesso, o Sensacionalista acabou se tornando sinônimo de notícias “bizarras”. “Pra gente, isso é muito legal, um reconhecimento. Se a coisa é doida, poderia ser do Sensacionalista. Às vezes, infelizmente, não é, como dizer que o José Sarney está sendo cotado para ser Ministro da Cultura”, brinca o jornalista.

Nelito finaliza explicando que a inspiração vem da própria leitura do jornal diário. Um costume que, segundo ele, sempre rende boas piadas entre quem gosta de se manter informado. “É como naquele cafezinho da redação, em que um faz piada com as notícias do outro. Foi isso o que a gente levou para o Sensacionalista. Um exagero em cima da realidade – que, por vezes, é mais cômica do que a gente consegue fazer.”

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

Leia também