"A existência da imprensa ainda é uma garantia de democracia", diz Umberto Eco

Redação Portal IMPRENSA | 31/03/2015 12:30
Em entrevista ao jornal El País, o jornalista e filólogo italiano Umberto Eco contou detalhes sobre seu novo romance, "Número Zero", que retrata o cotidiano de um editor ao montar um jornal que não sairá às ruas, mas servirá para intimidar e chantagear adversários. 

Crédito:Wikimedia Commons
Escritor defende a imprensa como sinal de democracia

A obra deve ser lançada no Brasil ainda este ano, pela Record. "Há leitores que encontraram em Número Zero o eco de muitos artigos meus, cuja substância utilizei porque já se sabe que as pessoas esquecem amanhã o que leram hoje", disse o autor.

Segundo o escritor, a inspiração inicial surgiu de um personagem da história italiana, Pecorelli, um senhor que produzia uma espécie de agência de notícias que jamais chegava às bancas. Os fatos  acabavam na mesa de um ministro, e se transformavam em chantagem.

"Era um jornalista que fazia chantagens e não precisava chegar às bancas: bastava que ameaçasse difundir uma notícia que poderia ser grave para os interesses de outro... Ao escrever o livro pensava nesse jornalismo que sempre existiu, e que na Itália recebeu recentemente o nome de 'máquina de lama', explicou.

Eco ressalta que o livro não é somente um ato de pessimismo sobre o "jornalismo da lama". Ele observa que quando se fala da parte "má" do ofício, os jornais não assumem. "Muitos jornais se reconheceram em 'Número Zero', mas agiram como se estivessem falando de outro", afirma.

O jornalista também comentou sobre a mudança que a internet trouxe para dinâmica da profissão, que para ele, "pode ter tomado o lugar do mau jornalismo". "Se você sabe que está lendo um jornal como El País, La Repubblica, Il Corriere della Sera, pode pensar que existe um certo controle da notícia e confia. Por outro lado, se você lê um jornal como aqueles vespertinos ingleses, sensacionalistas, não confia. Com a internet acontece o contrário: confia em tudo porque não sabe diferenciar a fonte credenciada da disparatada", explicou.

O filólogo acredita que um futuro possível para um bom jornalismo seria a criação de um jornal que não se torne apenas a crítica da realidade cotidiana, mas também a da realidade virtual. "Analisar e criticar o que aparece na Internet hoje teria uma função, e até um rapaz ou uma moça jovem leriam para entender se o que encontraram online é verdadeiro ou falso", defende.

"A existência da imprensa ainda é uma garantia de democracia, de liberdade, porque especialmente a pluralidade dos jornais exerce uma função de controle. Mas, para não morrer, o jornal tem que saber mudar e se adaptar", completou.

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