O leitor vai conhecer o lado humano do Sócrates, diz Kátia Bagnarelli sobre novo livro

Vanessa Gonçalves | 23/12/2013 15:45
Há dois anos o Brasil perdeu um dos ex-jogadores de futebol mais politizados de sua história: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Por uma daquelas coincidências, ele morreu exatamente como queria: “num domingo com o Corinthians campeão”.

No início de dezembro de 2013, a última companheira de Sócrates, a jornalista Kátia Bagnarelli, em parceria com Regina Echeverria, lançou  “Sócrates Brasileiro: minha vida ao lado do maior torcedor do Brasil”, obra que traz um relato do tempo em que viveram juntos e compartilharam um diário. No livro, os leitores e fãs do ex-jogador poderão conhecer um outro lado do ídolo, garante a autora.

Crédito:Arquivo pessoal
Kátia Bagnarelli com o presidente do Corinthians, Mário Gobbi

IMPRENSA - Qual o tema central do livro?
KÁTIA BAGNARELLI - O livro é um relato de memória dos anos em que eu vivi com ele [Sócrates]. Tínhamos um diário juntos, então muitos trechos do livro são escritos em primeira pessoa por ele. Tem também entrevistas, momentos que tivemos com a torcida, com alguns políticos, coisas que vivemos juntos e ninguém soube na época, mas que tem um conteúdo social e político importante, por isso eu trago no livro. 

Você é jornalista. Por que optou por uma parceria com a Regina Echeverria?
Na verdade, foi uma sugestão da editora quando nos conhecemos. Naquela época, ainda muito recente (no ano passado) o falecimento dele, eu não tinha condições emocionais para escrever este livro. E tivemos uma dúvida: será que eu consigo fazer o livro? Será que preciso de alguém para transcrever isso que vou contando? Mas nos surpreendemos. Demorou um pouco, um ano e oito meses para o livro sair, mas eu consegui escrever tudo.  A Regina fez algumas adaptações, porque já tínhamos fechado contrato com ela. Mas lançamos com autoria dupla. Ela não me entrevistou, mas eu consegui fazer em primeira pessoa.

Foi um desafio. Às vezes, não sabia se eu daria conta. Mas a Regina me ajudou muito, porque ela lia e reenviava para mim. A organização do livro foi sugerida e adaptada pela Regina, por toda a experiência que ela tem.

Crédito:Divulgação
Livro traz lado humano do ídolo

Como foi para você esse desafio de separar o lado jornalístico do pessoal para escrever este livro?
Não deu. Durante a produção da obra eu fui internada seis vezes. Escrevi o livro, de verdade, em 24 horas. Mas demorou um ano e oito meses para sair, porque eu escrevia um capítulo e ficava supermal, passava uma semana no hospital, voltava para casa. Para quem ainda não leu, eu conto tudo ali do que ia me lembrando. Então, acabei revivendo tudo de bom e de ruim.

O que o leitor vai encontrar de especial sobre o Sócrates nesta obra?
Algumas coisas. Quem não o conhecia pessoalmente e não conviveu com ele como amigo não teve chance de ver o Sócrates ser humano. Ele sempre teve a imagem de uma pessoa importante no futebol, um visionário, uma pessoa politicamente questionadora, com personalidade fortíssima, segura. Essa é a imagem que foi construída através da imprensa, de todos esses anos de exposição. Mas ele era exatamente ao contrário de tudo isso. Era um mito pela carreira dele, mas uma pessoa sensível, insegura, cheia de questões, um incompreendido.

Ele era um visionário, nem todo mundo conseguia acompanhar o que ele queria, por isso ele não era executivo. Então, tudo isso o leitor consegue ver no livro, o lado humano dele. Ao mesmo tempo, há o contato com a bebida. É a primeira vez que ele falou sobre isso na vida. Não falou nem para os filhos, para a família... Ele nunca quis falar sobre isso, nunca aceitou questionamentos e ajuda. É a primeira vez que ele fala sobre esse contato com o álcool. É importante para as pessoas entenderem de uma forma diferente o que é o vício.

E também tem o lado político, porque ele aos 50 anos resolveu voltar para São Paulo para cuidar da população, fazer trabalho social, falar com a torcida. Ele mesmo dizia: ‘quero ficar perto do meu povo’. Então, tudo isso o leitor encontra no livro: essa volta à ativa como personagem importante política e socialmente.