Lúcio Mesquita, da BBC de Londres, será entrevistado por Sônia Bridi no Midia.JOR

Por Thaís Naldoni e Mariana Rennhard | 14/08/2012 17:30
Lucio Mesquita, diretor de Jornalismo Regional da BBC West, é um dos convidados do Mídia.JOR, evento que celebra os 25 anos da Revista IMPRENSA e que acontece nos dias 12 e 13 de setembro. Mesquita participará do painel "Grandes Entrevistas", no qual será entrevistado pela jornalista Sandra Bridi, da TV Globo, sobre o tema "O DNA da Entrevista". Antes do início do seminário, Mesquita conversou com o Portal IMPRENSA sobre o presente e o futuro do jornalismo nacional e internacional. Veja a seguir:

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A BBC é uma das emissoras mais bem conceituadas no mundo. Quais são os esforços da rede para que o prestígio se mantenha com a chegada das novas mídias? 
O importante para a BBC é manter o padrão de qualidade editorial para qualquer mídia, emergente ou não. Partimos do princípio de que o usuário da BBC exige um nível de qualidade que não depende da plataforma. O que ele ou ela quer da gente, especialmente no tocante ao jornalismo, é um padrão de rigor e isenção editorial que não depende da mídia. Até mesmo porque ninguém utiliza apenas um meio hoje em dia e seria estranho haver um padrão de qualidade para, digamos, o telejornalismo e outro diferente para a internet ou para os chamados ‘smart phones’.

No Brasil, a TV Cultura, uma das poucas emissoras públicas do país, está sendo alvo de críticas em razão da parceria de conteúdo com empresas privadas, como a Folha de S.Paulo. Como você avalia esse tipo de acordo? 
Não cabe à BBC julgar as estratégias de outras emissoras e com certeza a Cultura analisou com cuidado as vantagens e desvantagens de qualquer parceria que tenha desenvolvido. No caso da BBC, temos parcerias com outras produtoras ou emissoras em co-produções como os programas de natureza que são feitos aqui em Bristol. Essas parcerias não são problemáticas porque passam por um crivo cuidadoso para manter a independência editorial da BBC e estabelecer uma salutar distância dos produtores do programa em relação aos mecanismos que custeiam a produção. Assim a isenção editorial é mantida enquanto o custo de produção é partilhado devido aos altos recursos envolvidos nas grandes produções. Daí não ser uma questão de ter parcerias ou não mas a qualidade da parceria, independentemente de quem sejam os parceiros.

A maior parte das operações da BBC é mantida com dinheiro de impostos. Acha que tal sistema funcionaria no Brasil para financiar a TV Brasil, por exemplo? Por que? 
O que mantém a BBC na Grã-Bretanha é uma taxa anual chamada de Licence Fee, paga por todos os imóveis que tenham pelo menos um televisor. A taxa anual custa atualmente £145,50 (independentemente do número de televisores na casa), o que equivale a cerca de 1 real por dia por imóvel. A taxa cobre os custos de todas as operações ‘domésticas’ da BBC: 8 canais de televisão nacionais, cerca de 50 emissoras de rádio locais e nacionais, conteúdo para a internet e telefonia móvel, várias orquestras e atividades educativas relacionadas com a programação. Não há nenhuma taxa adicional mesmo quando oferecemos mais do que o normal – para as Olímpiadas de Londres, por exemplo, quem teve acesso aos sistemas digitais de satélite e cabo teve 24 canais extras em alta definição que a BBC criou para poder transmitir todos os eventos. Para aqueles apenas com o sistema digital de TV por antena, criou-se uma solução técnica para oferecer um serviço equivalente; e o mesmo serviço foi oferecido pelo site da BBC na internet. Tudo isso sem nenhum custo adicional e, como no caso da grade normal de programação da BBC, sem interrupção publicitária ou patrocínio de terceiros.

Existem outras fontes de renda para a rede?
A BBC também busca aumentar a renda com a venda de programas e produtos associados a programas produzidos pela rede. Por exemplo, programas bem-sucedidos como Top Gear e Strictly Come Dancing (que no Brasil virou o Dançando com as Estrelas) geram receitas para a BBC quando vendidos no exterior. E, até agora, os serviços internacionais de rádio e internet da BBC, como a BBCBrasil.com, foram custeados através do governo britânico (mas sob o controle editorial da BBC) mas isso vai mudar nos próximos anos com o custos destes serviços também passando diretamente para a licence fee.

Mas no Brasil, tal sistema seria aceito, na sua opinião?
Se o sistema seria bom ou ruim no Brasil é uma questão puramente para a sociedade brasileira decidir. Aqui na Grã-Bretanha, a maioria da população ainda apoia o sistema da Licence Fee mas sabemos que não é um modelo que funcionaria em todos os países. Talvez o mais importante no debate seja, na minha opinião, uma decisão sobre qual deve ser o papel da emissora pública no país (um serviço de apelo universal ou para cobrir ‘nichos’ que não são explorados pela iniciativa privada?), qual o nível de independência do serviço em relação ao governo do dia (existe uma grande diferença entra emissora estatal e pública, ambas com princípios igualmente válidos mas bem distintos) e qual o modelo de financiamento que garanta estabilidade e independência financeira (uma grande vantagem aqui é que a BBC costuma ter uma licença renovável de 10 anos e uma boa noção da renda que terá no período, o que evita o risco do governo do dia ser tentado a usar a ameaça de cortes de verbas a fim de obter um controle indireto do processo editorial da empresa).

Crédito:Divulgação
Lúcio Mesquita, diretor de Jornalismo Regional da BBC West


Um dos debates mais presentes no meio jornalístico (sobretudo nos sindicatos e federações) é a obrigatoriedade ou não do diploma para o exercício do Jornalismo. Para você, o diploma universitário é importante para o exercício da profissão? 
Aqui na Grã-Bretanha não existe obrigatoriedade de diploma de jornalismo (ou qualquer outro diploma universitário) para exercer a profissão mas o país vem de uma tradição diferente em relação ao curso universitário que os jovens nem sempre veem como vital para seguir uma carreira e sim como uma experiência acadêmica e de vida. Ainda é bem normal encontrar pessoas em muito setores díspares como o financeiro e o de comunicação em que as empresas procuram pessoas com certas características, independetemente do curso concluído. Por exemplo,  o meu editor de telejornalismo aqui em Bristol tem diploma universitário em história antiga mas quis trabalhar em jornalismo. O que é mais comum aqui no jornalismo é as pessoas fazerem um curso universitário não especializado como o exemplo que acabei de dar e depois fazer uma pós-graduação em jornalismo – um curso mais curto e talvez mais parecido com um curso ‘técnico’, em que princípios e práticas de jornalismo são ensinados. Aqui também dá-se muito valor à experiência prática e voluntária em rádios comunitárias, jornais comunitários, universitários, etc. que demonstram o interesse da pessoa em relação à profissão. Talvez o maior desafio encontrado em praticamente todos os mercados, inclusive o britânico, é a questão da ‘origem’ dos profissionais e não necessariamente a trajetória educacional que tenham tido. Enquanto continuarmos recrutando profissionais com caracteristica socio-econômicas semelhantes, aumentamos o risco de produzirmos jornalismo informado por e voltado para as mesmas pessoas.

É possível que um mesmo repórter produza com qualidade conteúdo para diversas mídias simultaneamente? 
Sim. Eu costumo comparar essa questão com o que aceitamos plenamente em relação a um médico. Todo bom médico é capaz de lidar com uma enorme gama de situações por causa de sua formação. Se eu estiver tendo um infarto, não me importarei se o primeiro médico que chegar for um cirurgião plástico porque sabemos que todo médico domina os princípios básicos e essenciais de medicina. Agora, se depois do tratamento emergencial eu precisar de uma delicada e complexa operação no coração, aí eu quero o cardiologista de primeira! Se pensarmos no jornalismo assim, a resposta fica bem mais fácil. Acho que deve ser normal que um repórter seja capaz de operar competentemente em todas as mídias mesmo que tenha alguma especialização; agora, se você quer aquela reportagem ‘definitiva’ que ninguém vai esquecer sobre um certo tema, aí vale explorar as especializações que cada um tem. E existe a questão do tempo disponível e a importância relativa da notícia: no caso de uma grande notícia, faz mais sentido ter mais de um repórter no caso para satisfazer com rapidez os diferentes meios. O irônico é que às vezes tomamos decisões editoriais no caminho oposto: para matéria mais fria, ‘desperdiçamos’ o esforço com o jornalista geralmente se concentrando em um veículo e é na notícia do momento, quando a pressão é enorme, que esperamos que o jornalista se transforme numa espécie de canivete suíço de emergência – nos primeiros momentos, como o primeiro a chegar, isso é possível mas logo depois essa pessoa vai precisar de suporte.

O fácil acesso à tecnologia também facilita essa convergência...
Também há uma questão de geração por trás desta pergunta. Muitos desses princípios de separação de meios surgiram porque a tecnologia era complexa e literalmente pesada. A realidade agora é outra. Se tivemos uma convergência da tecnologia, é natural que haja uma convergência dos usuários da tecnologia. É irônico que hoje em dia estamos contratando jovens profissionais que no dia-a-dia vivem na prática uma ‘vida multimídia’ e aí dizemos: ‘Não, estou te contratando para trabalhar em rádio, portanto esqueça tudo o que você faz em casa com vídeo ou texto porque aqui é só som’. A realidade é que muitos de nossos novos profissionais estão mais em casa com uma operação multimídia do que o método tradicional de redações isoladas. 

Recentemente, a Folha de S. Paulo adotou o mesmo modelo do The New York Times para cobrança de conteúdo online. Você acha que fechar o conteúdo é o caminho para aumentar o faturamento dos veículos online? 
Esse é um dos maiores desafios de todos os veículos de comunicação no mundo. A internet e, mais recentemente, os smart phones e tablets simplesmente revolucionaram a comunicação mas, como em qualquer revolução, também causaram rupturas enormes dos modelos existentes. No caso da mídia impressa, o modelo existe há centenas de anos: alguém publica um jornal/livro/revista e os interessados compram a publicação. No caso da internet, o modelo inicial passou a ser o de conteúdo gratuito. E como consumidores nos acostumamos com a ideia e daí passamos a resistir ao conceito de pagamento. Mais estranho ainda é que no caso dos apps para telefones e tablets, o público parece aceitar sem problema o conceito de algo pago. No momento, o que sabemos é que apesar do crescimento fenomenal do tráfego aos sites de notícias na internet, a receita com anúncios digitais ainda não cobre as perdas com as vendas de jornais na Europa e na América do Norte (vale lembrar que a circulação de jornais tem registrado crescimento, mesmo que modesto, nas economias emergentes como a do Brasil). Daí o que os donos de jornais e revistas tentam buscar são soluções adequadas para equilibrar o orçamento e manter o impacto de suas publicações. Aqui na Grã-Bretanha, o Times também passou ao formato de assinatura digital e o mercado britânico é um bom teste para modelos diferentes. O país sempre teve enorme apetite por jornais (com publicações para todos os gostos) onde os modelos abertos e fechados também estão sendo testados com jornais como o Guardian e o Daily Mail apostando no modelo aberto para expandir aqui e em mercados importantes como os EUA, enquanto o Times testa o modelo de assinatura. Vou terminar esta resposta com um clichê jornalístico: vamos ter que esperar para ver qual modelo vai funcionar melhor.

O mídia.jor, evento que celebra os 25 anos da Revista IMPRENSA, visa também discutir os rumos da profissão de Jornalista. Na sua opinião, é importante que esse tipo de debate se faça presente no dia-a-dia das redações? 
Considero o debate essencial. Aqui na BBC temos o privilégio de termos um grande departamento de treinamento dedicado ao jornalismo, o ‘College of Journalism’, onde não só temos treinamento técnico e prático mas também debatemos e adaptamos conceitos, especialmente em relação às novas mídias. Somos um dos setores mais afetados pela revolução tecnológica das últimas décadas já que ela se centrou no âmbito da comunicação. Meu grande mentor jornalístico no Brasil foi o Fernando Vieira de Mello na Rádio Jovem Pan AM em São Paulo. O Fernando costuma dizer que só o rádio podia chegar num acontecimento já ‘falando/narrando’ os fatos; se ainda estivesse vivo, ele teria visto que com as novas tecnologias, já podemos chegar falando, filmando, fotografando, blogando, etc., etc. E se isso era algo exclusivo dos profissionais, agora qualquer um pode fazer o mesmo – veja o impacto no jornalismo com o twitter, facebook, blogs, etc.  Por isso um constante debate pelos profissionais de comunicação é agora ainda mais importante para determinarmos como vamos servir o consumidor de notícia do futuro e como vamos poder aproveitar novas tecnologias (no lugar de temê-las) para o benefício de nossos usuários. Se no passado o debate era recomendável, acho que agora ele é essencial.

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