"Djavan disse que autores ganham fortunas, isso é besteira", diz Rodrigo Rodrigues

Camilla Demario | 08/10/2013 12:30
Rodrigo Rodrigues, jornalista, apresentador dos canais ESPN Brasil e autor de dois livros, entre eles a biografia da banda Blitz, foi um dos convidados do painel “Diálogos IV – Biografia: A dificuldade da produção não autorizada no Brasil”.

Crédito:Alf Ribeiro
Para o apresentador, jornalistas precisam brigar para derrubar essa lei

IMPRENSA - Qual a sua experiência com a produção de livros biográficos?
RODRIGO RODRIGUES - Eu estou credenciado por ter escrito a biografista da Blitz, que segundo a lenda e a biografia, iniciou o rock brasileiro dos anos 1980, foi o primeiro livro que eu escrevi. Foi bacana porque em termos de painel, de seminário, de discussão e polêmica, porque a banda é rachada. Então, metade de banda queria que escrevesse e metade não. E eu tive que lidar com isso, com integrantes que brigaram com a banda nos 1990 e disseram iam entrar na justiça e mesmo assim eu escrevi na marra.

Como foi a reação deles quando o livro foi publicado?

Quando o livro saiu eles não fizeram nada. Eu, até de cortesia, mandei um exemplar para cada um, porque senti eles deram uma abrandada quando pegaram o livro e viram que não era uma história sobre a galera que ficou na banda, mas da banda. Só tive que tomar um cuidado redobrado porque como não quiseram dar entrevista, tive que me cercar para não ofendê-los pelas minhas palavras nem pelas palavras dos integrantes que ainda estavam na banda e tinham autorizado a biografia. Então, eu usei os três dissidentes da banda falando através de depoimentos da época e reproduzi trechos de entrevistas que deram para jornais e revistas nos anos 1980 para que eles não passassem em branco na biografia. Eles perceberam que eu fiz um esforço para que eles participassem mesmo e aí ficou tudo bem, ninguém encheu o saco com isso.

É natural esse receio antes do texto final ficar pronto?
A discussão é justamente em cima desse "Procure Saber" da biografia não autorizada, porque eram sete pessoas, três autorizaram, três não e uma era neutra, que era a Fernanda Abreu, que no fim das contas autorizou também. Tentei não magoar ninguém, mas é por isso que Ruy Castro diz que 'biografado bom é biografado morto', porque não reclama, mas mesmo assim a família reclama. Porque depois fulano que deu entrevista liga dizendo que não foi bem assim eu digo “mas você quer ouvir o que você falou? Porque eu escrevi o que você falou”.

O que você achou do 'Procure Saber', grupo de artistas, entre eles Caetano Veloso, Roberto Carlos e Djavan, que são contra biografias não autorizadas?
Eu acho ridículo. É como se você pedisse autorização para escrever uma reportagem sobre alguém. Roberto Carlos tem a fama de ser inacessível – e é – barrou a biografia feita pelo Paulo César Araújo, por exemplo. Eu lembro do Ruy Castro ter sido contratado pela Playboy para fazer um grande perfil do Roberto não quis dar entrevista, então ele fez a matéria falando com todo mundo que estava à volta dele, menos ele. O que pode acontecer é você escrever um livro e a pessoa usar as ferramentas legais que já estão aí; se você acha que foi ofendido, vai lá e processa a pessoa, acabou. Mas ficar proibindo é uma coisa completamente sem sentido.

Qual desfecho você prevê para essa polêmica sobre autorização de biografias?
Não tenho a menor ideia, mas acho que a gente tem que fazer uma grita gigantesca para evitar que esse troço seja levado adiante, principalmente os jornalistas/biógrafos, os caras que trabalham com esse formato. Como jornalista eu acho um absurdo, não tem essa, grandes biografias são não autorizadas, até porque se a pessoa morreu é difícil encontrar alguém que formalmente autorize alguma coisa, você vai proibir os jornalistas de contarem a história, que é o que vai ficar? É uma burrice.

O argumento dos artistas que são contra essas biografias é que o autores ganham em cima desses livros...
O Djavan soltou uma nota dizendo que os autores ganham fortunas, isso é uma besteira. O André Barcisnski colocou no blog dele que os autores ganham 10% no preço de capa, que em média custa R$ 40, no Brasil se você vende 3 mil exemplares já é um livro de sucesso, que fortuna é essa, da onde os caras estão tirando isso? Alguns biógrafos de primeiro escalão recebem encomendas de editoras e recebem até adiantamento do pagamento, mas isso é tão raro. É como discutir salário de jogador de futebol usando como medida o dos jogadores da seleção brasileira. Eles são uma fatia muito recortada da realidade, porque a maioria no Brasil joga metade do ano e ganha mil reais por mês. É uma besteira atômica, que não dá nem para levar a sério.

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