O jornalista se colocou como herói no “new journalism”, diz pesquisadora

Maurício Kanno | 09/12/2013 17:15

O autor se evidencia nas obras do new journalism, mesmo considerando períodos tão variados como os anos 1950 até 2000, nos Estados Unidos. Para a pesquisadora Cyntia Andretta, que os analisou em tese de doutorado na Unicamp, o jornalista se coloca como uma espécie de “herói” nesses livros, que mesclam jornalismo com literatura. 


Crédito:Antoninho Perri/Jornal da Unicamp
Cyntia Andretta, jornalista e doutora em Teoria Literária na Unicamp
Cyntia Andretta, jornalista e doutora em Teoria Literária pela Unicamp

O papel de quem escreve é apenas aparentemente secundário. Em “A Luta”, de Norman Mailer, o autor demonstra que torce para Muhammad Ali, coloca-se como o jornalista que cobriu a grande luta contra George Foreman, em 1974, e se mostra como o primeiro a falar com os pugilistas, contrair doença na África e retornar aos EUA. Ele narra a vitória de Ali, que representaria a hegemonia negra, em ressonância com a luta no país.

Crédito:Biblioteca do Congresso dos EUA
Pugilista Muhammad Ali, acompanhado por Norman Mailer
Pugilista Muhammad Ali, acompanhado por Norman Mailer
“O foco de luz é direcionado para o jornalista, inserido como personagem, talvez até inconscientemente, tanto nas obras trabalhadas em primeira como em terceira pessoa”, analisa a professora. Para ela, é nítido como a partir dele sabemos da história. 

Essa característica do autor evidenciado pode até parecer estranha de se pensar em livros de terceira pessoa onisciente, como no caso do trabalho de Gay Talese, “A Mulher do Próximo”. Afinal, em determinado momento, insere-se na trama “um tal de Gay Talese”, que se descreve. “Então se percebe que é o personagem que escreve a obra”, conta. O jornalista faz questão de mostrar que esteve ali.

Jornalismo x Literatura
Cyntia se debruçou sobre essas obras do new journalism buscando encontrar os traços literários desses livros produzidos por jornalistas.

Do lado jornalístico, ela identificava a marcação do fato real, às fontes, à apuração. No entanto, diz que o conceito encontrado de literatura não se difere de obras de outros gêneros. Mas a questão do autor-jornalista em evidência se sobressai. 

Outros traços encontrados foram a construção de enredos, particulares para cada obra. Seria um elemento da literatura que não haveria no jornal. E essa intensidade pode variar; em “O segredo de Joe Gould”, de Joseph Mitchell, há dois perfis. No segundo, o enredo é mais construído, com maior sentimento de clima. 

Crédito:Susan Sterner/Casa Branca
Tom Wolfe brincaria mais com a linguagem, segundo Cyntia
Tom Wolfe brincaria mais com a linguagem, segundo Cyntia
Além disso, existe o jogo dos focos narrativos e a variação da intensidade dos lados jornalísticos ou literários nas obras, dependendo da voz autoral de cada um.

Por exemplo, Tom Wolfe brinca mais com as palavras, permite-se mais ironias. “Às vezes, podemos ter dúvida se ele não está inventando alguma coisa”, comenta Cyntia. Já Talese demonstra preocupação mais forte com o lado jornalístico, com linguagem mais seca, objetiva, mesmo que o livro seja maior. Inclui muita documentação e deixa claro que o texto não é ficcional.

Mesmo com critérios de “noticiabilidade”, com assuntos que podem surgir de uma matéria com repercussão maior, os textos são para ser lidos como romances, não como matéria de jornal, como dizia Wolfe. 

Contexto e repercussão
A pesquisadora Cyntia Andretta, hoje professora na PUC-Campinas, é graduada tanto em Letras como em Jornalismo. Achou natural juntar as duas áreas na pós-graduação. Sua tese de doutorado, defendida no meio do ano, prossegue com o tema de seu estudo de mestrado.

Ela explica que, seguramente, já existia o estilo de jornalismo literário também em outras partes do mundo, mas ele se concentrou de modo efervescente nos Estados Unidos na década de 1960, quando todo mundo queria fazer desse modo. No Brasil, as principais repercussões, com a busca da “quebra do lide” e maior apelo estético ao texto, teriam ocorrido na revista Realidade (1966-1976) e, hoje, na revista Piauí

Cyntia justifica o new journalism no período pelo contexto do movimento de contra-cultura. “Acontecia na música, política, população contra a Guerra do Vietnã”, exemplifica a pesquisadora. “Isso parece ter influenciado os jornalistas a também, talvez não de modo tão consciente, com plaquinhas e tal, a buscar fazer reportagens com maior liberdade", conclui.