“A ideia do que é um jornal deve ser reinventada”, diz Fernanda Santos do "NYT"

Luiz Gustavo Pacete | 14/09/2012 16:50
Fernanda Santos, primeira e única repórter brasileira no New York Times, foi uma das convidadas do mídia.JOR, que oconteceus nos dias 12 e 13/9, em São Paulo. Natural de Salvador (BA), Fernanda se formou no programa de mestrado em jornalismo da Boston University.

Nos Estados Unidos, trabalhou em dois jornais e também na revista People. No NYT já cobriu crime, educação, política, bem-estar social, imigração e negócios. Em maio de 2012, assumiu a chefia da redação do jornal em Phoenix, onde é responsável pela cobertura dos estados do Arizona e Novo México.
Alf Ribeiro
Fernanda Santos
Fernanda discutiu com outros colegas o futuro dos jornais. Para ela, se os periódicos não conseguirem repensar o conceito do que é fazer jornal o mais rápido possível, pode ser tarde.

Em entrevista à IMPRENSA, a jornalista contou de que maneira o NYT enxerga o jornalismo multimídia e como adotou estratégias para lidar com a grave crise dos jornais nos Estados Unidos. 

IMPRENSA – De que maneira o New York Times agiu perante a crise dos jornais que nos Estados Unidos teve impactos desastrosos?
Fernanda Santos – Nos Estados Unidos a crise começou muito antes, mas desde cedo o New York Times reconhecia que se a ideia do jornal não fosse reinventada – não só o jornal de hoje, mas o do futuro – não era garantida a existência desta plataforma. Foi quase um exercício de tarô. Porque não tinha nenhum modelo a ser seguido. Obviamente que com a internet todo mundo sabia que era este o caminho. Mas inicialmente houve um erro na forma de cobrar pelo conteúdo, já que, perceberam que o modelo de anúncio não se replicava na internet como era no impresso. Na internet o anúncio é muito mais barato. 

Quais foram as estratégias do jornal para lidar com essas mudanças?
Fizeram duas coisas - até com a ajuda de muitos analistas que tiveram grandes sacadas. Primeiro, investiram forte na questão de vídeo multimídia. Foi uma coisa que desde o começou simpatizou no jornal. A recomendação sempre foi de que eles não queriam um repórter fazendo uma entrevista com seu bloquinho e com a câmera ligada no tripé. Seria mais do mesmo. Não ia acrescentar em nada. A ideia do conceito multimídia do New York Times é de acrescentar uma nova dimensão à reportagem que você está oferecendo. Para isso, o jornal contratou uma equipe de vídeo especializada para trabalhar com o teor informativo deste conteúdo. 

Como foi tratada a questão cultural com os jornalistas mais resistentes?
Foi um processo de educação dos repórteres para lidarem com um produto multimídia de qualidade. 

Como mudou sua dinâmica neste processo novo?
Hoje em dia eu não faço vídeos. Mas trabalho integrada com a equipe de vídeos contribuindo com eles na concepção da matéria feita em vídeo. Mas a questão é sempre ter diferencial. Se não houver diferencial, a pessoa já tem o noticiário.

Qual foi a segunda estratégia do jornal?
Apesar das reclamações, o paywall foi uma forma de poder cobrar pelo conteúdo online. É até óbvio, se você está pensando em um mercado que num futuro não muito distante vai deixar de existir no papel e um modelo de negócios que não funciona porque é insustentável. Como você não vai cobrar? Ao adotar esse modelo, o jornal se arriscou. Tanto que tentaram uma primeira vez e não deu certo. Repensaram esse modelo e agora, já temos um modelo definido.

Que tipo de resultado este modelo está trazendo?
De acordo com os dados recentes, cresceu o número de pessoas pagando pelo acesso digital do jornal. Acredita-se no New York Times que, em dez ou quinze anos, a perda dos anúncios no impresso serão compensadas no ambiente online.

Como é tratado o conceito de furo jornalístico no NYT?
De forma normal. A única coisa que mudou é que agora você tem outros canais mais ágeis para dar esse furo. Pode ser pelo Twitter, por exemplo. Mas lá temos uma metodologia que, claro que não é perfeita, mas ela determina que em caso de um repórter dar algum furo, independente da plataforma, mesmo que seja na rede social, a ele é atribuído essa exclusividade da informação. 

De que maneira o jornal se fará relevante?
Quando ele deixar de dar a notícia de ontem hoje. A pessoa já ouviu no rádio, acompanhou pela internet, não tem porque ler informação velha no jornal. As matérias dos jornais devem oferecer uma razão para que a pessoa continue lendo.