Correspondentes comentam o desafio de trabalhar em um país grande como o Brasil

Mauricio Kanno | 09/10/2013 11:30
Juan Arias, correspondente do espanhol El País, contou em primeira mão durante debate no seminário mídia.JOR que, a partir de novembro, o jornal será bilíngue. “Sim, os brasileiros vão poder ler o El País em português, o que mostra a importância que o jornal está dando ao Brasil”, contou.

Crédito:Alf Ribeiro
Para os jornalistas, fazer a cobertura sobre o Brasil é um desafio pelo tamanho do país


A declaração ocorreu durante o painel “Diálogos VI – Correspondentes estrangeiros no Brasil: pautas e dificuldades de adaptação e apuração”, que reuniu Pierre Ausseill, da Agência France Presse (AFP); e Todd Benson, da Reuters.

Arias, que trabalha no jornal que nasceu depois de 40 anos de ditadura na Espanha e é hoje o jornal mais importante em língua espanhola do mundo, considera que “não é momento de euforia no Brasil, mas é verdade que este país está nos sonhos do mundo, de onde se esperam os próximos Bill Gates e Steve Jobs”, garante.

Ele também afirmou que sentiu confortável no início por saber que estaria num país latino-americano quando começou seu trabalho no Brasil. “No entanto, ao conversar com os brasileiros, pude perceber que eles não se sentem latino-americanos, apesar de estar na América Latina!” Ou seja, era um país mais diferente, além de ter outra língua em relação aos demais países do continente. 

“Meu primeiro choque foi por causa da amabilidade dos brasileiros. O espanhol é muito mais duro”, compara. “Eu estava no mercado, fui ao caixa, e me falaram algo como: ‘Oi, meu amor!’” Ele também estranhou como numa loja indicaram outra em que o produto estaria mais barato, assim como, no ônibus, em dois minutos a pessoa está já contando toda a sua vida e o que pensa do prefeito, enquanto na Suíça dizer umas duas palavras seria uma ofensa.

Clichês
Já Ausseill, da AFP, destacou o perigo dos clichês. “Este é um país em uma categoria que não está sempre no centro da atualidade, mas fica no imaginário mundial”, diz. “Então, é ao mesmo tempo fascinante e perigoso ser correspondente aqui. A partir do clichê, suas matérias vão interessar aos leitores, mas o risco é ficar só nisso”.

Ele compara essa situação a do turista que vai fotografar as pirâmides do Egito só para comprovar que os guias de turismo estavam certos. “Existem duas camadas de clichês: o colonial, do samba, carnaval, de favela e tráfico. A segunda é do conto de fadas, mas também simples demais para ser verdade: a do gigante que acordou, do operário sindicalista que virou presidente e tirou 40 milhões da pobreza, das enormes reservas de petróleo e agora vai organizar Copa do Mundo e Olimpíadas.”

O francês também afirma que há grande dificuldade logística em cobrir o Brasil, devido às suas dimensões, maior que a Europa. “Temos escritório no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, mas o país é muito mais que isso. E se acontece um desastre numa boate no sul do país, como fazer, se agência de notícias não podemos demorar cinco horas para dar uma notícia?”

Obsessão com notícias de fora
Todd Benson, da agência Reuters, destacou algo peculiar a obsessão do Brasil sobre o que o resto do mundo escreve sobre o país. “Aqui acontece uma cobertura sobre o que os jornalistas de outros países escrevem sobre o Brasil, como se vê em poucos países.” Citou como exemplos o “Jornal Nacional” dando chamada sobre manchetes de jornais estrangeiros, além da coluna na Folha de S.Paulo “Toda Mídia”, que tinha exatamente essa função. 

“Pelo tamanho e importância do país, acho que não precisaria ter essa obssessão. A própria presidente Dilma Rousseff e ministro Mantega dão comentários públicos sobre capa da revista The Economist de um modo que eu não veria autoridades dos Estados Unidos fazendo. Temos problemas maiores”, completa. 

Mesmo assim, ele explica a maneira como o Brasil foi visto pelo mundo em três fases, pelo que acompanhou pessoalmente. A primeira seria de 1999 a 2002, quando o país saía de crises consecutivas e o exterior tinha pouco interesse. “Era muito difícil ver nossas matérias publicadas em jornais estrangeiros”, relatou Benson.

Mas depois veio o presidente Luis Inácio Lula da Silva e o “boom” brasileiro, com crescimento do PIB, o novo milagre brasileiro, até 2010, com muito interesse do exterior, pois o país do futuro finalmente teria chegado. Já, de 2011 até hoje, seria para o jornalista da Reuters a volta à realidade. “A visão do exterior voltou a ser crítica, pela fase nacional de mediocridade, estagnação ou engessamento da economia e burocracia”, analisou.